Inflação longe da meta e Fed independente: qual o legado de Jerome Powell?

Especialistas veem falha em 2021 ao considerar inflação pós-pandemia como "transitória", mas acreditam que lembrança futura será de defesa da autonomia operacional

Roberto de Lira

O chairman do Federal Reserve, Jerome Powell (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)
O chairman do Federal Reserve, Jerome Powell (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

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“Não verei vocês da próxima vez”, brincou Jerome Powell ao se despedir dos jornalistas após a tradicional conferência de imprensa após o anúncio da decisão de juros pelo Fomc, o comitê de política monetária dos Estados Unidos. O chairman do Federal Reserve se despede do cargo – mas não do board – nesta sexta-feira (15), após um período de 8 anos. E os especialistas estão afirmando que seu legado será mais político do que econômico.

A avaliação é que o banco central americano falhou no combate à inflação durante o mandato de Powell, mas que sua imagem pode ser preservada no futuro por conta da defesa da independência operacional da autoridade monetária, fustigada pelo presidente Donald Trump desde antes de sua posse, em janeiro de 2025.

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Em um artigo recente para o Project Syndicate, o economista Mohamed A. El-Erian escreveu que narrativa que provavelmente perdurará não é das múltiplas falhas do presidente do Fed, mas de sua resiliência política. “Comentaristas e historiadores lembrarão Powell como o presidente que se tornou um baluarte contra ataques sem precedentes à independência do banco central”, disse.

Hung Tran, ex-diretor adjunto do Fundo Monetário Internacional e pesquisador sênior no Centro de Geoeconomia do Atlantic Council, concorda. “Ignorar a campanha de pressão de Trump para reduzir as taxas de juros não só rendeu amplo apoio público ao banqueiro central — também estabeleceu um padrão alto para seu sucessor na gestão da tensão constante entre as exigências do presidente e o duplo mandato do Fed”, argumentou.

Mas tecnicamente, há muitas ressalvas sobre o papel desempenhado por Powell no pior momento da inflação para as famílias americanas em décadas, que foi a crise de preços motivada pela quebra de cadeias de suprimentos durante a fase aguda da pandemia de Covid-19.

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Tran lembrou que as respostas iniciais aos efeitos econômicos da crise de saúde foram positivas, com o Fed sob Powell adotando uma série de medidas para garantir a estabilidade dos preços e promover o máximo emprego, mostrando uma visão equilibrada do duplo mandato.

Houve o lançamento pelo Tesouro de um pacote de estímulo recorde no valor de 25% do produto interno bruto, enquanto o Fed elevou seu balanço patrimonial de cerca de US$ 4 trilhões, em 2019, para US$ 9 trilhões, no início de 2022 — isso enquanto reduzia as taxas de juros para quase zero.

As medidas combinadas de política fiscal e monetária ajudaram que a recessão desencadeada pela Covid-19 fosse a mais curta já registrada — apenas dois meses. A taxa de desemprego nos EUA subiu de 3,7%, em 2019, para 8% durante a recessão de 2020, mas depois caiu drasticamente para 3,6% em 2022 — e desde então tem oscilado entre 3,5% e 4,3%.

Mas Tran disse havido um “erro grave” do Fede ao manter sua política monetária acomodatícia por tempo demais. “Ao interpretar erroneamente os sinais de inflação acelerada em 2021 como ‘transitórios’, o Fed permitiu que a inflação subisse significativamente, atingindo o pico de 9,1% em junho de 2022”, lembrou.

Como resultado, o banco central teve que elevar agressivamente as taxas de juros de quase zero para entre 4,25% e 4,5% até o final de 2022 e implementar um aperto quantitativo para reduzir seu enorme balanço patrimonial

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El-Erian destacou que grande parte dessa dor ainda é sentida hoje, alimentando uma preocupante crise de acessibilidade. O Fed de Powell também falhou na comunicação, com o próprio presidente frequentemente aumentando a volatilidade do mercado ao emitir sinais confusos ou confusos em suas coletivas de imprensa regulares.

Os especialistas também concordam que houve falhas na supervisão bancária, que permitiram as quebras dramáticas Silicon Valley Bank, Signature Bank e First Republic. Numa análise posterior da autoridade monetária, foi reconhecido que, quando vulnerabilidades ao risco de taxa de juros e liquidez foram identificadas, os supervisores não agiram em tempo hábil para garantir que fossem tratadas.

Para Tran, com sua decisão de permanecer como governador do Fed até o fim de seu mandato, em janeiro de 2028, Powell ainda pode desempenhar um papel influente na formação do debate sobre política monetária e das decisões do Fed — com base em dados econômicos e financeiros, não em pressão política.

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Na opinião de El-Erian, essa decisão de ficar está se mostrando polarizadora. Ou seja, para alguns, é um ato heroico, um compromisso de fornecer uma “mão firme” no conselho de governadores e de garantir que as defesas institucionais do Fed permaneçam intactas. Para outros, Powell adotou uma estratégia egoísta para gerenciar tanto sua própria exposição jurídica quanto a narrativa mais ampla. “Além disso, alguns o veem como alguém que desrespeita seu sucessor e colegas no Fomc, e outros temem que a medida provoque mais ataques a uma instituição já enfraquecida.