Trégua no Irã expõe riscos, muda equilíbrio político e é bênção para os Brics

Estabilidade geopolítica segue em dúvida, e o equilíbrio regional tende a se deslocar para China e Índia

Jim O'Neill

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Imagem aérea do Estreito de Ormuz, onde passam navios petroleiros (Foto: Gallo Images/Orbital Horizon/Copernicus Sentinel Data 2026/Getty Images/Project Syndicate)
Imagem aérea do Estreito de Ormuz, onde passam navios petroleiros (Foto: Gallo Images/Orbital Horizon/Copernicus Sentinel Data 2026/Getty Images/Project Syndicate)

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LONDRES — Com os Estados Unidos e o Irã concordando com um cessar-fogo de duas semanas, muitos estão aproveitando esta pausa para se questionar o que – se é que há alguma coisa – permitiria ao presidente dos EUA, Donald Trump, declarar vitória e pôr fim aos combates. Uma condição necessária, ao que parece, é a reabertura permanente do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do abastecimento global de petróleo. Mas mesmo com o cessar-fogo reabrindo temporariamente o Estreito, Trump não garantiu estabilidade duradoura para o transporte marítimo. É claro que, se Trump simplesmente tivesse evitado atacar o Irã desde o começo, o Estreito nunca teria sido fechado.

O primeiro mês da guerra trouxe várias outras lições. Uma diz respeito ao pensamento da liderança israelita. O premiê Benjamin Netanyahu sabia que poderia chamar a atenção de Trump apresentando-lhe a perspectiva de uma vitória grande e espetacular, e que este governo norte-americano não iria parar para considerar as consequências de segunda ou terceira ordem. Talvez tenha sido mera coincidência que os ataques ao Irã tenham ocorrido logo após o Supremo Tribunal dos EUA ter anulado as tarifas da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de Trump, mas talvez não.

A aparente falta de planejamento estratégico dos EUA aponta para uma segunda lição: a confiança dos Estados do Golfo nas garantias de segurança dos EUA pode não ter sido justificada. Embora algumas lideranças esperem discretamente que a guerra ainda leve a uma mudança dramática e positiva no Irã, a esperança não é uma estratégia – e o resultado que tais lideranças desejam parece cada vez mais irrealista.

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O regime iraniano já demonstrou que não há limites que não ultrapasse para garantir sua sobrevivência e dissuadir seus inimigos.

É por isso que é difícil evitar a conclusão de que este conflito vai deslocar o equilíbrio estratégico da região para leste, em direção a potências emergentes como China e Índia. Juntamente com a Rússia, ambas são atores centrais no Brics+, que agora inclui o Irã e que tem a oportunidade de se apresentar como um líder inevitável de qualquer nova ordem global que esteja emergindo.

É especialmente provável que a China tenha um papel importante no que quer que se siga à guerra. Tanto ela como a Rússia estiveram quase certamente por trás da pressão para incluir o Irã na adesão alargada do Brics.

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Ao mesmo tempo, a Índia sediará a próxima cúpula do Brics+ em setembro deste ano e está saboreando seu novo papel como campeã de fato do Sul Global, devido à sua posição geográfica central na economia do século 21 e à sua enorme população.

É claro que as relações da Índia com seus vizinhos imediatos continuam complicadas. Mas mesmo tensões históricas de longa data não são impedimentos.

Como Heiwai Tang e Brian Wong Yue Shun mostram no volume que editaram, “Towards a Future for Brics+” (“Rumo a um futuro para o BRICS+”, em tradução livre do inglês), a Índia tem grande interesse em explorar o potencial de benefícios mútuos dentro do bloco. Uma das principais preocupações é o acesso aos suprimentos de energia do Oriente Médio, tanto para si própria como para seus vizinhos.

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As economias asiáticas foram especialmente afetadas tanto pelo choque dos preços da energia como pela escassez de oferta, e o Irã sabe disso. Declarações ocasionais ao longo do último mês sugerem que o Irã acolheria de bom grado a fixação do preço do petróleo destinado a países amigos em renminbi. Estas dinâmicas são ainda mais pertinentes à luz do papel crescente que o Paquistão vem tendo como mediador entre EUA e Irã. Se os paquistaneses ajudarem a pôr fim à crise energética, nem mesmo a Índia poderia queixar-se.

A guerra, se continuar, tem também implicações óbvias para a reunião bilateral planejada entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, remarcada para meados de maio. Seja quando for que ocorra, Xi provavelmente sentirá que a China tem uma posição de força, não só para exercer pressão sobre o Irã, mas também para negociar duramente com os EUA. Os mercados estarão atentos a quaisquer indícios de possíveis desdobramentos antes da cúpula.

Tendo em conta estas forças convergentes, a eficiência crescente do consumo de petróleo e o aumento contínuo das fontes de energia alternativas, continuo duvidando que esta crise venha a causar tanta turbulência nos mercados como a crise financeira de 2008, a chegada da covid-19 ou a invasão russa da Ucrânia em 2022.

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Afinal, Trump não pode se dar ao luxo de ver uma alta rápida dos preços da gasolina, num momento em que os americanos vão para a alta temporada de viagens de carro – e depois para as urnas, para as eleições de meio de mandato em novembro. Os posts cada vez mais descontrolados nas redes sociais sugerem que Trump está mais do que frustrado com a situação e desesperado por uma saída. Se o cessar-fogo não lhe der uma, a China pode ter um potencial ás na manga.

Tradução por Fabrício Calado Moreira
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Jim O'Neill

Ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management e ex-ministro do Tesouro do Reino Unido, é membro da Comissão Pan-Europeia de Saúde e Desenvolvimento Sustentável