Sem dejà vú

Temer corre para acalmar mercado e evitar “dejà vú” na estreia de Goldfajn no Copom

Ministro da Casa Civil falou que Temer vê com bons olhos queda da redução dos juros, o que causou repercussão no mercado; presidente interino se apressou em dizer que não interfere no BC

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SÃO PAULO – No início de junho, Ilan Goldfajn assumiu a presidência do Banco Central com uma pauta ambiciosa e uma grande credibilidade dos mercados. Os economistas destacaram a autonomia que o ex-economista-chefe do Itaú Unibanco teria em sua gestão, num cenário bastante diferente do observado na relação entre o seu antecessor, Alexandre Tombini, com a presidente Dilma Rousseff. No primeiro mandato da petista, foi muito destacado (e criticado pelo mercado) que ela era a verdadeira presidente do BC e teria “forçado” a queda da Selic, o que levou a uma aceleração da inflação posteriormente. 

Em meio ao processo de impeachment de Dilma e a chegada do presidente interino Michel Temer ao poder, o grande destaque positivo ficou para o “dream team” econômico e a sua independência. Mas isso não quer dizer que não haja ruídos entre o campo político do governo do peemedebista e a equipe econômica, algo recorrente entre os governos. 

Um exemplo disso pode ser observado nesta quarta-feira, justamente no dia da primeira decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) com Ilan no comando. O ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou hoje que o presidente em exercício “vê com bons olhos uma redução nos juros”. “São os economistas que estão dizendo que o juro vai cair. Presidente vê com bons olhos, mas palavra final é do BC” ressaltou. De acordo com Padilha, os próprios economistas estão apostando numa queda de juros ainda este ano. “Também isso agrada o presidente e ele vê com bons olhos, mas teremos que respeitar a autonomia do Banco Central”, disse. 

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Por mais que Padilha tenha destacado que a última palavra era do BC, a fala do ministro sobre o sentimento de Temer acerca dos juros tiveram efeito no mercado, fazendo com que as taxas dos principais contratos de juros futuros passassem a ter uma queda mais expressiva no momento da fala. 

Para evitar mais ruídos, Temer se apressou em soltar uma nota afirmando que o “BC tem plena autonomia para definir a taxa de juros”. Por meio de sua assessoria, o presidente em exercício afirmou que “a política monetária tem como prioridade combater a inflação e este é o objetivo principal de seu governo”.

Apesar da fala de Padilha, é praticamente certo que o Copom manterá nesta quarta a Selic em 14,25% ao ano e Ilan deverá estrear como comandante do BC com um discurso firme e enfático em dizer que ainda não há condições para flexibilizar política monetária.

Desde a apresentação do último relatório de inflação, em 28 de junho, Ilan deixou claro que BC quer atingir centro da meta de inflação, de 4,5%, em 2017, o que ele julga “ambicioso e crível”; para isso, as indicações foram de uma postura mais “hawkish”, levando muitos economistas e casas de análise a postergarem a sua projeção para cortes de juros, sendo que já há quem avalie que os cortes só ocorram em 2017. 

Os próximos passos de Ilan Goldfajn serão observados com atenção pelo mercado, que também seguirá atento a sinalizações de interferências políticas. Porém, mesmo se Temer não interferir nas decisões, uma coisa parece certa: ele ficará bastante satisfeito quando o BC cortar os juros.