Consumidor volta às compras, mesmo com juros altos

Tendência seria positiva se não houvesse ocorrido uma perda de poder aquisitivo; como houve inadimplência, deve aumentar

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SÃO PAULO – Nem bem os juros começaram a cair e o consumidor já dá sinais de volta às compras. O que poderia até ser bem recebido, pois um aumento do consumo ajuda a impulsionar a economia, acaba preocupando, já que demonstra a falta de planejamento orçamentário do brasileiro.

Apesar da taxa de juros básica da economia, a famosa Selic, já ter caído duas vezes em 2002, o fato é que ela ainda está bastante alta, em 18,50% ao ano. Isto sem falar que o repasse destes cortes ao consumidor ainda é insignificante, pois a maioria dos bancos e financeiras ainda se preocupa com a inadimplência.

Aumento do consumo, com queda na renda

No início do ano passado, esta mesma taxa de juros estava em 15,25% ao ano, isto é, mais de três pontos percentuais abaixo da taxa atual. Isto significa que ainda são necessários vários cortes nos juros para voltarmos apenas à estaca zero, isto é, a situação que estávamos no início de 2001.

O grande problema é que, apesar disto, o consumo já dá sinais de reaquecimento, como ilustra o aumento de 26% na venda de produtos eletro-eletrônicos no mês de fevereiro frente a janeiro. Ainda mais preocupante é o fato de que as vendas de fevereiro representam apenas uma queda de 3,83% frente aquelas de fevereiro de 2001, quando os juros eram bem mais baixos.

Alguns críticos lembram que, apesar do aumento no volume de financiamentos, o brasileiro ainda é bem menos endividado que o norte-americano. Para tanto, usam como base a relação de volume de financiamentos sobre o tamanho da economia. No Brasil, o volume de financiamentos ao setor privado em 2001 ficou em R$ 4,330 bilhões, o que equivale a 30% do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto nos EUA esta relação é de 100%!

A diferença é que existe um diferencial de renda tremendo entre os brasileiros e os norte-americanos, o que reduz a capacidade de endividamento do brasileiro; e é exatamente este diferencial que faz com que o brasileiro atrase o pagamento das suas dívidas mais do que os norte-americanos. Se considerarmos que em 2001 a inflação ficou perto de 10%, mas a desaceleração da economia impediu um repasse proporcional ao salário, houve de fato uma perda de poder aquisitivo. De acordo com o IBGE, em janeiro o rendimento real das pessoas caiu 5,4% em relação ao de dezembro.

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Porque a inadimplência aumenta

A inadimplência não aumenta por falta de vontade do brasileiro de pagar suas dívidas em dia, mas simplesmente porque, com o aumento dos preços cada mês que passa, o orçamento se aperta mais, dificultando a manutenção dos pagamentos em dia. Esta dificuldade se manifesta no aumento da inadimplência, que é medida como a relação entre os empréstimos com atraso sobre o volume de empréstimos concedidos.

Com menos dinheiro no bolso, o brasileiro recorre a novas dívidas para saciar suas necessidades de consumo, bastando um imprevisto, como doença, perda de emprego ou gastos extraordinários para a situação sair do controle e a pessoa acabar atolada em dívidas. Desta forma, não é de se surpreender que a inadimplência continue aumentando, apesar dos cortes nos juros. De acordo com dados do Banco Central, a inadimplência subiu de 14,6% do total emprestado em janeiro para 14,9% em fevereiro.

Diante disto, os bancos demoram mais para repassar ao consumidor novos cortes nos juros, pois temem que o maior volume de concessão de empréstimo acabe sendo mais do que compensado por um aumento na inadimplência. Para o consumidor, a mensagem é bastante clara, mesmo que ocorram novos cortes nos juros, os financiamentos devem ser evitados a todo custo, pelo menos até que ocorra uma recuperação clara no poder aquisitivo, o que não deve acontecer em breve.