Novo cenário

Tudo mudou em poucos dias: o que será de dólar, juros e Bolsa neste “novo cenário”?

A última semana foi de disparada do dólar, alta dos juros futuros e Ibovespa despencando; o cenário mudou e não traz bons agouros para os mercados brasileiros

SÃO PAULO – Para quem esperava que, com o início do recesso parlamentar, esta semana seria de mais calmaria, pelo menos no campo político-econômico, decepcionou-se. Mais do que isso: além das turbulências, o mercado agora passou a reprecificar o novo cenário econômico, tanto em termos de perspectivas para a trajetória da política fiscal quanto para a política monetária, o que afeta as bolsas, os juros futuros e o dólar. Enquanto os juros futuros indicam uma alta de 0,5 ponto percentual na Selic e o dólar futuro subiu 4,71% na semana, o Ibovespa despencou 5,91%, abaixo dos 50 mil pontos.

As mudanças já foram sinalizadas no início da semana. Após diversas negativas de que a equipe econômica do governo iria revisar a meta de superávit primário, até então em 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto), os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, anunciaram o corte da meta para 0,15% do PIB. No discurso do anúncio, Levy e Barbosa traçaram um cenário de decepção com as receitas, mas “exaltaram” a transparência. Essa “surpresa” fez com que o Ibovespa caísse forte enquanto dólar e DI engataram fortes trajetórias de alta, em meio às indicações de que as prioridades mudaram: “antes focado na redução da relação dívida/PIB, o governo terá agora por objetivo evitar uma significante deterioração dos níveis da dívida”, afirma a Eurasia. O ajuste fiscal deve ser ainda mais longo e mais demorado, enquanto o corte do rating parece mais perto de ter acontecido. 

Dois dias depois, novas sinalizações foram feitas pelo Banco Central. Nesta sexta-feira, o ex-diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu, afirmou em discurso no Rio de Janeiro que, apesar de progressos recentes no combate à inflação, existem novos riscos para a projeção sobre o IPCA em 2016. “As expectativas de inflação ainda estão cerca de 90 pontos-base acima da nossa meta no fim de 2016”. Com isso, por mais um dia, os juros DI dispararam, em meio às perspectivas de que a Selic irá subir 0,50 ponto percentual na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). 

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A fala de Awazu representou uma mudança em relação aos discursos recentes do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que apontava que a atuação do BC estava dando resultados. Com as falas do presidente da autoridade monetária no mês passado, o mercado apontou mais fortemente para uma alta de 0,25 ponto percentual, o que está sendo revisto agora. Ou seja, Awazu mudou o cenário, levando os investidores a correr atrás da aposta de um BC mais “dovish” (brando) em relação à política monetária, apesar do cenário de baixa atividade econômica. 

Em apenas dois dias, o Ibovespa caiu mais de 4%, em meio ao novo cenário: mais dificuldades à vista e um aperto maior do que o esperado na Selic. Enquanto isso, os juros futuros e o dólar disparam. Mas como deve ser o novo cenário, de continuidade das altas da Selic e perspectivas ainda mais deterioradas para a economia?

Segundo André Muller, economista da Quest Investimentos, na semana que vem o principal driver para o qual o mercado deve olhar é a decisão de juros do Copom (Comitê de Política Monetária), já que o mercado agora precifica uma elevação de 0,5 ponto percentual. Se o BC tome alguma decisão diferente desta, os investidores ficarão mais pessimistas. “Juros abaixo disso teriam um impacto negativo, porque aumentaria a visão de intervenção política na autoridade monetária”, disse o economista. Para o economista e ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman, o BC enterrou chance de uma alta de 0,25 ponto percentual na próxima semana.

Dólar e Bolsa
No caso do dólar, o banco Société Générale aumentou as perspectivas para a alta da moeda, destacando que ele deve chegar a R$ 3,60 em 8 semanas em meio ao corte da meta de superávit. ‘‘Com a deterioração das contas fiscais e crescimento vacilante, o Brasil está agora à beira de perder seu status de grau de investimento ao longo dos próximos meses”, afirmou o banco. E, conforme apontou Flavio Serrano, economista-sênior do BESI Brasil, em entrevista para a Bloomberg, uma das indicações do BC são os riscos para a inflação no próximo ano, derivadas “provavelmente o lado fiscal ou a taxa de câmbio, que subiu de uma forma muito forte em um curto período de tempo”.

Enquanto o Société Générale vê o dólar a R$ 3,60, o diretor da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, destaca que, ainda que projeções seriam prematuras, embora o cenário prospectivo o sugira acima do patamar de R$ 3,40 ao final do ano com o mercado já precificando o rebaixamento de rating. 

Ou seja, o cenário fiscal mais deteriorado, o aumento das estimativas de despesas obrigatórias em R$ 11,4 bilhões com as medidas de ajuste amenizadas pelo Congresso, leva a um dólar mais alto em meio às perspectivas de um downgrade em breve. “A situação de juros já ficou agravada. Com a recessão instalada, o Copom traria um alívio, mas a política fiscal esmorecendo indica juros mais altos, o que leva a um efeito de estagflação. A Selic deve subir 0,5 ponto percentual e pode subir mais 0,5 ponto depois. E o Congresso também não ajuda, dar um aumento de 78% [para o setor Judiciário] foi antipatriótico, uma vileza”, afirma o economista e presidente do Instituto de Pesquisa Fractal, Celso Grisi. 

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E o cenário pode representar uma “armadilha”, já que a alta de juros para combater a inflação aumenta o custo da dívida brasileira, o que aumento o risco para o Brasil e valoriza o dólar, levando a maior inflação e, assim, a maior elevações de juros. “Eu acho ruim esse ciclo se tornar vicioso, mas em algum momento teremos que romper com isso. O fato é que o aumento de juros acaba produzindo uma dificuldade grande no longo prazo. Estamos pensando num IPCA em quase 10% para rolar a dívida. Através da alta de juros, outros instrumentos foram tirados do governo. Esse é o drama que nós estamos vivendo”.

Com isso, o mercado deve permanecer negativo nos próximos dias em meio a este ciclo vicioso de ajuste fiscal prejudicado fazendo com que o ajuste monetário seja mais pesado, o que aumenta a dificuldade de conseguir pagar a dívida e aumenta a necessidade de fazer o ajuste fiscal. 

Para Celso Grisi, o que aconteceu de fato é que estamos numa situação em que os investidores ficaram abalados em sua confiança. Com a redução da expectativa do superávit ficou claro que o governo não se sente mais capaz de equilibrar as contas públicas. Esperava-se para o 2º uma estabilização com austeridade fiscal mas, agora, o ajuste está mais longe e postergado.

Desta forma, afirma Grisi, a política monetária é a única que sobrou para ancorar as expectativas de inflação. Para o Ibovespa, o cenário é de continuidade de queda; porém, há quem se beneficie deste cenário. “Quem vai ter impacto positivo será o setor do agronegócio e exportadoras, por conta da alta do dólar”, afirma. Enquanto isso, o setor imobiliário ficará definitivamente estagnada, enquanto a escassez de crédito deve aumentar. “Bancos podem lucrar com a taxa de juros e o aumento do spread”.