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Jinzhu Baba, o “Tio Ricco” chinês

Entenda a crise chinesa atual pela visão de um chinês

Texto originalmente enviado aos assinantes da newsletter Stock Pickers no sábado, 25 de setembro de 2021. Para recebê-la, clique aqui.

Muito provavelmente você nunca tinha ouvido falar em Evergrande, apesar de uma outra ever, a “green” (Evergreen), ter chamado atenção do mundo, há alguns meses, após ter encalhado no canal de Suez.

A Evergrande, segunda maior incorporadora chinesa, atraiu atenção do mundo após declarar que estava com dificuldade de pagar uma de suas dívidas de aproximadamente US$ 83 milhões. Pode parecer pouco, diante do tamanho da empresa, mas essa é só a ponta do problema que pode ser grande, com perdão do trocadilho. O valor total da dívida da empresa gira em torno de US$ 300 bilhões.

Com a repercussão do caso, os mercados caíram (S&P 500 fechou na segunda-feira com 1,5% de queda) e não demorou muito para começar a surgir comparações entre a crise da gigante chinesa e a quebra do Lehman Brothers em 2008.

Esse foi inclusive o tema da live extraordinária que fizemos com Noman Khan, da O3 Capital, gestor que tem grande experiência em China, e que você pode assistir aqui. Mas já podemos te adiantar a conclusão: Evergrande não é o novo Lehman Brothers, porque o governo chinês, além de acompanhar de perto o que está acontecendo, também foi um dos indutores da crise.

A mídia especializada como um todo falou com consultores, gestores, analista, e muitas pessoas que acompanham a China bem de perto, mas nós usamos nossa rede de contato para chegar ao Jinzhu Baba, o Tio Ricco da China.

Apesar de ser um personagem fictício, Baba foi construído com base nas conversas de bastidores que tivemos com vários interlocutores que deram opiniões tão sinceras sobre a China que preferiram ficar no anonimato.

De certa forma, Baba é um análogo ao Tio Ricco, alguém com muita vivência de mercado, opiniões duras e que fala verdades que muitas vezes as pessoas não querem ouvir.

Abaixo você confere nossa conversa com ele.

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Stock Pickers: Baba, a China chama atenção do mundo inteiro por conta de uma crise que relembra mais os EUA do que a própria China. De forma rápida, o que está acontecendo aí

Baba: Bem. Existem 3 elementos  fundamentais que os ocidentais simplesmente não captam sobre o nosso país  que fazem toda diferença para entender o que se passa aqui: o primeiro é o governo, o segundo o governo e o terceiro o governo. Não há nada relevante acontecendo na China hoje que o governo não saiba e não controle de alguma maneira O governo aqui é o dono da bola, o dono dos times, do estádio e também o juiz. Você pode ter uma opinião sobre isso e até achar ruim. Muitos chineses acham, mas a verdade é que a população sabe que aqui é assim, convive com isso e de alguma forma, aceita.  Pensa bem: ninguém seguraria 1 bilhão e meio de pessoas na rua exigindo o fim do partido. A forma como a China é governada hoje só é possível porque existe um nível de satisfação da sociedade com o Partido. E os dirigentes sabem disso.

S: Então, a única forma de entender o que está acontecendo na China é pensar usando a lógica do Partido Comunista Chinês, certo?

B: Exato. Vamos a um exemplo prático. Aí no país de vocês, a cada 4 anos tem eleições e novas pessoas tomam conta do governo. Essas pessoas podem fingir que nada aconteceu nos últimos 4 e tentar começar tudo novamente. Aqui não funciona assim. Os dirigentes do Partido pensam em décadas. Essa é uma diferença gigantesca para entender os movimentos que acontecem por aqui. E a crise atual é um reflexo de uma transição pensada há um bom tempo pelo partido. Não ocorreu por um acaso.

S: Quando você diz que não ocorreu por acaso, você quer dizer que o governo chinês induziu isso?

B: Até bem pouco tempo, o PIB era um dos principais focos do governo, mas isso começou a mudar. Nos últimos anos milhões de chineses migraram do campo para a cidade e isso representou uma mudança significativa na dinâmica de renda da população. Apesar de não ser um país desenvolvido, a China está longe de ser só mais um emergente e atualmente, com a taxa de natalidade em queda e urbanização acelerada, o governo foca também em criar as bases para a construção de um novo modelo de desenvolvimento. E o que pode ser bom para a economia no longo prazo não é necessariamente bom para o mercado no curto.

S: E como a Evergrande se insere nesse contexto?

B: Nos EUA, 36% do patrimônio dos cidadãos, em média, está em ações  e 26% em imóveis. Na China, 62% estão em imóveis  e apenas 11% em ações. Essa diferença vem principalmente por conta do recente processo de urbanização e aumento da renda de pessoas que até bem pouco tempo atrás moravam no campo. Ocorreu um boom imobiliário na China e o governo agora vem endereçando a questão, pois o mercado de real state é muito grande e perigoso. É muita dívida. Não é só especulação. E isso se tornou uma preocupação para o governo. O problema da alavancagem das incorporadoras já vem sendo endereçado há 5 anos. É uma gestão de risco a nível governamental. Por isso que alguns dizem que a crise foi induzida pelo governo, porque ele passou a exigir a diminuição da alavancagem das empresas do setor para garantir a saúde do sistema.

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S: Então não há surpresa nenhuma para o governo?

B: De forma alguma. Na China, qualquer empresa que começa a se destacar possui uma salinha reservada para o PCC (Partido Comunista Chinês). Eles estão lá em todas as reuniões. Não é exagero. A Evergrande é a segunda maior incorporadora chinesa e é acompanhada de perto pelo governo. Existe até problema pessoal na história. O Xi Jinping odeia o dono da Evergrande, Xu Jiayin. É bem provável que ele vá para a cadeia e que vários projetos sejam entregues para outras construtoras. E uma parte poderá ser estatizada. Mas, como já disse, a crise atual visando a redução da alavancagem das empresas deste setor é um dos passos para uma China que visa ser menos dependente da economia mundial, com mais distribuição de renda e diminuição da poluição. Esses são os objetivos do Partido para os próximos anos e é normal uns engasgos no meio do caminho.

S: Se aparentemente está tudo sob controle, porque o mercado estressou com a notícia?

B: Como um amigo brasileiro me ensinou: quem tem… tem medo. E a cota machuca. Eu mesmo rebalanceei o portfólio por achar que existem coisas melhores para comprar neste momento e não quero correr riscos desnecessários.

S: Mas não é um novo Lehman, certo?

B: Não. A coisa ainda vai ficar flutuando por algum tempo. O governo vai negociar, pois a prioridade é entregar os projetos. A Evergrande tem 1300 em andamento. Xi está limpando a pista para colocar os “novos caminhões” visando o crescimento da China nas próximas décadas.. Se houvesse um risco sistêmico de verdade, ele já teria enforcado o Jiayin. Como não tem, estão deixando o cara sangrar até morrer. As empresas aqui são instrumentos para o bem comum, que é a estratégia do partido, quando alguém tenta dar um passo além, o governo tira de cena.

S: Tira de cena?

B: Aqui na China, a cada 41 dias morre um bilionário. Prefiro não comentar.

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S: Muito obrigado, Baba. Gostaria de deixar algum último recado para nós ocidentais sobre a China?

B: Entender a dinâmica interna na China pode não ser tão fácil para quem não vive aqui, mas os próximos passos do partido no campo econômico podem ser facilmente conhecidos através da leitura dos planos quinquenais. Está tudo lá. O conceito de “prosperidade comum” irá guiar os próximos passos do Partido visando uma maior distribuição de renda no país e a diminuição da desigualdade. E não é porque o partido é “bonzinho”, eles sabem que só irão se manter se a população estiver satisfeita e olhando para o ocidente dá para perceber que desigualdade social acentuada a insatisfação generalizada colocam qualquer regime político em risco.

S: Muito obrigado pela conversa, Baba.

B: 這是一種享受。再見。

Josué Guedes
CMO do Stock Pickers