Eleição anima mercado e gestor aposta em bolsa com juros na mira 

Executivo alerta que papéis domésticos sensíveis a juros já precificaram parte do movimento

Osni Alves

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André Caldas, sócio e CIO da Springs Capital, vê uma janela rara de convergência entre queda de juros, fluxo estrangeiro e cenário eleitoral favorável ao mercado financeiro. Para o gestor, a bolsa brasileira ainda oferece oportunidades relevantes — mas exige disciplina cirúrgica na seleção de estratégias.

O otimismo, porém, não é irrestrito. Caldas alerta que papéis domésticos sensíveis a juros já precificaram parte do movimento e que o investidor precisa distinguir entre o que ainda tem gordura e o que já passou do ponto. A leitura macro, no entanto, é das mais favoráveis dos últimos anos.

A avaliação foi feita no programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo. Caldas comanda a área de renda variável da Springs Capital, gestora que completa um ano em abril. A casa nasceu como spin-off de uma gestora anterior, trouxe consigo fundos de bolsa e manteve o histórico já construído.

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No início do ano passado, com o dólar abrindo acima de R$ 6,50 e o pessimismo dos investidores locais nas alturas, Caldas enxergou uma assimetria clara.

O carrego da moeda era tão favorável que vender dólar futuro — travar a venda a R$ 7 para entrega em um ano — era, na sua avaliação, a aposta com melhor relação risco-retorno disponível.

“A maior aposta era vender o dólar futuro”, lembrou. O mercado foi lhe dando razão ao longo dos meses, à medida que a moeda se apreciou e o humor dos investidores foi virando.

Eleição no radar e bolsa ainda com oportunidade

O cenário eleitoral entrou com força na conversa. Caldas avalia que Flávio Bolsonaro — hoje em empate técnico com Lula nas pesquisas — representa um alento real para o mercado financeiro.

“É como se ele fosse favorito. Tem variáveis que daqui até lá podem mudar, ele não está sendo atacado ainda como candidato”, ponderou. “Mas hoje, com certeza, é animador para o mercado financeiro as prognósticas do centro-direita.”

O raciocínio é direto: um governo com maior disciplina fiscal levaria ao fechamento das NTN-Bs — hoje perto de 8% — e reduziria a taxa de desconto das empresas, com impacto positivo significativo na bolsa.

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“Se houver um governo com uma disciplina maior na questão fiscal, vai ter um efeito muito positivo para a bolsa, que vai se dar pela taxa de desconto que vai fechar”

— André Caldas, sócio e CIO da Springs Capital.

Um hedge fund fora do padrão

A Springs Capital não opera um long & short clássico. Caldas descreve o produto como um hedge fund de múltiplas estratégias com baixa correlação entre si — shorts estruturais baseados em balanço, arbitragens em fusões e aquisições, fechamentos de capital, eventos corporativos e posições em pré-IPOs em estágio avançado.

A capacidade é deliberadamente limitada — e isso faz parte da estratégia. Caldas não quer escala; quer eficiência. Na sua lógica, crescer demais significa disputar as mesmas oportunidades com players maiores, comprimindo retornos e perdendo justamente o que torna o produto atrativo.

“Não dá para ter R$ 10 bilhões”, afirmou. “É uma casa muito focada na performance para o cliente.” O alvo é algo entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões no produto core — tamanho suficiente para operar com relevância, mas pequeno o bastante para continuar capturando arbitragens que passam despercebidas para os grandes fundos.

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Os shorts estruturais têm DNA americano: identificam empresas com queima de caixa, contabilidade agressiva ou estrutura de capital problemática.

“Há um problema de balanço, tem sempre ali umas historinhas, umas bandeiras vermelhas que a gente olha — como accounting, uma gestão muito agressiva, muito preocupada com o preço da ação”, descreveu Caldas.

Em momentos de mercado com mais excessos, essa estratégia brilha. Em bull market, o foco migra para o book core.

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