Em mercados

"Prévia do PIB" indica nova recessão em maio, mas uma notícia anima o mercado

Economistas atribuem novo tropeço da economia ao agravamento da crise política, mas vislumbram luz no fim do túnel

SÃO PAULO - O leve suspiro da economia em abril, quando o governo comemorou o "fim da recessão" graças aos bons resultados do agronegócio e o elevado nível de exportações, sofreu um choque de realidade com os números do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) de maio, apresentados na manhã desta sexta-feira. O indicador, conhecido como uma espécie de proxy do PIB (Produto Interno Bruto) marcou queda de 0,51% no quinto mês do ano em comparação com abril, com ajuste sazonal. O número veio abaixo da mais pessimista das expectativas dos economistas consultados pela Bloomberg, que projetava recuo de 0,50%.

Segundo o Banco Central, o índice de atividade passou de 134,46 pontos para 133,77 pontos na série dessazonalizada de abril para maio, no menor patamar com ajuste desde janeiro, quando atingiu a marca de 133,08 pontos. Já na comparação anual, houve alta de 1,40%, sem ajustes sazonais. O indicador foi o primeiro já com os efeitos da crise política, deflagrada após a revelação da delação de executivos da JBS e a divulgação de áudio de conversa mantida entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista.

Apesar do novo tropeço da economia, a equipe de análise do Goldman Sachs mantém o otimismo com a superação da recessão, embora em ritmo mais lento. "Dados recentes nos dão confiança de que depois de uma longa recessão de 11 trimestres, a economia provavelmente atingiu um ponto de inflexão no primeiro trimestre de 2017. Contudo, o crescimento deverá se manter fraco e volátil, tendo em vista os elevados níveis de incerteza política e uma série de fatores estruturais (incluindo um mercado de trabalho ainda fraco)", escreveu o economista Alberto Ramos, chefe de pesquisa econômica para América Latina da instituição.

Já Álvaro Bandeira, economista-chefe da Modalmais, diz que os números mais fracos da atividade econômica aumentam a expectativa do mercado por um corte de 100 pontos-base, em detrimento a apostas anteriores por uma redução de 75 pontos, na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), o que levaria a Selic ao patamar de 10,25% ao ano. Para ele, tampouco estão descartadas as chances de um corte de 125 pontos, embora a postura mais cautelosa do BC faça com que tal cenário só seja possível "se próximas semanas forem calmas".

No começo da tarde desta sexta-feira, os contratos de juros futuros com vencimento em janeiro de 2018, negociados na B3, caíam 3 pontos-base, a 8,685%, ao passo que os DIs com vencimento em janeiro de 2021 recuavam 10 pontos-base, a 9,73%.

"[O mercado está] voltando tudo para uma fase antes da delação" dos executivos da JBS, afirmou o economista em entrevista por telefone à Bloomberg. "Se olharmos tudo o que aconteceu essa semana, o governo conseguiu emplacar reforma trabalhista, Plano Safra, regularização fundiária, aprovação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) como estava, mais as discussões da TLP (Taxa de Longo Prazo)", que, junto à rejeição de relatório favorável à denúncia contra Temer na CCJC (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) da Câmara, "resultaram em uma agenda positiva que tirou o foco da crise política".

O adiamento da votação em plenário, que definirá se o peemedebista poderá virar réu no Supremo Tribunal Federal e ser afastado do cargo, para agosto, depois do recesso parlamentar, mantém a crise política no foco dos agentes econômicos. As expectativas pela apresentação de novas denúncias contra Michel Temer pelo procurador-geral Rodrigo Janot colocam ainda mais tensão no cenário. Enquanto isso, a despeito das recentes vitórias do governo, a reforma da Previdência segue em compasso de espera na Câmara.

Henrique Meirelles
(Bloomberg)

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