Entrevista exclusiva

Votaremos o modelo de concessão para o pré-sal em 2017, diz vice-líder do governo

Deputado no sexto mandato consecutivo, o gaúcho Darcísio Perondi é homem de confiança de Michel Temer para atuar como relator do principal projeto econômico até o momento enviado pelo governo interino ao Congresso

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SÃO PAULO – O governo do presidente interino, Michel Temer, está aos poucos recuperando a confiança necessária para tirar o Brasil da crise, mas os efeitos colaterais do atual momento econômico podem se arrastar por até 15 anos. Essa é a leitura que faz o deputado federal e vice-líder do governo na Câmara, Darcísio Perondi (PMDB-RS). No aguardo apenas de uma confirmação protocolar para ser efetivado relator do principal projeto econômico até o momento apresentado pela gestão peemedebista — a que estabelece um teto para a evolução das despesas públicas –, o parlamentar concedeu uma entrevista exclusiva ao InfoMoney. Nela, falou sobre a retomada da confiança dos mercados e consumidores, os gargalos na economia, as responsabilidades do Congresso e os planos para pôr fim ao modelo de partilha do pré-sal em 2017.

Filiado ao PMDB desde 1993, Darcísio Perondi está no sexto mandato consecutivo como deputado federal. Formado em medicina e considerado membro da bancada ruralista na Câmara, o peemedebista esteve entre os Cabeças do Congresso Nacional de 2015, lista elaborada pelo Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) a partir de pesquisa entre os parlamentares. Nela, ganhou destaque por seu perfil debatedor, mas também pela atuação como formulador, sendo conhecido como um dos principais articuladores da bancada da saúde na casa. Sua última campanha contou com receitas declaradas que somaram R$ 1,792 milhão, tendo como principais doadores Recofarma (R$ 266 mil), Bradesco (R$ 285 mil), Arcos Dourados (R$ 135,5 mil), Arosuco (R$ 171 mil), Unimed (R$ 125 mil) e Amil (R$ 300 mil). Do lado das pessoas físicas, destaque para um investimento de R$ 50 mil feito por Michel Temer. Perondi foi o 20º candidato gaúcho mais votado, com 109.864 votos.

Confira os melhores momentos da entrevista:

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InfoMoney – Como o senhor tem percebido a avaliação do mercado sobre o governo neste momento?
Darcísio Perondi – Os mercados querem reforma e o governo enfrenta seus gargalos. Eu sinto confiança e vejo darem tempo ao novo governo. Também percebo incertezas, o que é perfeitamente normal. Mas sinto muito mais confiança do que incerteza. O Brasil vive um quadro de depressão econômica: PIB negativo por dois anos (vamos perder 7/8% em dois anos), inflação alta, juro alto, desemprego, queda de arrecadação, falta de confiança do investidor, desconfiança do consumidor. É um quadro sinistro de um paciente grave que está dentro da UTI, entubado, em coma profundo, que a família está na porta angustiada. É preciso tempo para sair dessa crise.

IM – É o que mais precisa, mas o que menos tem. O senso de urgência é muito grande. Como lidar com isso?
DP – Se você atende um politraumatizado, vai estancar o sangramento, colocar uma tala, oxigênio, mas ele vai ficar em coma na UTI por talvez 30 ou 60 dias.

IM – Por quanto tempo vamos ver o Brasil em coma?
DP – A saída da crise, para ter superávit primário, dívida interna bruta decrescendo, [é esperada dentro] de cinco a 15 anos. É bom lembrar como estava antes, e agora há sinais tênues de melhora do paciente, dentro do ônus da interinidade. Em menos de cem dias, veja o que foi feito: lei das estatais, fundos de pensão (que está para ser votado), votamos a DRU, votamos na comissão especial a liberdade da Petrobras da obrigatoriedade dos 30% [de participação sobre as explorações nas reservas do pré-sal]. Na terça-feira, será criada a comissão especial para a PEC 241, que será votada neste mês ou no próximo. Eu queria a concessão e vamos votá-la no ano que vem.

Agora, o governo mandou um projeto [para renegociação da dívida dos estados] e começou a negociar. Nós nos queixávamos que não havia diálogo com Dilma, e agora está havendo. Michel tem esse perfil, e fez um acordo com os governadores. Diluiu o custo ao longo do tempo, mas tinha que fazer. O mercado viu como recuo, mas isso faz parte. O mercado tem urgência, o governo tem urgência maior ainda. Mas o governo tem que pensar no país, nas contas combalidas, no quadro de depressão econômica.

IM – Tendo em vista a forma como se deu a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, com dois candidatos da base em disputa no segundo turno e uma esquerda fragmentada, esse é o momento para votar as medidas econômicas?
DP – É mais pela base, pelos novos tempos e pela pressão das ruas. Acabou o ciclo petista, eles estão fracos. É hora, sim. Nós vamos votar a PEC 241 esse ano; a reforma da Previdência chega depois das eleições, por razões de ordem política. O mercado já está vendendo mais, já tem gente batendo na porta do ministério. Você não recupera essa confiança em 24 horas. Agora, se o Congresso não votar as reformas, o governo quebra e o país afunda. O Congresso tem enorme responsabilidade.

IM – É possível perceber atritos na base. Naturais, mas que também preocupam na aprovação de pautas complexas. Assim que Rodrigo Maia foi eleito presidente da Câmara, houve sinalizações do governo no sentido de incorporar o centrão a uma base mais ampla. Nesse momento de fragilidade do grupo, que tem seu principal líder provavelmente com os dias contados, como lidar com o centrão e incorporá-lo?
DP – O centrão está apoiando o governo. [Os deputados Rogério] Rosso (PSD-DF) e Jovair [Arantes] (PTB-GO) estão integrados, participaram com brilho na última reunião de líderes no Jaburu.

IM – E o PMDB? Naquela circunstância, foi curiosa a vitória de Marcelo Castro como candidato da bancada.
DP – Nós superamos aquilo.

IM – Mas como o principal candidato do partido foi uma figura contrária ao impeachment de Dilma? Como isso foi acontecer?
DP – Isso é a loucura da política. Mas quantos votos ele teve? Ele não teve 20 votos [no partido] depois.

IM – O que mostra uma fragmentação no partido, já que ele foi escolhido candidato pela maioria, não?
DP – Não. [O PMDB] Não está fragmentado.

IM – Como o senhor explicaria isso?
DP – A decisão da eleição foi tomada na noite de segunda-feira. Marcelo Castro, por telefone, deu emenda, distribuiu recursos para uma montanha de deputados. Desde sexta-feira, ele começou a ligar para todos persistentemente. Ele me ligou 5 vezes e sabia da minha posição. Tu achas que não temos alguns deputados que são paroquiais, que só pensam na prefeitura, na emenda e na reeleição?

Acho que o governo não nomeou nem a metade dos cargos nos estados. Essa é a grande força de um governo. Michel está governando com os partidos. Não é fácil. Essa é uma força desde que ele cumpra, e ele está cumprindo.

IM – Rodrigo Maia recentemente falou em uma possível reeleição de Temer. Isso causou um grande problema no governo. O presidente em exercício diz que não cogita candidatar-se em 2018, mas o acontecimento gerou um grande incômodo no PSDB. Como resolver o impasse?
DP – Não cogita. O PSDB que administra esse incômodo.

IM – Mas as conversas a que Maia se referiu não começaram no Planalto?
DP – Não. No Palácio do Planalto, não existe essa discussão de reeleição, como não havia do impeachment até 15 dias antes. Tenho uma relação bem próxima com Michel, e ele não admitia [tratar do impeachment de Dilma Rousseff] até 15 ou 20 dias antes [da votação no plenário da Câmara]. Ele não admite discutir reeleição. Isso está claro para o governo.