Mapa de Risco: Por que a esquerda colombiana ficou ligada à violência por décadas

Relação entre guerrilhas, narcotráfico e política moldou resistência histórica à esquerda na Colômbia e ainda influencia a eleição presidencial

Marina Verenicz

Mapa de Risco - Reprodução
Mapa de Risco - Reprodução

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A eleição presidencial da Colômbia acontece sob fantasmas da associação entre esquerda, guerrilha armada e violência. Mesmo após acordos de paz, legalização de movimentos políticos e a chegada inédita de um presidente de esquerda ao poder, o tema continua moldando o comportamento do eleitor colombiano.

Para o cientista político e sócio da Real Time Big Data, Bruno Soller, entender a disputa atual exige olhar para a formação política do país e para como movimentos guerrilheiros passaram a ocupar espaço dentro da esquerda colombiana ao longo do século passado.

“A esquerda nunca teve força do ponto de vista partidário. As Farc viraram partido depois de um determinado período de tempo, mas sempre foi aquela coisa das guerrilhas, de ocupação territorial”, afirmou durante participação no programa Mapa de Risco Internacional, do InfoMoney.

Diferentemente de outros países da América Latina, onde a esquerda institucional conseguiu se organizar eleitoralmente ainda durante o processo de redemocratização, a Colômbia viveu uma trajetória marcada pelo conflito armado.

Grupos como as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN) passaram a defender a tomada do poder pela luta armada, enquanto o Estado colombiano enfrentava simultaneamente o avanço dos cartéis do narcotráfico.

Da luta armada ao narcotráfico

Segundo Soller, o ponto de inflexão ocorreu quando os movimentos guerrilheiros passaram a ocupar também o espaço econômico deixado pelos cartéis.

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“Quando os cartéis vão acabando na Colômbia, quem vira dono da droga são justamente as Farc”, disse.

A partir desse momento, a guerrilha deixou de ser vista apenas como um movimento político armado e passou a ser associada diretamente ao crime organizado e ao narcotráfico. Isso criou uma barreira histórica para o crescimento eleitoral da esquerda institucional no país.

“Quando você olha para tudo isso, a esquerda colombiana ficou absolutamente associada ao crime”, afirmou Soller.

Essa relação se tornou ainda mais forte durante os anos 1990 e 2000, quando a violência dos cartéis e das guerrilhas atingiu níveis extremos. O combate aos grupos armados transformou a segurança pública no principal eixo da política colombiana e abriu espaço para a ascensão do ex-presidente Álvaro Uribe.

O uribismo e a reação conservadora

Uribe chegou ao poder em 2002 prometendo enfrentamento duro contra as Farc e rapidamente se tornou uma das figuras mais populares da história recente da Colômbia. Seu governo foi marcado por repressão intensa às guerrilhas e fortalecimento militar do Estado.

“Se teve algum momento em que esses grupos se sentiram encurralados, foi nesse período do uribismo”, disse Soller.

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O cientista político afirma que a direita colombiana construiu, desde então, uma narrativa de enfrentamento permanente à esquerda associada às guerrilhas. Mesmo após acordos de paz e entrada de antigos movimentos armados na política institucional, a imagem do “inimigo interno” permaneceu viva no imaginário colombiano.

O acordo de paz

A grande mudança aconteceu em 2016, quando o então presidente Juan Manuel Santos assinou o acordo de paz com as Farc. O tratado encerrou oficialmente décadas de conflito armado e permitiu que integrantes da guerrilha ingressassem formalmente na disputa política.

Segundo Soller, esse processo abriu caminho para que a esquerda finalmente conquistasse espaço institucional no país, inclusive permitindo a eleição de Gustavo Petro em 2022, o primeiro presidente de esquerda da história colombiana.

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“Só existe hoje o Gustavo Petro porque você teve o Juan Manuel Santos criando condições para que isso acontecesse”, afirmou.

Petro, que integrou o grupo guerrilheiro M-19 durante a juventude, venceu a eleição após o desgaste do governo conservador de Iván Duque e conseguiu romper uma barreira histórica da política colombiana.

Mas a associação entre esquerda e violência nunca desapareceu completamente.

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Violência volta ao centro da eleição

A atual eleição presidencial recolocou esse debate no centro da disputa. Dissidências das Farc voltaram a ganhar força, ataques políticos se intensificaram e a violência urbana cresceu em várias regiões do país.

Para Soller, isso ajuda a explicar o fortalecimento recente da direita e o crescimento de candidaturas que defendem endurecimento contra grupos armados e organizações criminosas. “O tema segurança pública reorganizou esse voto da direita”, afirmou.

Hoje, segundo ele, a eleição colombiana se tornou também um julgamento político sobre a experiência da esquerda no poder e sobre os limites da política de pacificação defendida por Petro.

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A consequência é que, mais de duas décadas depois do auge do conflito armado colombiano, guerrilha, narcotráfico e violência continuam sendo elementos centrais para entender a política do país, e talvez também parte do futuro político da América Latina.