O que Armínio Fraga, Gustavo Franco e Marcos Lisboa pensam sobre a economia do Brasil

Especial de aniversário do Outliers InfoMoney reúne trechos das entrevistas mais assistidas desde 2025 com economistas, gestores e analistas, para formar um diagnóstico sobre os desafios do país no próximo governo

Marcelo Moura

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O Brasil tem muito potencial para melhorar, mas precisa fazer isso depressa. Essa é, em linhas gerais, a leitura compartilhada por alguns dos principais economistas e gestores do país, reunida no episódio especial de seis anos do Outliers InfoMoney .

No programa, Clara Sodré, analista de Fundos da XP, e Fabiano Cintra, head de Seleção de Fundos da XP, reapresentam trechos das entrevistas mais assistidas desde o início de 2025, todas conectadas pelo mesmo tema: os desafios do país no próximo governo.

As vozes são de Marcos Lisboa, Armínio Fraga, Luis Stuhlberger, Artur Wichmann, Carlos Woelz, Rodrigo Azevedo e Gustavo Franco. Cada um com uma leitura às vezes complementar, às vezes divergente, sobre os desafios e caminhos possíveis para o país nos próximos anos.

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“O Brasil não é um paciente terminal, mas está em estado grave”

— Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Gávea Investimentos

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Gávea Investimentos, resume o tom da maioria das análises reunidas no episódio: um diagnóstico duro sobre o Brasil, especialmente na questão do equilíbrio fiscal.

Para Armínio, o Brasil acumula décadas de oportunidades perdidas. “Há 30, 40 anos atrás, o gasto público total no Brasil era 25% do PIB. Hoje ele é 34% do PIB. O gasto foi de 25% para 34%, e embutido no gasto estão os investimentos públicos – e os investimentos públicos caíram”, afirma. “Temos um problema de prioridade.”

A saída, na visão do ex-presidente do BC, passa por reforma fiscal profunda, abertura da economia, enfrentamento do crime organizado e da corrupção – e, sobretudo, por decisões políticas de longo prazo que sucessivos governos têm evitado.

“O Brasil não é um paciente terminal de jeito nenhum. Mas está em estado grave”, sentencia Armínio. “Não deveria ser muito difícil o Brasil crescer 3%, 4% ao ano, por um bom tempo. Não deveria ser. Mas decisões importantes vão ter que ser tomadas.”

O otimismo de Fraga é cauteloso, mas existe. “O mercado funciona no gerúndio, vai responder se as coisas começarem a melhorar. Os ativos vão se valorizar. O investimento vai subir. O Brasil pode se engatar no trem da produtividade global, tem muito espaço para fazer isso.”

“Na média, somos um fracasso em inovação e produtividade”

— Marcos Lisboa, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda e ex-presidente do Insper

Marcos Lisboa, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda e ex-presidente do Insper, avalia o país pelo prisma da inovação – que tem raiz em políticas públicas como abertura de mercado e investimento em educação. “Você pega o número geral do Brasil no último meio século: a gente, na média, é um fracasso em inovação e produtividade”, afirma.

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Para Lisboa, o desequilíbrio das contas públicas não é técnico – é político. “Não tem medida técnica aqui. A medida política é: olha, gente, vamos botar ordem na casa, vamos passar a gastar menos, vamos segurar os controles.”

O poder Executivo, na sua avaliação, tem sido sistematicamente fraco na condução dessas conversas – com o Judiciário, com o Congresso, com a sociedade. “Não tem saída sem a política, sem lideranças políticas que consigam dialogar. Sem isso, a encrenca vai chegar”, afirma Lisboa.

“É inviável cortar gastos ao nível do teto”

— Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde

Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde, traz o olhar mais cético sobre as perspectivas eleitorais de 2026. “Nós já estamos gastando R$ 500 bilhões acima do teto. Se você quisesse voltar ao teto, você tem que fazer um ajuste fiscal de 4% do PIB, 3,5% do PIB. É inviável”, diz.

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O gestor questiona o otimismo que costuma acompanhar ciclos eleitorais. “Caso o Flávio ganhe, o mercado vai ter uma euforia e depois a gente vai ver que as coisas são mais difíceis de arrumar do que a gente pensa.”

Sobre um eventual governo Lula 4, Stuhlberger é cauteloso: “A visão corrente no mercado, principalmente dos estrangeiros, é que o Lula 4 não vai ser pior que o Lula 3. Pode ser isso ou até ligeiramente melhor.” Mas ele não compartilha inteiramente esse otimismo. “Eu sou um pouco mais pessimista.”

“Juro real de 3,8% é insustentável”

— Artur Wichmann, CIO da XP


Artur Wichmann, CIO da XP, aponta uma contradição central do mercado: “Eu garanto pra você que nos próximos 10 anos o juro real não será 3,80%. A gente começa com 80% de relação dívida/PIB. Com 14% de juros nominais, o Brasil pagaria mais de 10% do PIB, só de juros, a cada ano. Assim você quebra o Tesouro. Isso é claramente insustentável.”

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“Por que, então, o mercado precifica os juros em um nível insustentável?”, pergunta Wichmann, para em seguida responder: “Porque ele não sabe para que direção a gente vai.”

Carlos Woelz, sócio da Kapitalo Investimentos, sintetiza o momento em uma frase: “O Brasil é o único país que está subindo a taxa de juros por causa de um sobreaquecimento da economia.”

“Não é ilusão alcançar 3% de superávit primário. Nós já tivemos isso”

— Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e fundador da Rio Bravo Investimentos

Para Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e fundador da Rio Bravo Investimentos, é possível aumentar o superávit primário: “Não é nenhuma ilusão achar que é impossível alcançar superávit primário de 3% do PIB”.

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Gustavo apoia sua convicção na história do país. “Por mais de 12 anos, entre 1999 e 2013, estivemos nesse patamar. A gente começou esse período com uma relação dívida/PIB em torno de 60% e terminou 2013, na faixa de 30%”, afirma. O que veio depois, ele resume em um nome: “Começa com D: Dilma Rousseff. Nós estragamos de propósito”.

As vozes divergem nos prognósticos, mas convergem no diagnóstico: o país tem espaço para melhorar, mas tem desperdiçado esse espaço há décadas. “Já imaginou se a gente tivesse crescido 1,5% a mais nos últimos 40, 50 anos? Teríamos o dobro da renda atual. A gente não pode perder os próximos 45 anos. Não pode”, afirma Armínio.

É esse conjunto de leituras que o episódio especial de seis anos do Outliers propõe como mapa. “Diferentes vozes, em diferentes momentos, mas todas ajudando a construir uma visão mais completa sobre o Brasil”, resume Fabiano Cintra.