Análise

Se for preso, Lula dispara ou mergulha nas pesquisas eleitorais?

Há quem acredite que ele poderá sofrer um significativo abalo nas pesquisas de intenção de voto, que hoje lidera com folga. Por outro lado, existe a possibilidade de a narrativa da perseguição político encontrar respaldo em parcela do eleitorado

SÃO PAULO – A recusa de pedido de habeas corpus apresentado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva junto ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) reduz os recursos disponíveis aos advogados do petista para evitar sua possível prisão. Com a aproximação da conclusão do processo no TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), Lula pode ter que começar a cumprir a pena de 12 anos e 1 mês de prisão a que foi submetido por decisão unânime dos membros da oitava turma do tribunal. As expectativas são de que os magistrados concluam o julgamento dos embargos de declaração ainda em março ou no mês seguinte.

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Mas, do ponto de vista eleitoral, qual seria o efeito de uma possível prisão de Lula? Há quem acredite que ele poderá sofrer um significativo abalo nas pesquisas de intenção de voto, que hoje lidera com folga. Por outro lado, existe a possibilidade de a narrativa da perseguição político encontrar respaldo em parcela do eleitorado, o que poderia ajudar o ex-presidente.

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Mesmo que Lula esteja cada vez mais distante de ter o direito de disputar a sucessão de Michel Temer no Palácio do Planalto, analistas concordam que ele terá papel relevante no processo eleitoral, independentemente da candidatura. Monitorar as possíveis respostas a novos episódios envolvendo o líder petista, portanto, é preciso.

Veja duas avaliações para as consequências eleitorais de uma prisão:

1. LULA PODE CRESCER

Com base no histórico do ex-presidente em episódios teoricamente adversos, é possível que a reação em intenções de voto seja positiva. Essa foi uma hipótese abordada por Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, em entrevista concedida ao InfoMoney em fevereiro. “Durante o auge do noticiário sobre o ‘mensalão’, Lula perdeu prestígio e depois acabou recuperando. Mais recentemente, na condução coercitiva e no depoimento, que foram amplamente divulgados, ele ganhou popularidade. Essa resistência que Lula apresenta perante a opinião pública, baseada na lembrança que as pessoas têm de seu governo, principalmente os menos favorecidos, me faz crer que, com a eventual prisão ou mesmo mais pessoas tomando conhecimento da condenação, ele tem tendência a ser beneficiado. Mas isso com base no que já aconteceu. É claro que agora há um dado concreto, que é a condenação”, afirmou na ocasião.

Ele lembra, ainda, que a queda na confiança dos brasileiros na Justiça pode ajudar o líder petista na construção do discurso de perseguido político. “No ano passado, investigamos alguns aspectos da imagem do Judiciário, e, assim como praticamente todas as instituições que investigamos, ele também está sendo mal avaliado, vem piorando sua imagem. Há uma taxa próxima de 90%, quase a totalidade da população, que percebe que o Judiciário beneficia mais os ricos e prejudica os pobres. Diante dessa crise que vivemos de negação das instituições, o Judiciário também está incluído”, observou. De qualquer forma, o especialista pondera que o momento ainda é de hipóteses, sujeitas a testes pelas próprias pesquisas no futuro, caso o desfecho da prisão se confirme.

2. LULA TENDE A CAIR

Por mais que o líder petista tenha mostrado resiliência em outros momentos, a eventual prisão configura um novo cenário e pode afetar negativamente seu potencial eleitoral. Essa é a avaliação do analista político Carlos Eduardo Borenstein, da consultoria Arko Advice. “É grande a possibilidade de a prisão abalar muito seu capital político. É outro cenário. As imagens, toda a repercussão, isso tudo vai gerar um abalo. Até pela dimensão que a Lava Jato tomou e o combate à corrupção”, observou. Para ele, mesmo que uma parcela significativa do eleitorado se mantenha ao lado de Lula, os impactos tendem a ser grandes. “A partir de uma eventual prisão, o eleitor pode enxergar sua imagem um pouco diferente do que se tem hoje”, complementou.

O especialista, contudo, pondera que, mesmo acreditando em um cenário negativo com uma possível prisão, Lula continuaria sendo cabo eleitoral importante ao PT e à esqurda. Ele acredita que, para maximizar os efeitos políticos, o partido vem tentando protelar ao máximo o dia em que o ex-presidente pode ser levado a cumprir a pena de 12 anos e 1 mês de prisão. Segundo Borenstein, tudo também dependerá muito de qual será o discurso construído pelo petista e sua eficácia em atingir o eleitorado. “É preciso ver se Lula não fará nenhum movimento político para tentar capitalizar o episódio da prisão, no sentido de tentar se vender como vítima das elites. De qualquer forma, creio que as imagens da prisão envolvendo o ex-presidente da República podem afetar seu capital político, embora uma parcela do eleitorado deva seguir com ele”, concluiu.

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