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Quem começa a usar uma caneta emagrecedora dificilmente vai imaginar que as dúvidas avancem para além do peso. Com o tempo, perguntas sobre ciclo menstrual, ovulação e outras mudanças no organismo também começaram a aparecer, e algumas já chegaram aos estudos científicos.
Nos últimos meses, dois trabalhos ajudaram a jogar luz sobre essa relação, mas por caminhos diferentes. Um estudo publicado na Obstetrics & Gynecology analisou notificações de eventos adversos ocorridos durante o uso de medicamentos como a semaglutida, e encontrou sinais de alterações menstruais e ciclos sem ovulação. Outro, publicado no Journal of Clinical Medicine, acompanhou mulheres que já tinham irregularidade menstrual e dificuldade para ovular antes do tratamento e observou, em parte delas, retorno da ovulação e maior regularidade do ciclo.
Os resultados apontam para situações diferentes e, por enquanto, pedem cautela. “A medicação não pode ser analisada isoladamente”, afirma Lucas Rezende, médico e fundador da ARC Health Place. Outros fatores ligados à saúde e ao próprio processo de emagrecimento também podem influenciar o ciclo e a ovulação.
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O InfoMoney conversou com o especialista para entender o que essas mudanças podem significar na prática e quais sinais merecem mais atenção durante o uso das canetas emagrecedoras.
As canetas podem alterar o ciclo menstrual e a ovulação?
Mudanças podem aparecer durante o tratamento, mas ainda não existe uma resposta única. Segundo Lucas Rezende, algumas mulheres relatam atraso menstrual, alteração no fluxo ou irregularidade do ciclo durante o uso de semaglutida ou tirzepatida.
Um dos estudos recentes encontrou justamente notificações de irregularidades menstruais e de ciclos sem ovulação, quadro chamado de anovulação, quando o ovário não libera um óvulo naquele ciclo. Embora chame atenção, o dado não permite por si só concluir que a medicação seja a causa.
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Isso porque o ciclo pode mudar por vários motivos ao longo do tratamento. Segundo Rezende, a própria perda de peso, a velocidade do emagrecimento, uma redução importante da ingestão de alimentos, o estado nutricional, o uso de anticoncepcionais e outras alterações hormonais ou ginecológicas também podem interferir.
“Esse tipo de estudo parte de notificações feitas durante o uso do medicamento. Ele consegue identificar quando determinado evento aparece com frequência maior do que esperado, mas não consegue dizer sozinho por que aquilo aconteceu”, reforça o médico.
Por que algumas mulheres podem voltar a ovular durante o tratamento?
Em mulheres que já tinham irregularidade menstrual e dificuldade para ovular antes do tratamento, a resposta pode ser diferente. Foi o que apareceu no segundo estudo, que acompanhou 96 mulheres com excesso de peso e alterações reprodutivas.
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Antes do uso da semaglutida, 83% tinham menstruação pouco frequente e anovulação. Com o tratamento, as participantes perderam, em média, cerca de 11% do peso corporal, e os pesquisadores também acompanharam alterações em glicose, insulina e resistência insulínica. Depois de seis meses de tratamento, 52,5% das mulheres que não ovulavam passaram a apresentar ciclos com ovulação.
Segundo Rezende, uma das possíveis explicações está na melhora metabólica. “Quando resistência à insulina e excesso de peso participam da dificuldade para ovular, a melhora desses fatores pode favorecer também a regularização do ciclo”, explica o especialista.
Quais mudanças merecem atenção durante o tratamento?
O principal aspecto é observar mudanças persistentes em relação ao padrão que a mulher tinha antes de começar o tratamento.
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Segundo Rezende, vale observar principalmente:
- ausência de menstruação por períodos prolongados;
- ciclos antes regulares que passam a ficar frequentemente irregulares;
- menstruações que ficam repetidamente muito espaçadas;
- sangramento fora do período menstrual;
- aumento importante do fluxo;
- presença recorrente de coágulos;
- qualquer alteração acompanhada de dor ou outros sintomas.
Também existe outro ponto importante: algumas mulheres que não ovulavam regularmente podem voltar a ovular durante o tratamento à medida que o quadro metabólico melhora. Nesse caso, a possibilidade de gravidez também pode mudar, inclusive para quem estava acostumada a ciclos muito irregulares.
“Acompanhar o ciclo não é uma preocupação secundária. Para mulheres em idade reprodutiva, saúde menstrual, contracepção e planejamento gestacional precisam fazer parte da conversa desde o início do tratamento”, afirma Rezende.