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O choque de petróleo que sacudiu os mercados globais nas últimas semanas produziu um efeito colateral inesperado: colocou o Brasil numa posição de relativo conforto em relação aos demais mercados emergentes. Enquanto países importadores de energia amargam pressão inflacionária e deterioração das contas externas, o Brasil — exportador líquido de petróleo — acaba saindo na vantagem, tanto no fiscal quanto na dinâmica de preços.
A leitura parece contraintuitiva para quem acompanha o histórico do país, marcado por crises recorrentes e instabilidade macroeconômica. Mas a aritmética é simples: com o barril acima de US$ 100, os royalties do petróleo encorpam as receitas do governo de forma direta e imediata. A Genoa Capital estima um ganho fiscal expressivo nesse cenário — algo que poucos países emergentes podem reivindicar no atual contexto.
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A Índia ilustra bem o lado oposto da equação. Importadora líquida de energia, qualquer alta no petróleo pressiona sua inflação e deteriora sua balança comercial de forma praticamente automática. O contraste com o Brasil é marcante e coloca os dois países em trajetórias opostas dentro do universo emergente, justamente num momento em que os investidores globais buscam diversificação fora dos Estados Unidos.
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A avaliação é de André Raduan, fundador e gestor da Genoa Capital, em entrevista ao programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo. Para Raduan, a combinação de exportação de petróleo com uma matriz energética pouco dependente de derivados coloca o Brasil numa situação que ele mesmo hesita em nomear: “O Brasil, não quero usar essa palavra, mas está me parecendo um pouquinho mais safe.”
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Inflação sobe, mas matriz energética amortece o golpe
A blindagem brasileira, no entanto, não é total. A matriz energética nacional depende pouco de termelétricas movidas a óleo — o que limita o impacto de uma eventual escassez física —, mas alguns segmentos da economia absorvem o choque de forma direta e sem filtro. Diesel, fertilizantes, petroquímica e passagens aéreas operam com preços referenciados no mercado internacional, e não há mecanismo eficiente para proteger o consumidor nesses casos.
A Genoa projeta que a inflação brasileira deve escalar de cerca de 3,08% para algo entre 4,70% e 4,80% no horizonte de nove meses, a depender do ritmo e da magnitude do repasse feito pela Petrobras (PETR3; PETR4). É uma piora relevante, mas administrável — especialmente se o preço do petróleo recuar para a faixa de US$ 80 antes do fim do ano, como a gestora acredita ser o cenário mais provável.
O governo ainda dispõe de instrumentos para suavizar o repasse ao consumidor. A Petrobras pode absorver parte da alta comprimindo sua margem na gasolina, e há espaço para usar a política tributária como amortecedor temporário — ainda que essa solução piore o fiscal no curto prazo. A compensação, na visão de Raduan, viria pelos royalties: “Se o petróleo ficar em US$ 100, você ganha 50, 60 bits fiscal”, calculou o gestor.
“Sem querer ficamos bem posicionados”, resumiu Raduan. A Genoa traduz esse otimismo relativo em posições concentradas em juros e moeda brasileiros. Em renda variável doméstica, a cautela prevalece — particularmente em relação às NTN-Bs, que subiram muito e se mostraram uma armadilha para quem antecipou o ciclo de cortes antes da hora.

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Emergentes melhoram, mas o dinheiro grande ainda vai para os EUA
No plano mais amplo dos mercados emergentes, Raduan reconhece uma melhora real de fundamentos na comparação com alguns anos atrás. O controle da inflação avançou na maioria dos países do grupo, e a condução da política monetária ficou mais ortodoxa. O fiscal segue deteriorado — mas o gestor pondera que isso vale para o mundo todo no momento, o que produz uma complacência coletiva com o tema.
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“Na parte de inflação, combate à inflação, melhorou, sim. Mas na produtividade, aí eu já não vejo tanto”, ponderou. A ausência de ganhos de produtividade é o calcanhar de Aquiles dos emergentes — e não deve ser resolvida no curto prazo. A IA, que promete transformar esse quadro, chegará aos países desenvolvidos muito antes de impactar a estrutura produtiva do Brasil e de seus pares.
O argumento para um eventual fluxo de capital em direção aos emergentes, portanto, não vem dos fundamentos — vem da dinâmica de portfólio. A imprevisibilidade de Donald Trump, com tarifas que entram e saem e uma política econômica de difícil leitura, está empurrando investidores dos mercados desenvolvidos a buscar diversificação. “Qualquer diversificação, por menor que ela seja, ela leva o preço de tudo para cima”, disse o gestor.
Mesmo assim, o movimento estrutural de longo prazo continua favorecendo os Estados Unidos. O grosso do capital global precisa ir para as melhores companhias do mundo, e elas seguem, em sua maioria, listadas em Nova York. Um dólar mais fraco amplifica esse movimento ao expandir as receitas externas dessas empresas quando reconvertidas para a moeda americana. A Genoa mantém posição compradora em renda variável americana — menor, mas comprada. “As empresas americanas ainda vão bater todas por um bom período de tempo”, afirmou Raduan. “A gente continua otimista com a Bolsa lá fora.”
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