Burnout virou custo — e empresas mudam a forma de tratar saúde mental

Saúde mental deixa de ser tratada como benefício “soft” e passa a entrar na conta de produtividade, retenção e custo operacional

Marcelo Monteiro

Pesquisa publicada pela Harvard Business Review aponta que o burnout mais preocupante está crescendo entre profissionais de 40 e 50 anos (Foto: Inteligência Artificial)
Pesquisa publicada pela Harvard Business Review aponta que o burnout mais preocupante está crescendo entre profissionais de 40 e 50 anos (Foto: Inteligência Artificial)

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Durante anos, saúde mental ocupou um espaço quase decorativo no mundo corporativo. Era pauta de RH, campanha interna, palestra de setembro amarelo ou benefício complementar no pacote de bem-estar. Agora, a conversa mudou de patamar.

Uma pesquisa divulgada pelo Wellhub mostrou que 89% dos líderes brasileiros afirmam que problemas de saúde mental aumentam os custos das empresas.

O levantamento ouviu 150 executivos brasileiros e 1.515 líderes globais e reforça uma mudança importante no discurso corporativo: o burnout deixou de ser apenas um problema humano. Virou problema financeiro.

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“O colapso da saúde mental na folha não é uma projeção para o futuro. Está acontecendo agora”, afirma Ricardo Guerra, CEO do Wellhub no Brasil.

Na prática, empresas começam a associar saúde mental a absenteísmo, queda de produtividade, afastamentos, perda de talentos, aumento de rotatividade e redução de engajamento.

“Tratar o bem-estar como um benefício supérfluo e periférico é o maior atestado de indiferença na gestão de ativos que uma liderança pode assinar hoje”, diz Guerra.

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A fala ajuda a explicar por que o tema ganhou centralidade estratégica dentro das empresas nos últimos anos.

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O burnout mudou de endereço

Durante muito tempo, o mercado associou exaustão principalmente aos profissionais mais jovens, em início de carreira. Mas novos estudos começam a mostrar outro movimento.

Pesquisa publicada pela Harvard Business Review aponta que o burnout mais preocupante está crescendo entre profissionais de 40 e 50 anos — justamente o grupo mais experiente e estratégico das organizações.

Segundo o estudo, o problema atinge especialmente líderes e profissionais considerados de alto desempenho, aqueles que ocupam posições críticas na sucessão executiva das empresas.

A HBR descreve esse grupo como vivendo uma “convergência de pressões”: pico de responsabilidades profissionais; demandas familiares; necessidade contínua de requalificação; escassez extrema de tempo; dificuldade crescente de reflexão e recuperação mental.

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A tese central é poderosa: as carreiras ficaram longas demais para os modelos antigos de trabalho.

Segundo a publicação, profissionais hoje podem permanecer ativos até os 70 anos ou mais — mas seguem submetidos a estruturas desenhadas décadas atrás, quando a vida profissional era muito mais curta.

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Trabalho híbrido ampliou pressão invisível

Parte desse desgaste aparece também em outro estudo recente, divulgado pela International Bar Association (IBA).

O relatório global aponta que trabalho híbrido, IA e saúde mental passaram a ocupar o centro das discussões regulatórias trabalhistas em diversos países.

Segundo o documento, empresas enfrentam pressão crescente relacionada a direito à desconexão; excesso de jornada; riscos psicossociais; monitoramento digital e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.

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“Questões relacionadas à saúde mental estão cada vez mais entrando no cerne da regulação no ambiente de trabalho”, afirmou Todd Solomon, integrante do Global Employment Institute da IBA.

Na prática, o modelo híbrido trouxe flexibilidade — mas também diluiu fronteiras.

A lógica do “sempre disponível” ganhou força justamente em ambientes digitais, onde mensagens, reuniões e demandas passaram a invadir horários antes reservados ao descanso.

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Isso ajuda a explicar por que temas como pertencimento, engajamento e fadiga emocional aparecem com frequência crescente em estudos da Gallup, Deloitte Human Capital Trends e Gartner.

A Gallup, por exemplo, já vinha mostrando deterioração global do engajamento e aumento consistente de estresse no trabalho.

A Deloitte, por sua vez, identificou que líderes têm enfrentado dificuldades crescentes para manter confiança, conexão e senso de pertencimento em equipes híbridas.

Agora, novos estudos começam a consolidar uma percepção mais ampla: o problema deixou de ser apenas excesso de trabalho. Tornou-se excesso contínuo de pressão cognitiva.

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Bem-estar virou investimento — não benefício

Outro dado relevante da pesquisa do Wellhub mostra que parte das empresas começa a enxergar retorno financeiro direto em programas de bem-estar.

Segundo o levantamento, em um quarto dos casos analisados o retorno sobre investimento em iniciativas de saúde e bem-estar ultrapassa 100%.

Isso ajuda a explicar por que companhias vêm ampliando investimentos em flexibilidade; apoio psicológico; benefícios ligados à saúde; programas de prevenção; iniciativas de qualidade de vida.

Mas os estudos indicam que existe um limite importante: benefício isolado não resolve cultura organizacional.

O próprio Wellhub aponta diferenças enormes de adesão entre empresas semelhantes, sugerindo que o ambiente corporativo pesa tanto quanto o benefício oferecido.

No fundo, o mercado começa a perceber algo que parecia invisível durante anos:
a produtividade não depende apenas de tecnologia, metas ou eficiência operacional.

Ela depende também da capacidade humana de continuar funcionando sem quebrar no meio do caminho.

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