Doença cerebral silenciosa pode quadruplicar risco de demência, aponta estudo nos EUA

Pesquisa realizada com quase 2 milhões de pessoas associou angiopatia amiloide cerebral (AAC) e risco maior de desenvolver demência em até cinco anos

Agência O Globo

Mulher e homem idosos seguram termômetro (Vlada Karpovich/Pexels)
Mulher e homem idosos seguram termômetro (Vlada Karpovich/Pexels)

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Uma condição pouco conhecida, que muitas vezes evolui sem sintomas evidentes, pode aumentar em até quatro vezes o risco de demência em idosos. É o que indica um amplo estudo norte-americano com quase 2 milhões de pessoas, que associou a angiopatia amiloide cerebral (AAC) a um risco significativamente maior de desenvolver demência em até cinco anos após o diagnóstico — mesmo na ausência de histórico de AVC.

A angiopatia amiloide cerebral ocorre quando proteínas do tipo amiloide se acumulam nos vasos sanguíneos do cérebro, enfraquecendo suas paredes e comprometendo o funcionamento cerebral. Os resultados da pesquisa serão apresentados na International Stroke Conference 2026, da Associação Americana do AVC, que acontece entre os dias 4 e 6 de fevereiro, em Nova Orleans, considerada um dos principais fóruns internacionais sobre saúde cerebral e doenças cerebrovasculares.

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De acordo com os pesquisadores, o risco elevado de demência foi observado tanto em pacientes com AAC que já haviam sofrido um AVC quanto naqueles que nunca tiveram o evento, o que reforça o papel direto da doença no declínio cognitivo. A conclusão, segundo os autores, aponta para a importância do rastreamento precoce e rotineiro de alterações de memória e pensamento após o diagnóstico da condição.

“Muitas pessoas com AAC desenvolvem demência; no entanto, até agora, os médicos não tinham estimativas claras, em larga escala, sobre com que frequência e quão rapidamente a demência progride nesses pacientes”, afirmou Samuel S. Bruce, professor assistente de neurologia da Weill Cornell Medicine, em Nova York, e autor principal do estudo, ao site Science Today. “Nosso trabalho calculou estimativas a partir de uma grande amostra de pacientes do Medicare para verificar se pessoas com AAC têm maior probabilidade de receber um novo diagnóstico de demência e esclarecer como a AAC e o AVC — separadamente e em conjunto — se relacionam com esses diagnósticos.”

O estudo analisou registros de saúde de 1,9 milhão de beneficiários do Medicare com 65 anos ou mais, entre 2016 e 2022. Os pesquisadores acompanharam a evolução clínica dos participantes ao longo do tempo, observando períodos sem AAC ou AVC, com apenas uma das condições ou com ambas. Esse acompanhamento permitiu identificar quando a demência foi diagnosticada pela primeira vez.

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Os resultados mostram que, em até cinco anos após o diagnóstico, cerca de 42% das pessoas com AAC desenvolveram demência, contra aproximadamente 10% entre aquelas sem a condição. Pacientes com AAC e AVC apresentaram um risco 4,5 vezes maior de receber diagnóstico de demência em qualquer momento do acompanhamento. Já aqueles com AAC, mas sem histórico de AVC, tiveram risco 4,3 vezes maior. Em comparação, pessoas que sofreram AVC, mas não tinham AAC, apresentaram risco 2,4 vezes maior.

“O que chamou atenção foi que o risco de desenvolver demência entre pessoas com AAC sem AVC foi semelhante ao daquelas com AAC e AVC, e ambos foram maiores do que entre participantes com AVC isolado”, explicou Bruce. “Isso sugere que mecanismos não relacionados ao AVC são fundamentais para o risco de demência na AAC. Esses resultados destacam a necessidade de rastrear proativamente mudanças cognitivas após o diagnóstico de AAC e de tratar fatores de risco para evitar maior declínio.”

Especialistas destacam que os achados se inserem em um entendimento mais amplo sobre o papel dos pequenos vasos sanguíneos do cérebro na demência. Steven M. Greenberg, professor de neurologia da Universidade Harvard e ex-presidente da conferência internacional, comentou que “doenças dos pequenos vasos cerebrais são grandes contribuintes para a demência. Isso é especialmente verdadeiro na AAC, que frequentemente ocorre junto com a doença de Alzheimer, formando um golpe duplo poderoso. Sabemos que há risco de demência após qualquer tipo de AVC, mas esses resultados sugerem um risco ainda maior para pacientes com AAC”. Greenberg não participou da pesquisa.

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Os autores ressaltam limitações do estudo, que se baseou em códigos administrativos de diagnósticos do Medicare, e não em avaliações clínicas detalhadas ou exames de imagem, o que pode gerar imprecisões. Ainda assim, destacam que os códigos utilizados já foram validados em pesquisas anteriores. Eles defendem novos estudos prospectivos, com métodos diagnósticos padronizados, para aprofundar o entendimento da relação entre AAC, AVC e demência.

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A pesquisa incluiu 1.909.365 adultos com idade média de 73 anos; 54% eram mulheres. Do total, 82,4% se declararam brancos, 7,3% negros e 10,3% pertenciam a outros grupos raciais. Apenas 752 participantes (0,04%) receberam diagnóstico de angiopatia amiloide cerebral durante o período analisado, reforçando o caráter silencioso — mas potencialmente devastador — da doença.