Discurso

“Se pensam que me tiraram do jogo, vão quebrar a cara”, diz Lula após condenação pela Lava Jato

A companheiros de partido, colegas de outras legendas, representantes de movimentos sociais e militantes, ex-presidente tenta dar demonstração de força e se lança pré-candidato ao cargo que ocupou por oito anos

Aprenda a investir na bolsa

SÃO PAULO – “Quem acha que é o fim do Lula vai quebrar a cara”. Foi com tom duro e agressivo contra seus adversários que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva proferiu seu primeiro discurso após a sentença que o condenou na primeira instância a nove anos e meio de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A companheiros de partido, colegas de outras legendas, representantes de movimentos sociais e militantes, o líder petista fez um discurso político, lançando-se como pré-candidato ao cargo que ocupou por oito anos.

“Se alguém pensa que, com essa sentença, me tiraram do jogo, podem saber que eu estou no jogo”, disse Lula sob aplausos dos presentes. Agora, quero dizer ao meu partido que, até agora não tinha reivindicado, mas a partir de agora eu vou reivindicar do PT o direito de me colocar como postulante à candidatura à presidência da República em 2018″, complementou sendo respondido pelo público com os gritos de “Brasil, urgente, Lula presidente”. O petista ainda brincou com a presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, que ela terá uma dor de cabeça, com um pré-candidato com problemas “jurídicos nas costas”, que terá entrar em briga jurídica em sua própria defesa, política pelo apoio na legenda e nas ruas por votos.

“Se eles acabaram de destruir tudo que foi construído de direito dos trabalhadores desde 1943; se eles estão tentando destruir as conquistas dos trabalhadores na área da Previdência Social; se eles estão tentando destruir a indústria nacional, e estão tentando destruir a coisa mais simples que criamos, que é o componente nacional, para que a gente possa desenvolver uma indústria nacional; se eles estão tentando destruir a Petrobras; se eles estão tentando destruir as empresas de engenharia, porque não sabem o que fazer, eu queria dizer: senhores da casa grande, permitam que alguém da senzala faça o que vocês não têm competência de fazer nesse país”, provocou Lula, dizendo que o país não precisa ser governado pela elite, mas por quem conheça a alma de seu povo.

Aprenda a investir na bolsa

“Quando esse país não tiver mais jeito, quando os economistas de direita não tiverem mais solução, por favor, permita que a gente coloque o pobre no orçamento outra vez, o pobre no mundo do trabalho, o pobre recebendo salário, crédito, que a gente faz esse país voltar a crescer, faz o povo voltar a sorrir e faz o povo voltar a ter o otimismo que tinha durante todo o tempo que governamos esse país”, afirmou Lula.

Além da repetição da pré-candidatura, o discurso do ex-presidente também foi marcado por críticas aos procuradores e policiais federais membros da força-tarefa que compunha a operação Lava Jato, os meios de comunicação e o juiz federal Sérgio Moro, que, na sua avaliação, o condenou por decisão política e sem provas. O petista disse não ter se surpreendido com a sentença e lembrou de um artigo que havia publicado no jornal Folha de S. Paulo, intitulado “Por que querem me condenar“. Mesmo com a decisão desfavorável em primeira instância, Lula se disse aliviado “porque conheço o tamanho da mentira”.

Em sua fala, o ex-presidente criticou o modus operandi da força-tarefa da Lava Jato, apontando a exposição midiática e as delações premiadas obtidas com prisões preventivas. Segundo ele, a evolução de todo o processo e o comportamento dos procuradores e do juiz federal Sérgio Moro os teria condenado a condená-lo. “Eu prestei vários depoimentos, e era visível que o que menos importava para as pessoas que faziam pergunta era o que você falava. Eles já estavam com o processo pronto. Eles já estavam com a concepção da condenação pronta”, disse.

Na avaliação do líder petista, a situação que foi construída pelo procuradores e a imprensa impedia qualquer possibilidade de absolvição, em uma tentativa de tirá-lo da cena política. Ele, no entanto, salientou sua resistência ao se comparar a nomes do PSDB que, na avaliação de Lula, “não aguentaram uma capa da [revista] Veja”. De acordo com cálculos do petista, ele teria aguentado a mais de 20 horas de Jornal Nacional e mais de 50 capas de revista.

“Eu acreditava que o Moro iria recusar [a denúncia apresentada pelos procuradores]. Eu tinha muito mais garantia de que ele iria recusar a denúncia do que me absolver quando o processo foi aceito. Depois que o processo foi aceito, eu falei: ‘Olha, há um jogo a ser jogado nesse país. Não é possível que aqueles que prepararam a mentira do golpe contra Dilma, aqueles que prepararam o golpe da mentira do golpe contra as forças democráticas que ganharam as eleições em 2014, iriam ficar com os braços partidos esperando essa gente voltar ao poder em 2018’. Se o Lula pudesse ser candidato, o golpe não fechava. Porque qual é a razão de derrubar um governo e um partido político e, dois anos depois, esse governo e esse partido político juntarem as mesmas forças e ganharem as eleições?”, argumentou o ex-presidente.

O líder petista defendeu o fortalecimento de instituições como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, mas chamou atenção para a importância de um espírito de responsabilidade por parte dos membros dessas corporações. Em sua fala, ele procurou diferenciar os integrantes da força-tarefa da Lava Jato, aos quais promoveu duros ataques, dos demais servidores. “Na medida em que nenhuma verdade era levada em conta, na medida em que o power point permeou todo o comportamento deles (…), eles não precisavam de mais nada. Era a teoria do domínio do fato utilizada de forma moderna com a palavra ‘contexto'”, criticou.

PUBLICIDADE

“Não é possível a gente ter um estado democrático de direito se a gente não acreditar na Justiça, e, por essa crença que tenho, é que a Justiça não pode mentir. Ela não pode tomar decisões políticas. A única prova que existe nesse processo é a prova da minha inocência”, declarou o ex-presidente. “Eu ficaria mais feliz se fosse condenado com base em uma prova, eles me desmascararem, o que me deixa indignado, mas sem perder a ternura, é você perceber que está sendo vítima de um grupo de pessoas que contaram a primeira mentira e vão passar a vida inteira mentindo para poder justificar a primeira mentira que contaram de que o Lula era dono de um tríplex”, complementou.

Bom humor

O início do discurso do líder petista foi marcado por piadas e tiradas bem humoradas. Na primeira, ele provocou o juiz federal Sérgio Moro: “O Moro tem para comigo um otimismo que nem eu tenho, porque, pela peça de condenação de 19 anos sem poder exercer nenhum cargo, significa que ele está permitindo que eu possa ser candidato em 2036. Isso significa que eu vou viver e vocês vão ter que me suportar muito”.

Outro momento de descontração foi quando Lula se referiu ao duelo entre Corinthians e Palmeiras, realizado na noite da véspera, em São Paulo. “Ontem eu não quis falar com a imprensa porque tinha um assunto muito importante para resolver, que era ver o Cortinthians derrotar o Palmeiras dentro do campo do Palmeiras. Então, eu não tive nem tempo de analisar a condenação, nem de conversar com o advogado… Primeiro vamos ver o Corinthians resolver o problema com o Palmeiras, depois a gente discute”, brincou.

O ex-presidente também aproveitou seu discurso para alfinetar a Rede Globo de televisão: “Quero agradecer a generosidade da imprensa comigo, que é muito importante, sobretudo o pessoal do Jornal Nacional, que me tratam com tanta deferência”.

Veja os destaques de outros discursos no evento:

Gleisi Hoffmann, senadora e presidente nacional do PT
“A sentença do juiz Sérgio Moro carece de provas. No nosso entendimento, ela é absolutamente política e infelizmente contra o maior popular que tivemos na história. Coincidentemente, ela acontece um dia após a CLT ser rasgada no Senado da República”, afirmou mais cedo a presidente nacional do partido e senadora pelo partido, do Paraná.

Vagner Freitas, presidente da CUT
“Eleição só é representativa se Lula for candidato e tiver condição de concorrer  e é uma farsa, é uma fraude, um processo onde se impede a participação do presidente Lula”, afirmou o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores) em nome dos movimentos sociais presentes no evento e partidos com os quais foi firmado um acordo de coordenação de atos de resistência. Segundo ele, serão feitos grandes atos por todo o país, sendo o primeiro em todas as cidades do Brasil, na próxima quinta-feira (20).

PUBLICIDADE

Cristiano Zanin, advogado de Lula
“Reiteramos nossa indignação com uma sentença condenatória não só sem prova de culpa, mas, gostaria de enfatizar, desprezando a prova da inocência”, afirmou o advogado de Lula. “A sentença despreza o depoimento de 73 testemunhas, que foram ouvidas ao longo de 24 audiências, despreza provas documentais e dá força, validade jurídica, a papéis que não deveriam ter, e, sobretudo, ao depoimento de um delator informal, cujo depoimento mereceu 29 parágrafos na sentença, ao passo que a prova da inocência que nos apresentamos mereceu cinco singelos parágrafos de 962 parágrafos que compõem a sentença. Isso é ilustrativo de que a sentença é absolutamente ilegítima, porque despreza as provas apresentadas, a lei, a Constituição, afastou a presunção de inocência, sem que houvesse nenhum elemento apto juridicamente para essa finalidade”, criticou. O defensor do petista diz acreditar que a decisão em primeira instância será reformada.

SENTENÇA

O ex-presidente foi condenado a nove anos e meio de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva no caso envolvendo um apartamento tríplex, no Guarujá (SP). Na sentença, o juiz federal Sérgio Moro disse que o presidente adotou práticas como “intimidação do ora julgador, e de intimidação de outros agentes da lei”, assim como de membros da imprensa, o que, juntamente com “episódios de orientação a terceiro para destruição de provas” poderia ter amparado decisão de prisão cautelar. Mas o magistrado escreve que decidiu pelo aguardo do julgamento, visto que a aplicação de tal mecanismo “não deixa de envolver certos traumas”.

Caso não haja condenação até agosto do ano que vem pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, ao qual cabe a análise de recursos da defesa, Lula ainda poderá concorrer nas eleições, visto que não estará enquadrado na chamada Lei da Ficha Limpa. Os advogados do ex-presidente, no entanto, acreditam que podem reverter a decisão que classificaram como fruto de um processo “politicamente motivado” que “envergonhou o Brasil”. Na avaliação da defesa, “nenhuma evidência crível de culpa foi produzida, enquanto provas esmagadoras de sua inocência são descaradamente ignoradas”. Para eles, esse julgamento “ataca o Estado de Direito do Brasil, a democracia e os direitos humanos básicos de Lula”, sendo uma “grande preocupação para o povo brasileiro e a comunidade internacional”.