Transplante de fígado e rim: entenda os procedimentos realizados em Faustão

Apresentador está internado desde maio e segue em recuperação no Hospital Albert Einstein após procedimentos complexos realizados em dias consecutivos

Victória Anhesini

Fausto Silva apresenta o 'Domingão do Faustão', na Globo (Reprodução/TV Globo)
Fausto Silva apresenta o 'Domingão do Faustão', na Globo (Reprodução/TV Globo)

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O apresentador Fausto Silva, o Faustão, 75 anos, passou por dois novos procedimentos nesta semana: um transplante de fígado, na quarta-feira (6), e um retransplante renal, na quinta-feira (7), segundo informou o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Ele está internado desde 21 de maio por infecção bacteriana aguda com sepse, uma condição grave que provoca inflamação generalizada e pode levar à falência de órgãos, o que motivou sua inclusão na fila de transplantes do SUS. O procedimento foi necessário devido à deterioração progressiva da função hepática e à falência do rim que já havia sido transplantado anteriormente.

O transplante renal estava planejado há um ano e foi possível após a confirmação da compatibilidade dos órgãos doados por um único doador, feita pela Central de Transplantes do Estado de São Paulo. Esses procedimentos se somam a um histórico recente, quando Faustão recebeu um transplante de coração em agosto de 2023 e um transplante de rim em fevereiro de 2024.

Transplante e retransplante

O hepatologista Luís Edmundo da Fonseca, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que o transplante é um procedimento cirúrgico no qual um órgão doente é substituído por um órgão saudável, proveniente de um doador vivo ou falecido, com o objetivo de restaurar a função daquele órgão e melhorar a qualidade de vida do paciente.

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Já o retransplante “é a realização de um novo transplante no mesmo paciente, substituindo um órgão que já havia sido transplantado anteriormente, mas que deixou de funcionar adequadamente”.

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O especialista detalhou que, em alguns casos, a necessidade do retransplante ocorre já nos primeiros dias do pós-operatório, devido a uma rejeição aguda. Ele explica que o sistema imunológico do paciente reconhece o órgão como estranho e o ataca. Porém, destaca que há situações em que a perda da função do órgão pode ser lenta e progressiva, caracterizando uma rejeição crônica, que pode aparecer meses ou anos após o transplante.

“Além disso, existe a possibilidade de recidiva da doença original, ou seja, a doença que afetou o órgão antes do transplante retorna e compromete novamente o órgão transplantado”, ressalta.

Transplantes duplos

Em transplantes simultâneos de fígado e rim, Fonseca explica que os órgãos normalmente vêm do mesmo doador, o que facilita o processo cirúrgico e imunológico.

Segundo o hepatologista, o principal critério de compatibilidade em relação ao fígado é o tipo sanguíneo, já que o órgão possui maior tolerância imunológica. No caso do rim, é necessária uma avaliação mais detalhada, incluindo também a compatibilidade de marcadores imunológicos chamados HLA (antígenos leucocitários humanos), fundamentais para reduzir o risco de rejeição.

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“A imunossupressão, que é o uso de medicamentos para evitar que o sistema imunológico ataque o órgão, costuma ser determinada pelo fígado”, disse. “Isso acontece porque o fígado é naturalmente mais tolerante à presença de células do doador e exerce um efeito protetor sobre o rim transplantado. Assim, o tratamento imunossupressor costuma ser menos intenso do que seria exigido em um transplante isolado de rim”.

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Hemodiálise após transplante renal

O nefrologista Américo Cuvello Neto, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, esclarece que “quando o órgão transplantado não está funcionando de forma adequada, pode haver acúmulo de líquido e substâncias tóxicas no organismo. Então, a diálise ajuda a manter o equilíbrio do paciente até que o órgão transplantado retorne a funcionar”.

Sobre a recuperação, Cuvello Neto explica que há diversas variáveis relacionadas a múltiplos transplantes. Há maior risco de rejeição, pode haver necessidade de uma imunossupressão mais intensa, infecções recorrentes, complicações cirúrgicas e impacto acumulado na função de outros órgãos.

“Fatores como o estado clínico antes dos transplantes, o intervalo entre eles e a adesão ao tratamento influenciam diretamente o prognóstico”, completa.

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Quem pode doar órgãos?

Sobre doação, o cirurgião gastrointestinal Lucas Nacif, membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD), destaca que nem todos podem ser doadores.

Para ser um doador, é necessário passar por uma avaliação médica rigorosa. No caso de doadores falecidos, a morte cerebral deve ser confirmada, e o doador precisa estar em boas condições de saúde antes do falecimento. Também são realizados testes para garantir a compatibilidade entre doador e receptor, considerando fatores como tipo sanguíneo e tamanho do órgão.

Após todos os procedimentos, o cuidado pós-operatório tende a ser mais intenso. Monitoramento na UTI, exames frequentes, acompanhamento multidisciplinar e uso contínuo de imunossupressores são alguns dos protocolos.

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“Com acompanhamento adequado, grande parte dos transplantados volta a ter uma vida ativa e saudável. O transplante não é o fim da linha, mas sim o início de uma nova etapa. Com disciplina e acompanhamento, é possível recuperar a qualidade de vida e reescrever a própria história”, conclui Nacif.