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Selic deve subir até 5% ao longo de 2021 mas por “bons motivos”, diz Bicalho

"Juro subirá mais do que o mercado espera, mas será pelas boas condições econômicas e não por uma piora fiscal", disse o economista-chefe da Vinland Capital

CONDADO DA FARIA LIMA – Aurélio Bicalho, economista-chefe da Vinland Capital, enxerga a Selic subindo no 1º semestre de 2021, fechando o ano que vem perto de 5% e chegando em até 6% ao longo de 2022. Mas engana-se quem pensa que ele está na ala dos “pessimistas” do mercado: para ele, a Selic sobe sim, mas por “bons motivos”,

“No nosso cenário o juro subirá mais do que o mercado espera, mas será pelas boas condições econômicas, que provocará uma aceleração da inflação, e não por uma piora das condições fiscais do Brasil”, resume Bicalho durante sua fala no Vinland Day, que terminou agora há pouco e foi transmitido para os cotistas da gestora.

Para Bicalho, o cenário que se desenha agora é de um mercado já precificando um “mundo pós-vacina” enquanto os Bancos Centrais ainda falam de injeção de estímulos por conta dos efeitos que a “segunda onda” do Covid ainda pode trazer. E mesmo que a economia volte com tudo, o Fed já deixou claro meses atrás em sua mudança de arcabouço que só subirá os juros nos EUA se tiver a volta da inflação (veja a análise completa ao final do texto).

Nesse cenário, é bem provável que o dólar saia dos EUA e busque outros mercados, provocando essa desvalorização na moeda americana que estamos vendo agora (hoje, o dólar fechou a R$ 5,03; três meses atrás, ele beirava os R$ 5,80). Mas para o Brasil ser um destino certo desses recursos, respeitar o fiscal é fundamental, por isso quando o governo sinalizou que vai respeitar o teto e não vai manter o auxílio emergencial em 2021, a reação foi bem positiva.

Para ele, se trabalharmos com a hipótese do Ministério da Economia de que o teto será mantido, podemos esperar um crescimento mais forte no ano que vem, perto de 4%. Esse forte crescimento, somado à pressão de preços das commodities e a ociosidade da indústria, podem fazer o IPCA chegar no meio do ano girando em 6,5% no acumulado em 12 meses (lembrando que a meta de inflação para o ano que vem é de 3,75%). É aí que o BC deve começar a agir.

“Mesmo que o BC tenha que olhar para frente e não para o que passou, é provável que ele comece a reduzir os estímulos monetários neste momento, levando o juro para um patamar mais próximo do neutro, que é algo próximo de 6%. Ele deve começar [a subir os juros] em maio, levando a Selic para 5% ao longo do ano que vem e até 6% no começo de 2022”, afirma.

Fundada em 2018 por grandes nomes do mercado financeiro, como André Laport (ex-Goldman Sachs) e James Oliveira (ex-BTG Pactual), a Vinland passou por forte turbulência nos seus primeiros meses de vida por conta da greve dos caminhoneiros. Mas em 2020, a gestora se saiu muito bem durante a Coronacrise: os fundos Vinland Macro e Vinland Macro Plus, tocados por James, estão com ganhos de 7,5% e 14,2%, respectivamente; já o Long Bias, gerido pelo Laport, está positivo em 6%. No mesmo período, o Ibovespa cai 2% e o CDI rendeu 2,2%.

Hoje a Vinland possui R$ 2,5 bilhões sob gestão.

Confira os melhores momentos da apresentação do Aurélio Bicalho:

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O quadro da pandemia hoje é que na Europa a 2ª onda já está cedendo de forma bem sólida enquanto nos EUA e no Brasil os casos seguem crescendo. Mas o ponto central é que já temos a vacina: o Reino Unido já começou o processo de vacinação e nos EUA logo vai começar.

Então, temos um quadro que a 2ª onda segue afetando a atividade econômica no mundo mas, olhando pra frente com a chegada da vacina, o sinal é positivo pois ela vai dar um impulso econômico em segmentos que estão deprimidos por causa da pandemia. Exemplo: consumo de serviços nos EUA está caindo mas dentro deste grupo a parte de transporte e recreação cai cerca de 20%. No Brasil, esses números são piores, mais de 30% de queda.

Quando a vacina chegar, esses setores terão uma retomada muito forte. Devemos ter o 2º tri do ano fortemente impactado pela vacina.

Enquanto os mercados já estão olhando para o “melhor cenário” da vacina, os policymarkers ainda estão na página do aumento de casos e da segunda onda, eles não viraram a página para enxergar uma perspectiva melhor e que talvez não precise de mais estímulos, eles estão na página de manter o socorro às economias. Hoje o BCE aumentou o tamanho da compra de ativos, mesma direção do BC da Inglaterra da semana passada e no Fed a discussão vai na mesma direção. BCs já aumentaram em 30% do PIB a compra de ativos para impulsionar as economias e a discussão atual é de ter mais estímulos, e não menos.

Então hoje o cenário é: vacina tá chegando mas BCs seguem discutindo injeção de estímulos. Isso que provoca o efeito visto nos mercados.

Junto com isso, temos uma mudança chave: a mudança no arcabouço da política monetária dos EUA. Isso faz meses mas é fundamental para entender o contexto atual. Para entender, uma comparação: lá em 2008, depois do efeito da crise, o sinal de que o Fed ia subir juros era se desemprego ficasse abaixo de 6,5% ou se inflação chegasse a 2%. A primeira alta do Fed foi em 2015, quando a inflação estava em 1,2%, porque o desemprego estava em forte queda. Nessa mudança de arcabouço de agora, a mensagem é muito clara: não vou subir os juros só porque a economia está aquecida ou o desemprego está caindo, só vou subir se a inflação estiver com uma perspectiva de que vai ficar acima da meta de 2%. Ou seja: trazendo o arcabouço atual para 2008, o Fed só teria subido os juros em 2018 e não em 2015. O Fed não vai subir juros enquanto a inflação não aparecer.

Em momentos de recessão, os ativos fogem para os EUA. Passada a recessão, esse dinheiro vai para fora dos EUA, o que provoca uma queda do dólar como a que estamos vendo agora. Para o Brasil receber esse dinheiro, o fiscal é determinante. Nossa dívida só vai ceder lá na frente em 2027/2028, quando finalmente poderemos ter superávit, então é fundamental respeitarmos o teto. Por isso quando o governo sinalizou que vai respeitar o teto e não vai manter o auxílio emergencial, a reação acaba sendo muito positiva.

Certamente vamos ter volatilidade em cima do risco do teto ser rompido, mas se trabalharmos com a hipótese de que o teto será mantido, podemos esperar um crescimento mais forte no ano que vem, perto de 4%, a manutenção do teto ajuda a diminuir o prêmio de risco, impulsionando investimentos etc.

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Mas a pressão das commodities pode fazer a inflação chegar no meio do ano com 6,5%. Mesmo que o BC tenha que olhar para frente e não para o que passou, é provável que ele comece a reduzir os estímulos monetários neste momento, levando o juro para um patamar mais próximo do neutro, que é algo próximo de 6%. Ele deve começar [a subir os juros] em maio, levando a Selic para 5% ao longo do ano que vem e até 6% no começo de 2022.

Ontem na reunião do Copom já começou essa comunicação, sinalizando que deve reduzir o foward guidance em janeiro, indo nessa direção de um possível ajuste ao longo do 1º tri.