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O Ministério da Saúde alertou que o surto de hantavírus no cruzeiro que saiu do Ushuaia, no sul da Argentina, e deixou três mortos não representa risco para o Brasil. Em nota, a pasta destacou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o risco global de disseminação do vírus também como baixo e disse que o cenário não tem impacto direto para o Brasil até o momento.
“Não há registro da circulação do genótipo Andes no Brasil, variante relacionada ao episódio raro de transmissão interpessoal registrados na Argentina e no Chile, e que está em circulação no navio. Os casos humanos no Brasil não apresentam transmissão entre pessoas. Até o momento, o país identificou nove genótipos de Orthohantavírus em roedores silvestres, e nenhuma transmissão entre pessoas”, diz o Ministério.

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Após a repercussão de notícias sobre o Paraná ter confirmado dois casos de hantavírus, o ministério também reforçou que as infecções “não têm qualquer relação com a situação internacional atualmente monitorada pela OMS”.
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Como mostrou O GLOBO, dados da pasta mostram que ao menos 7 casos de hantavírus já foram registrados no país em 2026 até o dia 27 de abril. O patógeno, que não é novo, provoca de 10 mil a 100 mil casos a cada ano pelo mundo, segundo estimativas da OMS.
“No país, a hantavirose é uma doença de notificação compulsória há mais de duas décadas, permitindo o monitoramento contínuo dos casos humanos e dos genótipos virais circulantes (…) O Ministério da Saúde mantém vigilância contínua em todo o território nacional, com ações de controle ambiental, orientação à população e monitoramento epidemiológico”, diz o ministério.
Os dados da pasta mostram que, em 2026, foram dois casos em Minas Gerais; dois no Rio Grande do Sul; um em Santa Catarina; um no Paraná e um sem unidade da federação identificada. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, houve ainda um segundo caso confirmado no estado neste ano.
Os números do ministério apontam ainda para um óbito, em Minas Gerais. Os registros não têm relação com o surto em andamento no cruzeiro. No ano passado, o Brasil registrou 35 casos e 15 mortes por hantavírus. Os dados são preliminares e ainda podem ser atualizados.
O cenário é esperado: segundo a média dos últimos cinco anos, o país identifica cerca de 45 infecções pelo vírus anualmente. Na série histórica, que teve início em 1993, o maior número de casos anuais foi registrado em 2006, quando 186 contaminados foram confirmados.
Em relação aos óbitos, a média dos últimos cinco anos aponta para cerca de 15 ocorrências anualmente. Desde 1993, quando a doença foi identificada pela primeira vez no Brasil, o ano mais letal foi também 2006, quando 71 vidas foram perdidas para o hantavírus.
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Ao todo, de 1993 a 2025, foram confirmados 2.412 casos e 926 óbitos no Brasil, com os dados recentes apontando uma tendência de redução.
Em um recorte de 2007 a 2025, o Ministério da Saúde identificou que 76% dos casos de infecção por hantavírus no Brasil foram em homens de 20 a 49 anos; 81% ocorreram em zona rural e 93% demandaram hospitalização. A taxa de letalidade no período foi de 41%, ou seja, quase metade dos infectados morreu.
Em relação à exposição de risco, mais de 70% atuavam em atividades rurais. Em 45% dos casos, foi identificado contato com roedor, principal transmissor do microrganismo. Em 45%, houve exposição a desmatamento ou aragem da terra e, em 53%, a limpeza de galpão ou depósito.
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O que é o hantavírus e de onde ele vem?
Os hantavírus são uma família de vírus que circula entre roedores e, em casos raros, infecta humanos e causa doença grave. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ocorram de 10 mil a 100 mil infecções a cada ano. Quando isso acontece, a taxa de letalidade geralmente é de 1% a 15% na Ásia e na Europa, mas chega a 50% nas Américas.
O vírus foi reconhecido pela primeira vez em roedores em 1978 por pesquisadores coreanos. Décadas antes, havia causado um grande surto durante a Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, atingindo mais de três mil soldados das Nações Unidas. Um segundo grande surto do vírus ocorreu nos Estados Unidos, em 1993. Atualmente, mais de 21 hantavírus que causam doenças em humanos são conhecidos pelo mundo, entre eles o Andes, do surto atual no cruzeiro.
Em coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, explicou que o hantavírus é transmitido na maioria das vezes por meio do contato com roedores infectados ou com sua urina, fezes ou saliva. O vírus Andes é a única espécie conhecida de hantavírus capaz de ser disseminado entre humanos, mas de forma limitada.
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— Em surtos anteriores do vírus Andes, a transmissão entre pessoas esteve associada ao contato próximo e prolongado, especialmente entre membros da mesma família, parceiros íntimos e pessoas que prestavam cuidados médicos. Isso parece ser o caso na situação atual — disse Tedros.
Ainda assim, na coletiva da OMS, a diretora do departamento para Prevenção e a Preparação frente a Epidemias e Pandemias, Maria Van Kerkhove, ressaltou que o surto atual de hantavírus não representa nem “o começo de uma epidemia” nem o de “uma pandemia”:
— Não é o começo de uma pandemia, mas é a ocasião ideal para lembrar que os investimentos em pesquisa de agentes patogênicos como este são essenciais, pois os tratamentos, os testes de detecção e as vacinas salvam vidas.
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Onde circulam os hantavírus?
Os hantavírus estão presentes principalmente na Ásia e na Europa, onde causam a síndrome hemorrágica com insuficiência renal (SHIR), mas também circulam na região das Américas, onde provocam a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH)
Na Ásia Oriental, particularmente na China e na República da Coreia, a SHIR continua a ser responsável por milhares de casos anualmente, embora a incidência tenha diminuído nas últimas décadas. Na Europa, milhares de casos são relatados a cada ano, principalmente nas regiões Norte e Central.
Nas Américas, a SCPH é registrada de forma muito mais rara, com centenas de casos relatados anualmente em todo o continente. Porém, apesar da menor incidência, a forma SCPH da infecção pelo hantavírus apresenta uma alta taxa de letalidade, geralmente entre 20% e 40%.
Quais os sintomas do hantavírus?
Segundo a OMS, os sintomas geralmente começam entre uma e oito semanas após a exposição, dependendo do tipo de hantavírus, e tipicamente incluem febre, dor de cabeça, dores musculares e sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, náuseas ou vômitos.
No caso da SCPH, a doença pode progredir rapidamente para tosse, falta de ar, acúmulo de líquido nos pulmões e choque. Na SHIR, os estágios mais avançados podem incluir hipotensão, distúrbios hemorrágicos e insuficiência renal.