Foto do PIB no 1º tri mostra demanda interna resiliente e força menor do agronegócio

Atividade econômica ganha tração no início de 2026 com estímulos à renda e consumo das famílias, mas economistas alertam para pressão sobre a Selic no segundo semestre

Élida Oliveira

Varejo (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Varejo (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

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A economia brasileira começou o ano com avanço de 1,1% no Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, comparado ao trimestre imediatamente anterior. Em relação ao mesmo período do ano passado, o avanço do indicador foi de 1,8%. Em 2025, o avanço do primeiro trimestre havia sido de 1,4%.

O resultado veio em linha com as estimativas do mercado e, na análise dos especialistas, a economia segue resiliente. 

Rodolfo Margato, economista da XP, destaca que, desta vez, o resultado do PIB não foi impulsionado pelo agro, mas sim pela recuperação da indústria e do varejo, além do crescimento constante em diversas atividades de serviços. Na comparação anual, a indústria avançou 1,6%, e serviços cresceu 2,1%, já perdendo fôlego, segundo Margato. 

O agro teve desempenho 0,7% superior ao primeiro trimestre do ano passado, percentual relativamente baixo porque a base de comparação era alta, já que em 2025 houve uma supersafra após um ano de queda.

A expectativa para o ano é de que a atividade doméstica permaneça sólida, sustentada por impulsos de renda e crédito, avalia Margato.

PeríodoPIBAGROINDUSSERVFBCFCONS. FAMCONS. GOV
1T26 / 4T2025 (com ajuste sazonal)1,10%2,00%1,00%0,50%3,50%1,00%0,40%
1T26/1T25 (sem ajuste sazonal)1,80%0,70%1,60%2,10%-1,40%1,70%2,80%
Acumulado em quatro trimestres / mesmo período do ano anterior (sem ajuste sazonal)2,00%7,50%1,30%1,80%0,40%1,20%2,30%
Fonte: IBGE

Motor da oferta: Extrativismo, construção e soja

Pela ótica da oferta, o crescimento da agropecuária foi sustentado pela safra recorde de soja, com produção 4,8% acima da estimativa anual, favorecida por condições climáticas e expansão de área plantada, avalia Leonardo Costa, economista do Asa. Na direção oposta, Costa destaca que o milho teve recuo de 2,5%, e o arroz perdeu 10,6% no desempenho.

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A indústria avançou 1,0% no trimestre, tracionada, sobretudo, pela indústria extrativa mineral, que saltou 3,6% devido à forte extração de petróleo e gás. A construção civil também demonstrou força, com alta de 2,9%, o que reflete o crescimento do pessoal ocupado na atividade e a execução de obras de programas habitacionais. 

Por outro lado, a indústria de transformação ficou praticamente estagnada, registrando apenas 0,1% de variação. Segundo Matheus Pizzani, economista do PicPay, esse cenário ratifica o quadro de “comportamento apenas moderado” de setores sensíveis aos ciclos da economia doméstica. 

O setor de serviços, responsável por cerca de 70% da economia, cresceu 0,5%. As áreas de informação e comunicação aceleraram 2,4%, enquanto o segmento de transportes e logística recuou 0,7%. Costa relaciona essa queda em transportes aos custos de combustíveis, alertando que o impacto pode se agravar no segundo trimestre em decorrência das tensões no Oriente Médio. 

Demanda doméstica puxada por estímulos fiscais

Sob a ótica da demanda, o consumo das famílias expandiu 1,0% no primeiro trimestre. Esse avanço encontrou suporte em um mercado de trabalho resiliente e em medidas de estímulo governamentais, como o reajuste real do salário mínimo, transferências sociais e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil, destaca Margato. 

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), principal métrica de investimentos, surpreendeu positivamente ao crescer 3,5%, revertendo a queda de 3,4% do trimestre anterior. 

Apesar do dado positivo na comparação trimestral, a leitura anual aponta retração de 1,4%, impactado pela queda na produção de bens de capital. Além disso, a taxa de investimento recuou de 17,6% (no 1T25) para 16,5%. Costa alerta que a combinação de investimento em queda e poupança pressionada segue como um ponto de atenção estrutural para a trajetória de crescimento sustentável. 

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No setor externo, as exportações recuaram 1,7% e as importações subiram 4,4%, configurando uma contribuição sequencial negativa para o PIB. 

Projeções: Desaceleração à vista

Para o restante de 2026, o consenso entre os analistas aponta para uma continuidade do crescimento, porém com uma desaceleração gradual. 

Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, adverte que o mercado continua preocupado com o segundo semestre, porque juros altos, inflação pressionada, cenário eleitoral e incertezas externas podem desacelerar a atividade mais à frente. Carlos Lopes, economista do banco BV, corrobora essa visão, indicando que os primeiros sinais do segundo trimestre apontam para um crescimento possivelmente mais próximo de zero. 

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Apesar da esperada perda de fôlego, o viés para o encerramento do ano é altista, com projeções de mercado variando majoritariamente entre 1,7% (C6) e 2,0% (XP e AZ Quest). 

Rodolfo Margato, da XP, prevê que o amplo conjunto de medidas de estímulo do governo “pode adicionar até 1,5 ponto percentual ao crescimento geral do PIB” em 2026. Rafael Perez, da Suno Research, projeta 1,8%, também ressaltando o viés de alta. 

A consequência direta desse cenário incide sobre o Comitê de Política Monetária (Copom) é que a resiliência da demanda interna pode forçar a autoridade monetária a recalcular a rota. 

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Mariana Rodrigues, da SulAmérica Investimentos, destaca que o Banco Central deverá revisar suas estimativas para o hiato do produto. “A estimativa [do BC] passa a carregar um claro viés de alta, convergindo para um cenário que ainda não havia sido incorporado pela autoridade monetária em seu balanço de riscos”, conclui a economista.