Fala de Moro em NY

“Se Moraes for escolhido por Temer, boa sorte para ele”, diz Moro em NY; veja mais destaques

Em palestra, o juiz federal afirmou "não ter opinião" sobre a escolha do ministro do STF e ainda rebateu alegações de que faria perseguição política

SÃO PAULO – O juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba Sérgio Moro falou nesta tarde (6) em evento realizado nesta terça-feira (6) em Nova York, na Columbia University. Ele discutiu os efeitos da Operação Lava Jato no quadro institucional brasileiro. O InfoMoney fez a cobertura ao vivo do evento. 

O evento começou com alguns minutos de atraso, após alguns manifestantes protestarem contra a presença de Moro no local, criticando uma suposta parcialidade do juiz e gritando que o impeachment de Dilma Rousseff tinha sido um golpe, Ao menos três manifestantes foram expulsos do local.

Em sua fala, Moro destacou que a lei brasileira não costumava funcionar muito em crimes de colarinho branco. Além disso, só havia prisão após haver julgamento em última instância, o que poderia gerar distorções ao sistema e, em muitos casos, nunca se via uma decisão final quando o crime era cometido por poderosos, mesmo em casos graves. Assim, muitos nunca iam para a prisão apesar dos crimes. “Isto vem mudando”, afirmou.

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O juiz também destacou que há privilégios de altos políticos e autoridades, chamado foro privilegiado, com o STF tendo que julgar esses casos. “Em uma investigação criminal, com evidências, o juiz tem que mandar os casos para o STF, mas o Supremo tem vários casos a julgar, muito além da imaginação que se pode ter nos EUA. Isso faz com que não seja julgamento em tempo razoável como a opinião pública quer”, afirma. 

Contudo, as coisas talvez estejam começando a mudar. Em 2012, com o caso do mensalão e o STF condenando vários políticos incluindo o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu. “Dois anos depois, veio a Lava Jato, que não é o caso único, mas é o central sobre a investigação sobre os crimes cometidos dentro da Petrobras”, afirma Moro.

Segundo ele ressaltou, os custos da corrupção são enormes, afetando os orçamentos e podendo afetar seriamente a gestão de recursos,”Alguns maus investimentos feitos pela Petrobras podem ser explicados por isso, ao contrário de serem feitas melhores escolhas do ponto de visto econômico. Além disso, se o mercado não é limpo e transparente, não temos confiança e nem vamos por o dinheiro em certos investimentos”, destacou. 

“Nós estamos diante de uma grande oportunidade de transformação e não há desafio que não possa ser tratado numa democracia”, afirmou ele, apontando que “a luta contra a corrupção pode atrair investimentos.” 

Moro também destacou a importância da independência do judiciário e destacou que os juízes não podem ser punidos por conta de sua interpretação da lei. O juiz também lamentou a morte do ministro do STF e relator da Lava Jato do Supremo Teori Zavascki, pois, além da tragédia humana, ele era um juiz muito hábil. Porém, ele também saudou a substituição da relatoria pelo juiz Luiz Edson Fachin na última semana, destacando que é um “bom jurista”. 

“É preciso ter em mente, que a corrupção é produto de fraquezas institucionais e culturais”, apontou Moro, destacando ainda que anos de fraca aplicação da lei tem criado um ambiente livre para lavagem de dinheiro. Contudo, o Brasil está avançando para superar essas questões. 

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Em sua fala, Moro defendeu celeridade nas investigações da Lava Jato para que sejam evitadas as práticas de “obstrução” da Justiça, como costuma ocorrer quando há nomes de políticos e empresários importantes envolvidos. 

Questões
Ele afirmou que a corrupção às vezes se assemelha a uma “doença tropical”, mas destacou que, no caso do Brasil, felizmente o combate aos desvios de políticos e empresários está mostrando à sociedade que é possível superar o problema.

O juiz também considerou infundadas as críticas de que a Lava Jato tem prejudicado a economia brasileira por envolver grandes empresas que geram investimentos e empregos. Ele disse que, se os investimentos foram planejados com essa noção de que não há corrupção, os recursos provenientes dos lucros das empresas vão ser dirigidos “para combater a miséria” e não para o pagamento de propinas.

Ao ser questionado sobre o que achava do nome de Alexandre de Moraes, atual ministro da Justiça, que está sendo apontado como o nome forte para o STF e que deve ser anunciado hoje por Michel Temer, Moro disse que não viu as notícias de hoje sobre o assunto. Contudo, disse que, uma vez que há uma vacância no cargo, o presidente tem que fazer sua escolha. “O presidente tem que fazer a sua escolha. Eu não faria uma campanha para alguém no STF e não sei quem será escolhido nem como. Se ele escolher o ministro da Justiça, boa sorte para o ministro da Justiça”, afirmou, destacando não ter opinião sobre o assunto. 

Além disso,  questionado se a morte de Marisa Letícia teria impacto sobre o julgamento de Lula, o juiz apontou que seria impróprio falar sobre o tema. 

Moro ainda tratou sobre alguns rumores de que o seu pai, já falecido, foi filiado ao PSDB. O juiz negou e afirmou que as pessoas inventam histórias que se difundem pela internet, algo que ele classificou como triste. “As pessoas têm que ter cuidado e checar as informações”, afirmou. 

Ele comentou, mais uma vez, sobre o evento em que apareceu com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), alvo de inquérito na Lava Jato. “Ele estava do meu lado e conversou comigo. O que posso fazer (risos)? Posso garantir que não falamos sobre o assunto [Lava Jato]. E ele não está sob minha jurisdição”, afirmou Moro. 

Um dos questionadores durante a apresentação perguntou sobre uma possível teoria de que a Lava Jato foi uma iniciativa para “vender o pré-sal” aos estrangeiros, mas Moro não respondeu a questão. 

Além disso, ao ser indagado por uma participante sobre os constantes vazamentos da Lava Jato, Moro disse que “é muito difícil” saber a origem da informação quando ela sai do controle da investigação. “É muito difícil saber quem vazou para a imprensa”, disse.

O evento

O evento “Institution-building, Governance and Compliance in Brazil: Politics, Policy, and Business” será realizado pela UM BRASIL (plataforma de conteúdo parceira do InfoMoney) em conjunto com as Universidades Columbia e News School das 12h30 às 15h15 no dia 6, e das 17h às 20h no dia 7 – ambos horário de Brasília. Nomes como Paulo Roberto Galvão (procurador do MPF), Otaviano Canuto (diretor do Banco Mundial), Alberto Ramos (economista do Goldman Sachs) e Lisa Schineller (diretora da agência de rating Standard & Poor’s) também estão confirmados. 

Além de debater sobre o que mudou em termos de práticas políticas e de negócios no País, os participantes falarão sobre a abertura de espaços para melhorias institucionais, possíveis soluções para a crise política, bem como a reação dos investidores nacionais e estrangeiros.  

Para conferir a grade completa do evento, clique aqui.

 

(Com Agência Brasil)