Projeções

Se Dilma for reeleita, dólar pode ir a R$ 2,80 e Selic para 12,5%, diz consultoria

MCM Consultores traçou dois cenários para eleições e mostra a diferença que será para o País caso a situação ou a oposição vença a disputa eleitoral

SÃO PAULO – Só se fala em eleições. Mesmo na Bolsa, analistas já destacaram que o momento das ações é de “perda de fundamentos”, enquanto todos só estão de olho no noticiário político, tentando fazer suas projeções. Mais recentemente foi a MCM Consultores Associados quem realizou suas projeções, e a diferença entre vitória da situação e da oposição pode gerar um cenário bem diferente para o País.

A consultoria não destaca o nome de vencedor, basicamente existem dois cenários: vitória da Dilma Rousseff ou vitória de qualquer um da oposição. Antes de traçar cada um, os especialistas destacam que, não importa o que ocorra, 2015 será um ano de ajustes, doméstico e internacional, marcado por pouco crescimento e inflação ainda pressionada. A diferença entre cada cenário é para 2016.

Entre os elementos que compõem o atual momento estão um inevitável ajuste de preços administrados no âmbito doméstico, com ênfase no choque de custo vindo da energia. Entre outros pontos que vale destacar é a possibilidade de revisão do rating do Brasil, além das pressões por conta da fragilidade da economia europeia e do inevitável aumento dos juros nos EUA.

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Cenário 1: vitória da situação
Em resumo, neste caso o governo será reeleito e dá continuidade à política econômica atual, mesmo que com algumas mudanças. “Contemplamos, nesse cenário, um esforço de reconstrução de credibilidade que, ao fim e ao cabo, mostra-se insuficiente para engendrar uma clara inflexão da deterioração da confiança dos empresários”, destaca a MCM.

Com a vitória, o governo tentará melhorar o gerenciamento das contas públicas. Impostos sobre os quais recaíram mais pesadamente as isenções dos últimos anos, como IPIs, são gradualmente elevados. Além disso, ocorre uma restrição do crescimento real do gasto público, que cai da média recente de 6% para algo mais próximo a 3,3%. Com isso, o superávit primário fecha o ano em 1,5% do PIB. “A política monetária inicia 2015 sem alterações, com Selic a 11%, aproveitando a janela de oportunidade de inflação um pouco mais moderada”, destacam os especialistas.

Porém, as mudanças não serão suficientes e os mercados começam a ficar impacientes. “Consolida-se a percepção de que a arrumação fiscal não é sinônimo de mudança fundamental”, afirma o relatório.

Já no primeiro trimestre de 2015, a noção de que pouco efetivamente mudou faz com que, gradualmente, os prêmios de risco comecem a se elevar, o que coincide com a mudança de comunicação do Fed, sinalizando o aperto da política monetária nos EUA. Esses dois fatores, em conjunto, interagem e causam forte depreciação da taxa de câmbio, com o Real galgando rapidamente patamares próximos a R$ 2,60, fechando o ano entre R$ 2,70 e R$ 2,90.

Diante disso, a depreciação cambial de aproximadamente 15% adiciona 80 pontos-base na inflação anual, deixando o resultado acima do teto da meta. Isso leva a uma reação do Banco Central, que eleva a Selic, em três reuniões, para 12,50%, mas não irá conseguir segurar a inflação, destaca a MCM.

Com crescimento fraco, inflação no teto da meta por conta da depreciação cambial, juros em alta e saída de capitais, “não seria de se estranhar se algumas das agências de risco derrubassem o rating do Brasil ainda em 2015, adicionando lenha à fogueira cambial e tornando difícil o não estouro da meta”, completam os especialistas.

Conclusão da MCM: “De modo geral, a manutenção do espírito atual da política econômica, marcada por viés mais intervencionista e flexibilização do tripé macroeconômico seguido na era FHC/LULA, significa crescimento potencial menor, na casa dos 2% e inflação estacionada nas vizinhanças do teto da meta. Em que pese o desempenho econômico frágil, não vislumbramos radicalização da política econômica, ou seja, uma migração em direção a modelos ultra-heterodoxos (como na Argentina e Venezuela). Portanto, ainda que com uma possível redução do rating, o cenário I não contempla grave crise econômico-institucional”.

Cenário 2: vitória da oposição
Em resumo, neste cenário a oposição sai vencedora das eleições e muda de forma contundente o desenho das políticas macro e micro econômicas. “Os nomes do novo comando da equipe econômica, bem como o de seus auxiliares no segundo escalão, agradam os mercados e são capazes de já de início encetar uma trajetória de recuperação da confiança”, destacam os especialistas.

Logo no início, o Banco Central eleva a taxa de juros de 11% para 12,5%, com ideia de sinalizar rapidamente que o objetivo da política monetária é alcançar a meta de inflação de 4,5% já no final do segundo ano de mandato ou, no mais tardar, na metade do terceiro. “Simultaneamente, a equipe econômica apresenta plano de ajuste fiscal estrutural, visando tornar a política fiscal de longo prazo mais sustentável, imune e transparente para a sociedade”, projeta o relatório.

Com essas mudanças e com um controle rígido de gastos, a inflação deve começar a mostrar uma convergência para a meta. Nesse cenário, o superávit primário para o primeiro ano se eleva para 1,9% e, nos anos seguintes, para próximo de de 2,5% a 3,0%. Enquanto isso, a taxa de juro poderá ser reduzida já no final do próximo ano.

No caso do câmbio, a combinação de juros reais mais elevados e fortes ganhos de credibilidade devem levar a uma pressão por apreciação muito forte da taxa de câmbio no início do mandato. Diante disso, o dólar deve se aproximar de R$ 2,00, mas não deve se manter por muito tempo. Entre os fatores que devem pressionar o câmbio estão a alta do juro nos EUA e desmontagem das operações nos mercados futuros visando dar sustentação ao Real. A projeção da MCM é de que ao final de 2015 o dólar volte para R$ 2,20.

“Em vista dessa apreciação (nosso cenário atual contempla câmbio a R$/US$ 2,40 no fim de 2014), da ancoragem das expectativas e do ajuste mais tempestivo da política monetária, a inflação fecha o ano de 2015 um pouco abaixo de 6% e, a partir daí, converge, passada a pressão fortemente altista dos administrados, para algo entre 4,5% e 5,0% em 2016″, destaca o relatório.

Já o efeito deste cenário nas agências de risco é que, apesar das condições fiscais apresentarem melhora modesta no decorrer de 2015, a situação fiscal de médio e longo prazo é mais sólida. Em geral, o rating do Brasil é preservado, com chances de melhora ao longo dos anos seguintes.

Conclusão da MCM:A desmontagem das ineficiências e intervenções microeconômicas, ainda que de modo gradual, e a volta do tripé macroeconômico que marcou os anos FHC/LULA, se traduzem num PIB potencial mais elevado – conjecturamos um crescimento médio para o período 2016-2018 entre 3,0% e 3,5% – e numa inflação, a partir de 2016, rodando próxima à meta”.

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