Eleições 2018

Se eleito, Bolsonaro precisará de habilidade para transformar apoio setorial em base coesa, diz analista

Para Paulo Gama, da XP Investimentos, haveria boa vontade inicial do parlamento com o recém-eleito, mas caminho para aprovação de agenda econômica ainda é longo e passa pelo próprio PSL

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SÃO PAULO – Se o favoritismo de Jair Bolsonaro (PSL) na corrida presidencial for confirmado daqui a 18 dias, uma série de novos desafios se iniciam no campo da gestão das atividades políticas. Embora tenha, de modo surpreendente, conseguido construir a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, com 52 representantes eleitos por seu partido, o militar reformado terá de lidar com um parlamento ainda mais fragmentado e tentar cumprir a promessa de renovar o modo de operação da política no País. Apesar do voto de confiança dado pelo mercado, a aprovação de uma agenda econômica ainda tem um longo caminho pela frente.

Pelas declarações dadas até aqui, as apostas são de uma investida na gestão da governabilidade a partir das bancadas temáticas, em detrimento às partidárias, sempre tratadas como extremamente importantes na elaboração de uma agenda e na aprovação de medidas do interesse do presidente em exercício. O êxito da ousada iniciativa, porém, não é nada garantido. É o que aponta Paulo Gama, analista político da XP Investimentos. Nesta quarta-feira (10), ele esteve no evento “Perspectivas do mercado brasileiro frente aos cenários presidenciais do segundo turno”, organizado pelo canal UM BRASIL, em parceria com o InfoMoney e a Fecomercio.

“Normalmente, os partidos políticos sempre têm papel importante. Agora, os sinais que Bolsonaro dá até agora é de aproximação, mas via agendas setoriais (evangélicos, ruralistas). O que parece que dá liga são muito mais questões comportamentais, de costumes, do que econômicas. É importante observar como ele transforma isso em aproximações que lhe permitam conduzir uma agenda mais robusta”, observou o especialista em sua exposição.

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Conforme pontua Gama, normalmente há uma boa vontade inicial do parlamento com um presidente recém-chegado. A coordenação entre Executivo e Legislativo é uma tendência durante o início de mandatos. Por outro lado, no caso de Bolsonaro, será necessário observar quão diferente pode ser a formação de governo e base legislativa e como isso pode influenciar na acomodação de interesses e expectativas em condições de governabilidade.

“Haveria uma boa vontade inicial do Congresso em relação a Bolsonaro. Restaria a ele ter a habilidade para transformar apoio setorial em uma base mais coesa”, apontou o analista político da XP. Antes disso, disse, o militar reformado teria que escapar de cascas de banana, como a eleição para a mesa diretora da Câmara dos Deputados e as divergências entre as alas política e econômica de sua gestão. No primeiro caso, haveria a possibilidade de uma rota de colisão entre o “centrão”, que pretendia eleger Rodrigo Maia (DEM-RJ) para mais um mandato como presidente da casa, e o PSL, que quer ter seu representante. No segundo caso, diferenças entre Bolsonaro e seu guru econômico, Paulo Guedes, já ficaram claras em alguns episódios da campanha.

Como se já não fossem desafios suficientes, Gama vislumbra outro obstáculo dentro do próprio partido de Bolsonaro. Segundo levantamento feito pela equipe de análise política da XP Investimentos, dos 52 nomes eleitos pela sigla para a Câmara, apenas 6 trataram a agenda econômica como prioritária em suas campanhas, enquanto 14 focaram em segurança e 8 no combate à corrupção.

“Ninguém vai fazer campanha falando em maldades, mas a própria bancada do PSL e do centrão não se elegeram com a bandeira do ajuste e da responsabilidade fiscal. Pelo contrário, parte deles é corporativista. Como esse apoio circunstancial dialoga com a necessidade de se aprovar medidas que não receberão aplausos no Facebook ou no Whatsapp?”, questionou o especialista. Caso Bolsonaro seja eleito, só o tempo será capaz de responder.

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