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O “Grande Squeeze”: como um grupo de “degenerados” encurralou grandes fundos e fez uma ação subir quase 500% em 3 dias

A história que contaremos é algo “insano, não natural, e não deveria acontecer de novo” - palavras de Michael Burry, o gestor que virou história de cinema

[Texto originalmente publicado na newsletter do Stock Pickers do sábado (30/jan/2021). A newsletter é gratuita e para receber, clique aqui e deixe seu melhor email.]

Olá, Stock Picker.

O mercado financeiro mundial foi atropelado nesta semana por um grupo de degenerados que adora fazer memes e discutir sobre ações. Não, não estamos falando da equipe do Stock Pickers, apesar de essa ser uma descrição em larga medida justa sobre nós.

Estamos falando do Wall Street Bets e de como eles conseguiram encurralar grandes fundos de investimento com uma ação coletiva que fez uma ação subir quase 500% em três dias.

A história que vamos contar é algo é raro, “insano, não natural, e não deveria acontecer de novo” — palavras do Michael Burry, o gestor que apostou contra o mercado financeiro em 2008, ganhou e acabou interpretado no cinema pelo Christian Bale no filme “A Grande Aposta“.

Origens

O pontapé inicial para os acontecimentos desta semana talvez tenha sido dado involuntariamente pelo próprio Burry no ano passado, quando ele anunciou que havia comprado 5,3% das ações da rede de lojas de videogames Gamestop.

Burry pagou entre US$ 2,00 e US$ 4,20 por ação (guarde esses números).

Como no tempo da crise do subprime, o gestor estava indo contra o consenso do mercado. Talvez ele fosse o único a acreditar em uma rede que insiste em vender games em lojas físicas em um país e em uma época na qual até alface pode ser comprada online.

A posição da Scion (gestora de Burry) na Gamestop tornou-se pública no dia 20 de agosto e pela primeira vez em meses as ações da Gamestop subiram. Duas semanas depois, no dia 9 de setembro, um usuário do fórum Wall Street Bets autodenominado DeepFuckingValue postou o balanço de suas operações com opções de compra de Gamespot, com ganhos de 87% (de US$ 53 mil para US$ 100 mil). No título da postagem ele escreveu, com ironia: “Ei, Burry, obrigado por aumentar minha base de custos”.

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A partir daí, DeepFuckingValue começou a postar com frequência o balanço de suas operações com opções da companhia, e ela definitivamente entrou no radar dos degenerados do Wall Street Bets.

Aliás, ainda não expliquei do que se trata essa comunidade. Basicamente o Wall Street Bets se consolidou como um fórum sobre ações e derivativos hospedado no Reddit, abastecido por traders independentes e pequenos investidores que riem de si mesmo o tempo todo, gostam de parecer inconsequentes e se designam como “degenerados” e “retardados”.

O típico conteúdo do WallStreetBets

O conteúdo é hilário. Na maioria das vezes são prints de operações, memes e vídeos toscos, cheios de sarcasmo. Costumam ter a expressão YOLO (You Only Live Once, ou Só se Vive uma Vez) por perto.

O short

A visão de Burry (e provavelmente também de DeepFuckingValue) era dissidente pois ele havia prestado atenção em um detalhe: as novas gerações de Xbox e PlayStation ainda sairiam com leitores de discos, dando uma significativa sobrevida à companhia.

Mas sua voz era dissidente e a maioria no mercado via Gamestop como mais uma rede de lojas físicas morrendo por causa da revolução digital. E você sabe o que gestores fazem quando não acreditam em uma empresa, não é?

Eles alugam uma ação e vendem, esperando que, no momento em que precisarem devolver os papéis para os donos, consigam comprá-las no mercado por menos.

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É o famoso short ou venda descoberta. E foi nesse movimento que as sardinhas encurralaram os tubarões.

Existe uma diferença fundamental entre comprar uma ação e mantê-la na carteira e fazer um short. No segundo caso, o gestor alugou de alguém uma ação que ele não tinha e vai precisar devolver no futuro. Ele tem a obrigação, portanto, de comprar o papel no mercado, custe o que custar.

O problema para o vendido é que outros investidores percebem o que está acontecendo e podem sair comprando todas as ações que puderem para revendê-las a preços muito mais altos. É o short squeeze.

No caso da Gamestop, a turma do Wall Street Bets descobriu que os fundos já haviam vendido no mercado cerca de 140% das ações existentes da rede. Isso mesmo, muito mais ações que havia disponível para comprar.

A conclamação para o short squeeze aconteceu no fórum na semana passada. A partir daí, o que aconteceu foi épico, para usar a linguagem deles.

Os degenerados do Wall Street Bets começaram a comprar a ação e também as opções da Gamestop, o que potencializou, e muito, os efeitos negativos nos fundos vendidos, pois os formadores de mercado que emitiram opções acabaram obrigados a comprar ações para controlar seu risco.

O preço dos papéis começou a subir sem parar. Na segunda, são 126%. Na terça, Elon Musk, da Tesla, crítico das operações short, publica um tuíte celebrando o movimento com a linguagem típica do fórum: “gamestonks”. Na quarta-feira Gamestop já vale 434% a mais que na sexta-feira anterior (US$ 347) e seu volume de negociação chega perto dos 200 milhões por dia, o mesmo que Alphabet, Apple, Amazon, Facebook e Microsoft somados.

Do outro lado do balcão surgem boatos de que alguns fundos estão à beira da falência. Na berlinda, o Melvin Capital, então com US$ 12,5 bilhões sob administração, reconhece ter sido obrigado a fechar sua posição vendida. A gestora precisou de um aporte de quase US$ 3 bilhões de outras duas outras empresas para sobreviver.

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No Wall Street Bets, a euforia é total. O fórum concentrou toda a atenção da imprensa e saltou dos 2 milhões de degenerados para 6,5 milhões de degenerados, em um movimento de alta quase tão impressionante quanto o do papel da Gamestop. O sentimento por lá é de vitória, de ter dado o troco nos tubarões que vivem manipulando o mercado. ‘Não vamos vender, vamos levar Gamestop aos US$ 1.000. Queremos que eles sofram. Queremos loss porn’, dizem os traders.

Um investidor mais empolgado mandou sua mensagem em um outdoor

Na quinta-feira o establishment contra-ataca. A SEC, reguladora do mercado americano, anuncia que acompanha a volatilidade da empresa e as principais corretoras do varejo, alegando riscos sistêmicos, impedem a compra de ações da Gamespot — até a Robin Hood.

Como só é permitida a venda de papéis, Gamespot cai quase 50%, mas isso não é o fim do rali. Ainda mais inflamada, a comunidade volta à carga no dia seguinte levando o papel de volta ao patamar do dia anterior. Em uma semana cheia de surrealismo e utopia, Gamestop fecha com alta de 400%. Para Michael Burry, o trade já rendeu 10.700%.

Tropicalização

Sim, esse movimento chegou ao Brasil. O Reddit ganhou um fórum chamado Faria Lima Bets e um grupo no Telegram dedicado a coordenar esforços em um short squeeze de IRB reunia 40 mil pessoas na sexta. A ação chegou a subir 17% em um dia, mas caiu quase 7% no outro.
Se você está pensando em se juntar ao movimento, não custa lembrar que o mercado brasileiro é diferente do americano e IRB é diferente de Gamestop.

Em primeiro lugar, nosso mercado não permite que uma quantidade maior que a de ações existentes seja vendida; em segundo, IRB não é uma varejista em apuros com possibilidade de turnaround, mas uma resseguradora em um negócio extremamente complexo acusada de contabilidade criativa.

Perguntas que restam

Como todos no mercado, temos muito mais perguntas que respostas sobre o fenômeno Wall Street Bets

  1. Quem são os verdadeiros prejudicados? Os grandes gestores dos fundos ou seus cotistas? Os traders do Reddit tiraram dinheiro de tubarões ou das sardinhas que haviam contratado tubarões?
  2. Estamos diante de manipulação de preços ou mera liberdade de expressão?
  3. O mercado brasileiro tem regras diferentes, mas será que algo parecido pode acontecer por aqui? Sabemos que tem gente tentando fazer isso com o papéis da IRB.
  4. As corretoras estavam certas quando restringiram a negociação dos papéis da Gamestop? Isso não causou assimetria?
  5. Short selling ou a venda a descoberto deveria ser mais restrito ou mais regulado?
  6. Vem mais regulação por aí?

Na quarta-feira (3) vamos gravar um episódio especial sobre o que aconteceu nesta semana. Se você chegou até aqui e tem mais alguma pergunta, é só comentar nesta matéria.

Abraço,

Renato Santiago
Co-fundador do Stock Pickers