Vale: um case que deixa claro a divergência entre analistas técnicos e fundamentalistas

Fundamentalistas veem as ações bastante atrativas no longo prazo, mas grafistas apontam que o papel está em tendência de baixa

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SÃO PAULO – Não é novidade para ninguém dizer que analistas técnicos e fundamentalistas nunca foram “grandes amigos”. Por basearem suas análises sobre diferentes perspectivas, fundamentos e objetivos, é bastante comum ver divergência entre as recomendações de grafistas e fundamentalistas – enquanto um indica “compra”, o outro sugere “venda”, e vice-versa. Embora nos dias de hoje muita gente defenda a mescla entre essas duas escolas, essa richa está longe de ser extinta. 

E toda essa divergência de recomendações fica ainda mais nítida se olharmos para uma das principais blue chips da bolsa brasileira: a Vale (VALE3, VALE5). Embora a mineradora continue com sólidos fundamentos e reportando resultados recordes a cada trimestre, a ação tem tido um desempenho negativo em 2011, sobretudo a partir do final de janeiro, quando os rumores sobre a saída do ex-presidente da empresa, Roger Agnelli, começaram a ganhar força.

O que dizem os grafistas?
Os grafistas indicam que o papel VALE5 encontra-se atualmente em uma LTB (Linha de Tendência de Baixa). Ou seja, para que o ativo consolide uma trajetória de alta, ele precisa romper essa linha de tendência negativa, conforme explica Marlo Barcelos, analista técnico da Investor. Sobre as recentes altas da ação nos últimos dias, Barcelos comenta que elas por enquanto sinalizam apenas “um respiro” depois de tantas baixas. “Apenas o rompimento da LTB sinalizaria uma mudança de tendência de baixa para alta”, conclui.

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De olho no Fibonacci
Contudo, os papéis da mineradora têm apresentado ganhos nos últimos pregões. Christian Cayre, consultor responsável pelo blog CHR Investor, atribui isso ao fato da ação ter chegado aos R$ 42,60, região por onde passa a retração de 61,8% do Fibonacci, traçado sobre o fundo formado em julho de 2010 e o topo de janeiro deste ano.

A aproximação desse patamar de preços, aliada ao volume dentro da média, sugere alguns repiques para a ação. No entanto, ele reforça que a tendência do papel no curto prazo ainda é de baixa, com uma reversão sendo confirmada apenas com o rompimento da autal LTB.

O que dizem os fundamentalistas?
Se na análise gráfica o momento não é dos melhores para as ações da mineradora, a análise fundamentalista mostra que o cenário atual de VALE5 é bastante atrativo para o investidor com objetivo mais longo de investimento. E os motivos não são poucos. Um deles se baseia no múltiplo P/L (Preço/Lucro), que atualmente encontra-se em níveis historicamente baixos, refletindo a recente queda das ações, em conjunto com o forte crescimento do lucro líquido – refletindo uma queda no numerador e um aumento no denominador do múltiplo.

Falando no crescimento do lucro líquido, os resultados divulgados pela Vale são mais um fator que colabora para manter o horizonte de médio e longo prazo da empresa bastante promissor. Em seu último balanço trimestral, referente aos primeiros três meses de 2011, a mineradora reportou um lucro líquido recorde de R$ 11,291 bilhões – lembrando que o recorde anterior foi alcançado nos últimos três meses de 2010. O Ebitda (geração operacional de caixa) também superou o recorde anterior.

Um dos motivos para esses fortes resultados também pode ser visto como mais um fator favorável para a empresa, que é justamente o rali de alta das commodities metálicas. Segundo a Vale, os maiores preços de vendas dos produtos compensaram o efeito negativo do menor volume de vendas no 1T11, fazendo com que as vendas de minerais ferrosos (minério de ferro, pelotas, manganês e ferro ligas) somassem R$ 16,129 bilhões entre janeiro e março – o maior resultado reportado pela companhia em um 1º trimestre. A expectativa dos analistas é de que os preços se mantenham nesses altos patamares durante um bom tempo.

O efeito político nas ações
Mesmo diante de tantas referências positivas, o que explica o fato das ações PNA da Vale terem passado de R$ 53,00 para R$ 44,00 – queda de 17% – em praticamente três meses? O mercado é unânime ao apontar a tumultuada saída de Roger Agnelli da presidência da companhia como causa principal dessa desvalorização, fato este que reacendeu os riscos de uma interferência política maior do que se esperava nas decisões da empresa.

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Nunca sendo visto como unanimidade no comando da Vale durante o Governo Lula, Agnelli viu os rumores sobre uma possível saída do posto de CEO (Chief Executive Officer) ganhar forças no primeiro trimestre desse ano, até que no dia 1 de abril foi oficializada sua saída da empresa. A expectativa era que Tito Martins ocupasse o lugar de Agnelli, mas ficou decidido dias depois que o novo presidente da empresa seria Murilo Ferreira.

Todo esse episódio teve um peso negativo nas ações não somente pelo fato da saída do presidente responsável por comandar a Vale em seu período de maior crescimento, mas pela impressão de que essa decisão teve um caráter político muito forte – algo sempre visto com maus olhos pelos investidores, sobretudo se tratando de uma empresa privada. Isso ajuda a explicar porque nesses quase dois meses após a escolha do novo CEO as ações VALE5 recuaram cerca de 7%, contrariando a expectativa de que os papéis se recuperassem com a decisão do substituto de Agnelli.

Queda das ações abriu “gap” frente aos seus pares internacionais
O efeito político nas ações da Vale fica ainda mais evidente quando comparamos o desempenho recente delas com a de seus principais pares internacionais e também com o índice “R-J CRB” (Reuters-Jefferies Commodity Research Bureau), um dos principais benchmarks de preços das commodities no mercado internacional, conforme mostrou Cayre na análise publicada em seu blog na última sexta-feira (27).

Fonte: CHR Investor

Conforme podemos ver na figura, os ADRs (American Depositary Receipts) da Rio Tinto e da BHP Billiton – duas das maiores mineradoras do mundo – e o índice de preços de commodities caminhavam lado a lado com os papéis da mineradora brasileira negociados na bolsa de Nova York. Contudo, a partir de março, é perceptível um descolamento dessa trajetória, deixando as ações da Vale bastante atrasadas em relação às empresas e ao benchmark de preços das commodities, comenta Cayre.

“No meu modo de entender, para os investidores de médio e longo prazo, nós temos aqui uma grande oportunidade de investimentos na Vale, tanto pelos fatores fundamentalistas apresentados quanto pelo atraso em relação aos seus pares internacionais”, conclui Cayre.

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