Comprados vs vendidos em dólar

Por que vender dólar não vai funcionar para quem está otimista com o Brasil, diz fundador da Ace Capital

Diferentemente dos três últimos gestores que trouxemos no Coffee & Stocks, Fabricio Taschetto contou porque ele continua comprado em dólar vs real.

Notas de real e dólar sendo trocadas
Notas de real e dólar sendo trocadas (Shutterstock)

Quem acompanha diariamente o Coffee & Stocks já deve ter percebido o confronto saudável das diferentes teses de investimentos que promovemos entre os gestores do mercado. Se na semana passada o grande consenso era estar comprado no dólar com o objetivo de ganhar dinheiro com a apreciação da moeda frente ao real, nessa semana foi o contrário.

Dos quatro gestores que recebemos de segunda (25) até hoje, três deles tinham posições vendidas em dólar que se beneficiavam do enfraquecimento da moeda.

Luiz Eduardo Portella, gestor da Novus, trouxe ontem uma visão de longo prazo pessimista para a moeda americana, acreditando no seu enfraquecimento global.

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Então o jogo virou? Está todo mundo vendendo dólar?

Não, nem todo mundo.

Nessa manhã, Thiago Salomão conversou com Fabricio Taschetto, fundador e diretor de investimentos da Ace Capital, que disse manter uma posição comprada em dólar, embora tenha reduzido parte dela na semana passada por volta dos R$ 5,80.

Com quase 20 anos de mercado, Taschetto é mais uma cria da “Escolhinha Santander” – tesouraria do banco que formou nomes como Roberto Campos Neto (atual presidente do Banco Central), Mário Torós (ex-diretor do BC e fundador da Ibiuna), Marcio Appel (Adam), Fabiano Rios (Absolute), Felipe Guerra (Legacy), entre outros.

Por ter sido responsável pela mesa de câmbio da tesouraria, o gestor tem um background forte em dólar e sempre foi atuante nos “trades relativos”, trazendo isso para dentro da gestão da Ace. O fundo hoje tem posições compradas em Brasil, tanto na queda dos juros com vencimentos intermediários quanto em bolsa, e faz o “hedge” (proteção) dessas posições com a compra de dólar e venda das bolsas emergentes da Ásia.

Para ele, a pior forma de estar otimista com Brasil será vendendo dólar, uma vez que a forte valorização do dólar contra o real se deu não só pelo fortalecimento global do dólar – que deve continuar ao longo dos próximos meses –, mas também pela forte queda de juros que tivemos, que tornou o Brasil um país mais “normal”.

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Abaixo, um resumo dos principais trechos da conversa. A entrevista completa, em vídeo, está abaixo.

Comprado em dólar

Em boa parte da minha carreira se ganhava dinheiro vendendo dólar. Tínhamos uma inflação altíssima, commodities estavam em alta, juros eram elevados, eram os ingredientes necessários para vender dólar. Mas isso não se observa mais, especialmente os juros.

Falando rapidamente da história econômica do Brasil: em 1980 tivemos hiperinflação, taxa de juro real negativa e a real estava muito depreciada – viajar para fora do país era praticamente impossível. Após o Plano Real, o governo gastava muito, gerava inflação e mantinha os juros altos para conter o avanço dessa inflação, o que deixava o real artificialmente apreciado [o dólar especulativo entrava no Brasil para ganhar com os juros elevados].

Essa dinâmica durou até 2015, quando o Brasil quebrou. A taxa de juro alta e os gastos crescentes do governo fizeram a dívida do país crescer consideravelmente. A partir de 2016, o ciclo começa a normalizar e o Brasil passa a ser um país “normal”, com taxas de juros mais baixas e próximas a de nossos pares emergentes. Ou seja, a partir de 2016 o governo parou de gastar e de impulsionar a inflação. Com a inflação controlada, a taxa de juro real não precisa se manter elevada e, consequentemente, aquele dinheiro que entrava por especulação vai embora. Isso tem acontecido nos últimos três anos.

No curto prazo, a moeda depreciou mais do que eu esperava por conta do coronavírus – até por isso diminuímos nossa posição a R$ 5,80 na semana passada -, mas nós acreditamos que a trajetória do câmbio no médio e longo prazo é para cima. Na pior das hipóteses, o câmbio é um ótimo hedge para as posições otimistas que eu tenho de Brasil. Estamos comprados em dólar desde o primeiro dia do fundo. A pior forma de estar otimista com Brasil será vendendo dólar. Nós diminuímos a posição por conta da questão técnica, uma vez que ficar comprado em dólar tinha virado consenso. Mas, o fundamento no médio e longo prazo vai prevalecer.

O que pode mudar? O movimento do dólar é 70% a 80% global, ou seja, depende muito mais da economia dos EUA. Embora o país esteja sofrendo com os efeitos do coronavírus, assim como todo mundo, vimos uma injeção sem precedentes de estímulos nos EUA, da ordem de 10% do PIB. Isso é mais do que observamos em qualquer outra economia. Se os EUA estiverem crescendo mais do que outros países, o dólar vai continuar se fortalecendo ante as demais moedas.

União fiscal europeia e euro forte

Eu não acredito nessa história de união fiscal na Europa. Sempre que o continente passa por uma crise esse assunto aparece novamente. Dos 20 anos que estou no mercado, há pelo menos 10 anos escuto falar disso. São 27 culturas diferentes para chegarem a um ponto em comum. Quanto mais repartido for, melhor o funcionamento. A união fiscal da Europa é igual água no condomínio da sua casa. Se não tem um medidor oficial de água, todo mundo vai gastá-la à vontade.

O total de estímulos que vimos na Europa foi de 1,5% do PIB europeu. O estímulo feito nos EUA foi de 10% do PIB, é muito mais potente. Fora que a riqueza americana é gerada nos EUA.

Juro baixo é a maior convicção para Brasil

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Temos uma carteira equilibrada e estamos especialmente otimistas com os juros. A recuperação econômica do Brasil fez com que os juros pudessem cair para patamares mais normalizados. Mais recentemente, voltamos a gastar por conta do coronavírus e o governo terá que apertar os gastos novamente mais pra frente. Além disso, nosso palpite é que o PIB deve cair entre 8% e 10% em 2020. Quando nós olhamos para o hiato do produto, que basicamente nos mostra a ociosidade da economia e quanto o PIB poderia crescer sem gerar inflação, vemos que o hiato está elevadíssimo, perto da casa dos 12%. Se eu achava 4% [antes da crise] elevado, agora então…. Será muito difícil gerar inflação nesse ambiente.

Minha maior convicção em Brasil está nos juros. Essa posição vem dando dinheiro desde 2016, que foi quando a taxa Selic começou a cair. Nos últimos três anos, o Banco Central só conseguiu atingir a meta de inflação no ano passado e por conta do choque dos preços das proteínas. Em 2017 e 2018 ele não conseguiu atingir o piso da meta de inflação e tudo indica que neste e no próximo ano ele também não vai atingir. Não faz sentido o BC perder a meta por tanto tempo, então, na minha opinião, ele vai manter a taxa de juros real baixa por mais dois anos.

Posições em bolsa

Temos uma convicção em bolsa brasileira um pouco menor e o motivo é mais macro do que micro. A bolsa vai acabar subindo, apesar de o país estar em uma situação delicada, por conta do dinheiro começar a perder valor no tempo. Com a taxa de juros em 2% ao ano, não vai haver ganho real, ou seja, o dinheiro vai perder valor e as pessoas vão buscar ativos reais. A bolsa é um desses ativos.

Além de estar comprado em dólar, outro hedge relevante para defender o fundo é a posição vendida que temos em ETF [carteira passiva de ações] de bolsas asiáticas. O Trade War voltou a aparecer e essa posição [vendida em ações asiáticas] é justamente para se proteger desse embate EUA vs China. Antes da crise, era claro que o Trump usaria a economia bombando para se reeleger, mas agora, com a taxa de desemprego elevadíssima e PIB caindo, ele certamente vai botar a culpa na China.

 

 

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“Seguimos comprados em dólar”. Contrariando o que alguns gestores disseram nesta semana na nossa live diária, o Fabricio Taschetto (fundador e gestor da Ace Capital) mantém uma posição comprada em dólar, embora tenha reduzido parte dela na semana passada por volta dos R$ 5,80 por fatores técnicos. Com quase 20 anos de mercado, Taschetto formou a Ace ano passado junto com outros tesoureiros do Santander que trabalhavam junto com ele. O gestor tem um background forte em dólar e sempre foi atuante nos “trades relativos”, o que ele traz para dentro da gestão da Ace. O fundo tem posições compradas em Brasil, tanto na queda dos juros com vencimentos intermediários quanto em bolsa, e faz o “hedge” dessas posições com a compra de dólar e o short em bolsas emergentes da Ásia.

Uma publicação compartilhada por Stock Pickers (@stockpickers_) em 29 de Mai, 2020 às 3:53 PDT

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