Quem manda?

“Tesoura cega” de Levy traz novo cenário: Nelson Barbosa é o chefe da economia?

As dificuldades no trato político fazem parte da trajetória de Levy na administração pública e reforçam relacionamentos pouco frutíferos com os grandes players da tomada de decisão no país fora do mercado

SÃO PAULO – O nome do ministro da Fazenda Joaquim Levy não tem mais a mesma força de quando foi anunciado pela presidente Dilma Rousseff como a esperança para arrumar uma casa de pernas para o ar e exposta aos riscos da tempestade que se aproximava. O trabalho intenso das mãos de tesoura começa a se deparar com maior resistência de agentes políticos a sua sede pela resolução dos problemas através da bandeira do ajuste fiscal. Os efeitos colaterais da recuperação do superávit primário não são nada agradáveis e começam a trazer cada vez mais incômodos. De qualquer forma, Levy sabe que, no Congresso pode ser mais fácil conseguir a aprovação de corte de despesas do que a criação de novos impostos. Mas talvez esse clima não possa ser ampliado para o Executivo.

A derrota em discussões enérgicas com o ministro da secretária de Aviação Civil, Eliseu Padilha, sobre a liberação de verbas para atender emendas de parlamentares e o recente resultado do PIB (Produto Interno Bruto) abaixo de expectativas já pessimistas contribuem para abalar uma imagem que já vinha se desgastando. O principal indicador da atividade econômica nacional, medido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apresentou queda de 1,9% no segundo trimestre, em comparação com os três primeiros meses do ano. O dado mais alarmante, no entanto, foi o recuo de 8,1% nos investimentos no mesmo período – o que reforça o pessimismo dos agentes econômicos.

Além dos dados negativos que geram pressão política sobre Levy – mesmo considerando o fato de ilustrarem uma conjuntura mais ampla -, a recente derrota na queda de braço do ministro na disputa pela estratégia a ser usada no Orçamento para 2016 traz um quadro menos favorável para o chefe da Fazenda. Inicialmente, ele defendia um ajuste via corte de custos em vez de aumento de impostos para a recuperação da arrecadação em momentos de maior esfriamento da economia. Apesar disso, aceitou defender a volta da CPMF (Créditos e Direitos de Natureza Financeira) quando o governo começou a prospectar o assunto e perdeu as pequenas chances que tinha de êxito após ação espalhafatosa. O Planalto sinalizou a desistência em um momento em que o ministro ainda tentava defender a proposta. Aquele episódio permitiu uma leitura de que Levy começava a sofrer do mal do isolamento. Em meio às brigas que comprou no afã de defender o ajuste fiscal, o ministro parece ter perdido alguns espaços no tabuleiro político.

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“É inegável que a situação do Levy é bem pior do que quando assumiu a Fazenda”, afirma Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores. “Está bem pior agora. Ficou provado que o plano de choque de credibilidade falhou”. A nomeação de Levy em novembro do ano passado buscava a recuperação da confiança dos agentes econômicos no governo e, de certa forma, trouxe um movimento otimista durante os primeiros meses de 2015. No entanto, logo a euforia foi dando espaço para a percepção de que não seria fácil pôr as coisas em ordem, e que o ministro poderia não ter a força política necessária para tal. Além disso, o agravamento das tensões entre Executivo e Legislativo sacramentaram as esperanças de poucos que aceitavam os riscos. O analista político e professor da Faculdade Senac de Minas Gerais Carlos Magno vai além e reforça que, apesar da qualidade técnica, o ministro conta com pouco trânsito em alguns segmentos da economia, em detrimento à sua elevada posição dentro do mercado financeiro, onde construiu boa reputação nos tempos de Bradesco.

“Joaquim Levy está isolado”, analisa o deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ). No Congresso, a imagem do ministro já está bastante arranhada. Os esforços em negociações para a aprovação do ajuste fiscal naturalmente contribuem para o desgaste do “mãos de tesoura”. As dificuldades no trato político fazem parte da trajetória de Levy na administração pública e reforçam relacionamentos pouco frutíferos com os grandes players da tomada de decisão no país. O histórico do titular da Fazenda depõe contra ele, desde os tempos em que era secretário do Tesouro Nacional do governo Lula. O ex-presidente, inclusive, teria recomendado Levy para o cargo de secretário do estado da Fazenda do Rio de Janeiro para o governador Sérgio Cabral, mas não sem fazer uma ressalva: “Levy é bom para segurar. Mas, na hora de gastar, é um desespero”. Dito e feito. Levy assumiu a secretaria da Fazenda fluminense em 2007, mas deixou o cargo em 2010, em meio a divergências com boa parte dos secretários. Eles queriam elevar os gastos, mas Levy queria barrar essas medidas expansionistas. As pressões políticas só se elevaram e fizeram com que ele tenha optasse por sair. Como dá para perceber, o ministro é difícil “de ser dobrado”.

O analista político da MCM Consultores destaca que o cenário está cada vez mais nebuloso em relação à permanência do titular da Fazenda no cargo, mas não se arriscaria a dizer se, caso o afastamento um dia se confirme, ele seria demitido ou se a decisão partiria da própria presidente. Por enquanto, Dilma depende dele, já que a saída do “mãos de tesoura” aumentaria ainda mais o cenário de incertezas para o Brasil e para o seu governo. Além disso, lembra o analista, é improvável que alguém com perfil parecido dele iria substituí-lo, já que estaria vendo que o ministro não consegue realizar os ajustes necessários. A impressão que se tem é de que, mesmo com boa parte do governo mostrando divergências em relação a Levy, imagina-se que, sem ele, o cenário seria ainda pior, uma vez que poderia aumentar a desconfiança ainda mais. O lema agora parece ser: “ruim com ele, pior sem ele”.

Em Brasília, um dos jargões mais conhecidos por quem acompanha política é que não existem espaços vazios; eles sempre são ocupados e disputados constantemente. Quem teria assumido as lacunas perdidas por Levy? Os mais atentos já vislumbram um ganho ainda maior de força do nome de Nelson Barbosa, ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão. “Ele é mais articulado politicamente, tem visão mais ampla. Joaquim Levy, embora muito mais preparado, tem visão restrita à pasta”, observa Indio da Costa (PSD-RJ). A visão é compartilhada por muitas vozes no parlamento. “Passamos a ter um petista no comando da economia. É só olhar a coletiva de ontem. Joaquim falando de cortes, e Barbosa…”, reforça Maia.

Já o tucano Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) lembra a importância de Barbosa durante a passagem de Guido Mantega pela Fazenda e capacidade de articulação do atual comandante da pasta do Planejamento, arriscando-se a dizer, inclusive, que foi ele quem deu longevidade ao antecessor de Levy. “Ele era mais importante que Mantega. Mantega praticamente não existia”, diz. “Como Barbosa tinha domínio da máquina, é óbvio que ele tem um conhecimento maior da política do que Levy. Ele é do PT, mas bem relacionado com outras áreas”, analisa o deputado. Na visão dele, o atual ministro da Fazenda é uma figura qualificada, mas suas ações não encontrariam eco na presidente e ainda tem que contar com os palpites e pressões geradas pelas declarações cada vez mais frequentes de Lula e Fernando Henrique Cardoso. Nesse sentido, ele ainda ressalta um aspecto a se considerar para o possível triunfo de Barbosa sobre a política econômica, mesmo com posicionamentos e decisões centralizados por Dilma: “Nelson Barbosa entende melhor a presidente. Ele assimila os golpes dela melhor”.

A essa altura, vale destacar que, apesar de aparentemente majoritária, a percepção de que o ministro do Planejamento apresentou significativo crescimento sobre a figura de Joaquim Levy recentemente, ainda não é consenso para o cenário que parece se desenhar no horizonte. Ainda há quem veja o chefe da Fazenda com mais poder mesmo com as recentes derrotas. No entanto, essa leitura começa a ser deixada em segundo plano, sobretudo em situações como a coletiva de imprensa concedida pela dupla para o anúncio do projeto do Orçamento referente a 2016. As caras e bocas e discursos contraditórios reforçam a rota de colisão e uma posição mais confortável para Nelson Barbosa.