Tarifas, minerais críticos, Irã: veja os temas e avanços da reunião de Lula e Trump

Em entrevista coletiva após reunião na Casa Branca, presidente menciona tarifas e minerais críticos entre os temas discutidos por mais de três horas e diz que relação entre os dois evolui

Agência O Globo

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático - ASEAN em Kuala Lampur, Malásia | Foto: Ricardo Stuckert / PR
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático - ASEAN em Kuala Lampur, Malásia | Foto: Ricardo Stuckert / PR

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Depois de se reunir ontem na Casa Branca, em Washington, com Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o encontro como produtivo, dizendo que voltava ao Brasil “mais otimista”.

Na pauta, o tema principal foi a negociação comercial em torno das tarifas de importação sobre produtos brasileiros entram nos EUA, mas houve espaço para temas como Irã, combate ao crime financeiro organizado, exploração de minerais críticos e também para momentos bem-humorados.

Lula, que foi recebido com um tapete vermelho, afirmou que a conversa não evitou assuntos complexos, pelo contrário: segundo ele, discutiram “assuntos que pareciam tabus”.

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No entanto, o Pix e a classificação de facções criminosas como organizações terroristas não foram abordados. Na parte comercial, ficou acordado que as equipes dos dois governos vão trabalhar por mais 30 dias para avançar nas negociações das tarifas de importação sobre produtos brasileiros que entram nos Estados Unidos.

— Fiz a reunião, estou feliz. Volto ao Brasil mais otimista. Acho que o presidente Trump também ficou otimista e espero que as coisas comecem a avançar — afirmou Lula, em entrevista coletiva na embaixada do Brasil, em Washington, após a reunião. — Saio daqui com a ideia de que demos um passo importante na consolidação da relação democrática e histórica com os EUA.

Troca de afagos

Trump, por sua vez, disse nas redes sociais que o presidente brasileiro é “muito dinâmico” e classificou a reunião como “muito boa”. Mais tarde, segundo o g1, ele disse a repórteres na Casa Branca que Lula é “um bom homem” e “um cara inteligente”. Lula publicou em suas redes fotos do encontro, que classificou como “muito produtivo”.

Foi a sexta visita de Lula à Casa Branca desde seu primeiro mandato e o terceiro encontro pessoal com Trump. Lula e sua comitiva permaneceram mais de três horas na Casa Branca. A conversa foi a portas fechadas, a pedido do presidente brasileiro. 

Pelas imagens e pelos relatos de ministro do Brasil presentes, foi uma conversa amistosa. Na embaixada, o presidente Lula reiterou diversas vezes a crescente aproximação com o presidente dos Estados Unidos e disse acreditar que Trump de fato parece “gostar” do Brasil. Em referência às imagens, Lula disse que estimulou o americano a sorrir e completou:

— O presidente Trump rindo é melhor que de cara feia.

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Carne no menu

O presidente Lula disse ainda que o almoço foi muito agradável. O menu incluiu filé de carne vermelha, ainda que houvesse opções para vegetarianos. Havia ainda um purê de feijão-preto, minipimentões doces e relish agridoce de rabanete com abacaxi e legumes.

O fato de que o prato principal incluía uma opção de carne bovina é simbólico. AA brasileira JBS, da família Batista, é dona de frigoríficos americanos, e o tarifaço imposto sobre as exportações brasileiras, que incluiu a carne bovina até o fim do ano passado, ajudou a turbinar a inflação da proteína no mercado americano. 

— O almoço estava bom. Deve ter sido carne brasileira. Fiquei curioso para perguntar, mas poderia não ser — contou Lula.

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A entrada foi uma salada de alface-romana com jicama, raiz crocante popular na culinária mexicana, gomos de laranja, abacate e molho cítrico. Bem-humorado, o presidente brasileiro confidenciou que Trump se queixou de haver laranja (outro item de exportação do Brasil para os EUA) no prato:

— Ele reclamou que não gosta de laranja na salada e foi tirando a laranja.

Minerais críticos

Lula disse que o Brasil está aberto a construir parcerias internacionais com diferentes países, sem preferência por nenhum deles, na exploração de minerais críticos. Entre eles estão terras-raras, insumos importantes para a indústria de tecnologia cuja produção hoje é dominada pela China:

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— O Brasil está disposto a construir parcerias onde eles quiserem construir parceria. Não há veto aos Estados Unidos, como também não há veto à China, à França, à Índia ou à Alemanha — ressaltando querer que o Brasil seja “o grande ganhador”. — Não queremos ser meros exportadores de minerais.

Tarifas

Ao falar de tarifas alfandegárias, o presidente Lula disse ter reforçado a vantagem para os EUA nas trocas comerciais com o Brasil.

Ele contou que sua equipe buscou esclarecer que a média de tarifas do Brasil é de 2,7% para os produtos americanos — mas o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, teria atuado como o bad cop (policial mau) da conversa, apontando percentuais maiores. Diante disso, ficou acertado que as equipes dos dois países vão negociar por mais 30 dias para apresentar uma proposta.

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Combate ao crime

Em relação à possibilidade de as facções criminosas brasileiras serem classificadas como organizações terroristas — o governo é contra —, Lula disse que o tema não foi discutido no encontro.

Segundo fontes, a decisão de deixar esses temas de fora da conversa pode ser vista como uma tentativa de evitar constrangimentos e manter os canais abertos de diálogo para impedir adoção de decisões por parte dos americanos não desejadas pelo governo brasileiro.

O entendimento das autoridades brasileiras é que a classificação por parte do Departamento de Estado das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) seria uma violação da soberania nacional e poderia inclusive abrir caminho para uma intervenção armada em território nacional. Lula apostou que, diante de sua boa relação com Trump, o presidente americano não daria anuência para uma decisão como essa.

Foi abordado, no entanto, o combate ao crime organizado. Lula contou ter sugerido a criação de um grupo de trabalho com todas as nações das Américas para organizar o combate ao crime organizado.

O presidente brasileiro e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, relataram ainda que foi abordada no almoço a cooperação dos países na área de combate à lavagem de dinheiro, com troca de informações entre os Fiscos dos dois países e a previsão de operações conjuntas.

Durigan destacou que ações de cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado já têm resultados. Segundo ele, na área aduaneira, a troca de dados entre maio de 2025 e abril de 2026 resultou na apreensão de meia tonelada de armas e uma tonelada de drogas sintéticas provenientes dos EUA.

Pix: silêncio falou mais alto

De acordo com Lula, não houve discussão sobre Pix com Trump. Documento elaborado pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) em abril apontou possíveis barreiras a empresas americanas e citou que haveria um eventual “tratamento preferencial” ao modelo, o que poderia prejudicar companhias estrangeiras do setor financeiro.

— Ele não tocou no assunto do Pix, eu também não toquei. Até porque eu espero que um dia ele venha a fazer um Pix — disse Lula.

Eleição presidencial no Brasil

Sobre eventual intervenção do presidente americano nas eleições brasileiras, dada a sua proximidade da família Bolsonaro, Lula disse acreditar que Trump irá se “comportar como presidente dos Estados Unidos, deixando que os brasileiros decidam”.

E reforçou que ele, como presidente do Brasil, respeita Trump por ele ter sido eleito pelo povo dos Estados Unidos. O presidente disse ainda que os apoios eleitorais no Brasil não entram na pauta de suas conversas com nenhum presidente.

— Ele interferiu nas eleições de 2022 e perdeu, porque eu ganhei — disse. — Eu acho que ele vai se comportar como presidente dos EUA, deixando o povo brasileiro decidir o seu destino. A nossa relação é muito boa, algo que muita gente duvidou que poderia acontecer. Sabe aquela coisa de amor à primeira vista?

Lula disse que respeita o fato de Trump ter sido eleito pelo povo americano e espera o mesmo comportamento do americano. E afirmou que a relação entre os dois vem “evoluindo”.

— Eu penso que a nossa relação é sincera — disse Trump sobre as interações que teve com o americano desde o primeiro encontro, na sede da ONU, em Nova York, no ano passado. — Tenho razões para acreditar que Trump gosta do Brasil.

Crítica à guerra no Irã

Sobre a guerra do Irã, Lula manteve seu tom crítico e disse acreditar no diálogo. O presidente do Brasil contou ter entregue uma cópia do acordo assinado pelo Irã em 2010, articulado por Brasil e Turquia à época, como uma demonstração ao presidente dos Estados Unidos que há possibilidade de resoluções com diálogo. Segundo Lula, Trump prometeu ler hoje à noite. Lula disse ainda que os custos das guerras são altos e que a diplomacia é o caminho.

— Nós não precisamos de guerra, o mundo precisa de paz — disse.

Foi bom para Lula? Analistas respondem

Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), especialista em comércio exterior, avalia que o fato de não terem sido tratados assuntos espinhosos, como Venezuela e narcotráfico, foi fundamental:

— Foi o que chamamos em relações internacionais de degelo diplomático. As relações estavam tensas. E pelo que foi transmitido, houve esse degelo, ambos saíram sorridentes, o presidente Donald Trump disse que o Lula é dinâmico e anunciou outros encontros. Mostrou que não há uma relação tensa, como muitos estavam apostando. Um encontro cordial sempre é caminho para se discutir novas questões, acordos.

O embaixador José Alfredo Graça Lima, vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), considerou o resultado do encontro “surpreendentemente animador”. Ele chamou a atenção para o que não foi dito, lembrando o constrangimento nas visitas de alguns chefes de Estado, como Volodymyr Zelensky, da Ucrânia:

— Temos que nos guiar pelo que foi dito e pelo que não foi dito. Isso é importante, poderia ter acontecido, não falo só de Zelensky, uma situação que assustou muitos líderes, outros casos com líderes europeus, em que o clima não foi cordial. O que foi dito foi o melhor possível.

Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio do escritório Barral Parente Pinheiro Advogados, formar um grupo de trabalho para discutir o processo da Seção 301 foi um avanço. O Itamaraty já estava negociando, mas agora, após a reunião, o Brasil vai poder acompanhar mais de perto. Isso garante, diz Barral, que o Escritório de Comércio da Casa Branca não adotará nenhuma medida sem diálogo:

— O Brasil na verdade nunca negociou até agora. A reunião com Trump abriu um canal de diálogo.

(Alexandre Bicca, especial para O GLOBO e Valor)