Risco político

“Temo que a próxima temporada da série se encerre com a delação de Cunha”, diz Giannetti

Para o economista, o risco político é a principal ameaça a um cenário mais benigno com a economia brasileira: "uma coisa eu garanto, ninguém vai morrer de tédio no Brasil"

SÃO PAULO – O economista Eduardo Giannetti está cauteloso, mas ao mesmo tempo otimista com a economia brasileira como não estava há muito tempo. Em palestra durante o Exame Fórum 2016, realizado em São Paulo nesta sexta-feira (30), ele destacou que há três motivos para acreditar que estamos em um importante momento de inflexão e que o pior já passou. 

São estes os motivos: i) a perspectiva de inflação em desaceleração, assimilando os preços administrados e permitindo uma redução do juro consistente, o que é positivo também para reduzir o custo fiscal; ii) equilíbrio das contas externas, com exportações reagindo: e iii) alta ociosidade interna, tanto de máquinas quanto de mão de obra qualificada.

No primeiro ponto, contudo, é provável que o BC atrase um pouco o corte da Selic, esperando uma garantia de que o ajuste fiscal está encaminhado. “A ansiedade do setor produtivo é compreensível, mas ela tem que ser administrada. Podemos terminar 2017 com juro básico de um dígito.”

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Já com relação ao terceiro ponto, Giannetti destaca que, com o grau de ociosidade produtiva sendo alto, o Brasil pode ter rápida retomada conforme as expectativas mais positivas se consolidarem. “A economia é uma espécie de meteorologia, mas que a previsão do tempo afeta o próprio tempo. Se as pessoas acreditam que vai haver tempestade, a tempestade que não viria, vem. É a história da profecia autorrealizável”. 

Em meio a esses três pontos de otimismo, uma ameaça a esse cenário benigno é o risco político com muitos políticos sendo afetados pela Operação Lava Jato, afirma Giannetti, traçando uma comparação da crise brasileira com séries americanas. De acordo com ele, a última temporada acabou com o afastamento da agora ex-presidente Dilma Rousseff. Ele teme que a “próxima temporada” se encerre com a delação premiada do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha. “Eu temo que a próxima temporada da série se encerre com a delação de Cunha. Uma coisa eu garanto: ninguém vai morrer de tédio no Brasil”. O economista destacou que não há dúvida de que políticos da alta cúpula do governo seriam atingidos, o que minaria o capital político do governo para iniciativas fundamentais previstas para acontecer. 

Parasita e hospedeiro
O economista também traçou um paralelo entre o sistema presidencialista dos últimos anos e a relação entre “parasita” e “hospedeiro”. Giannetti destacou que o PMDB foi o partido que mais se especializou a fazer o jogo do presidencialismo de coalizão, apoiando quem possui mais força para chegar ao poder. Porém, quando quem ele apoia se enfraquece, a legenda começa a ocupar espaços. “Qual é o jogo do parasita? Enquanto o hospedeiro está forte, ele fica parado. Quando o hospedeiro fica fraco, ele começa a colocar as asas para fora. Ele só não pode matar o hospedeiro, senão morre junto. Agora, como se comporta um parasita quando ele se torna hospedeiro? É o que vamos ver nos próximos dois anos.”

Ao falar sobre a ex-presidente Dilma, Gianetti destacou que ela foi uma “aceleradora de problemas”, classificando-a de “fast-forward”. “Os problemas já estavam postos”, afirma ele, mas ela os acelerou. Ele ainda apontou que, “no momento em que ela norteou 39 ministérios a 10 partidos e perdeu a disputa crucial da presidência da Câmara, o presidencialismo de coalizão faliu. O impeachment começou ali.”