Base governista reage a fala de Flávio e prepara contraproposta sobre terras raras

Líder do PT na Câmara quer criar estatal para gerir minerais estratégicos, adotar modelo de partilha inspirado no pré-sal e restringir exportações ligadas à indústria bélica

Agência O Globo

O senador brasileiro Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, participa da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) USA 2026 no Gaylord Texan Resort and Convention Center, em Grapevine, Texas, EUA, em 28 de março de 2026. REUTERS/Callaghan O'Hare/Foto de arquivo
O senador brasileiro Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, participa da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) USA 2026 no Gaylord Texan Resort and Convention Center, em Grapevine, Texas, EUA, em 28 de março de 2026. REUTERS/Callaghan O'Hare/Foto de arquivo

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O Partido dos Trabalhadores (PT) deve apresentar na próxima semana um projeto de lei sobre minerais críticos e estratégicos como resposta às declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL) durante participação na CPAC, nos Estados Unidos, no fim de março. A proposta prevê a partilha de lucros com a União, nos moldes do pré-sal, e a proibição da exportação desses recursos para países em guerra.

O texto, de autoria do líder do PT, Pedro Uczai (SC), estabelece um novo marco para o setor mineral estratégico no país. Entre os principais pontos, está a criação da Empresa Brasileira de Mineração de Terras-Raras (TerraBras), uma estatal que terá como função pesquisar, explorar e gerir reservas consideradas essenciais para a soberania nacional e para a transição energética.

A empresa será estruturada a partir da atual Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), existente desde 1969.

A proposta também institui o regime de partilha da produção mineral, determinando que “a produção de minerais estratégicos ou críticos será repartida entre a contratada e o poder concedente”, em um modelo semelhante ao adotado no pré-sal.

O objetivo é garantir que o Estado receba parte direta do minério extraído, além de estimular a industrialização nacional e o beneficiamento desses recursos dentro do país.

Outro eixo central é o endurecimento das regras de exportação. O texto estabelece que fica “expressamente proibida a exportação de minerais críticos ou estratégicos para países que possam destiná-los ao desenvolvimento de armas, dispositivos explosivos convencionais, munições, armas de destruição em massa e ligas metálicas ou materiais compostos que venham a ser utilizados para a fabricação componentes eletrônicos em dispositivos da indústria bélica”.

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O trecho impõe, dessa forma, mecanismos de controle, certificação e rastreabilidade para evitar o uso desses insumos na indústria bélica internacional, ou seja, para evitar a venda para países em guerra, por exemplo.

Além disso, o projeto cria um programa nacional de incentivo à reciclagem de materiais que contenham elementos estratégicos, como terras raras, com foco na recuperação de insumos presentes em resíduos eletrônicos e industriais.

A medida busca reduzir a dependência de importações e estimular uma cadeia produtiva voltada à chamada “economia urbana”.

‘Brasil é solução para os EUA’

As declarações de Flávio, dadas no fim de março, reacenderam o debate sobre o controle e a destinação de recursos minerais estratégicos. No evento conservador, ele afirmou que o Brasil poderia ser uma alternativa para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China no fornecimento de terras raras e minerais críticos.

— O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos — afirmou ao público participante.

A fala provocou reação de integrantes do governo e de parlamentares de esquerda, que viram risco à soberania nacional.

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O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que o senador “se comprometeu publicamente a entregar” esses recursos a uma potência estrangeira, enquanto o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou a postura como “traição”.

A repercussão também trouxe de volta ao centro da agenda um projeto em tramitação na Câmara que trata do tema. A proposta, relatada pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), estabelece uma política nacional para minerais críticos e estratégicos, com diretrizes para incentivar a exploração, o processamento e o desenvolvimento da cadeia produtiva no país.

O parecer, inicialmente previsto para o início de abril, foi adiado após pedido do governo para ampliar o diálogo sobre o texto.

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Segundo Jardim, a orientação partiu do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), com aval do Colégio de Líderes. A proposta já teve urgência aprovada, mas o Executivo quer discutir ajustes e trata o relatório como base para a formulação de uma política nacional para o setor. A nova previsão é que o parecer seja apresentado em 20 de abril.