Entrevista

Se Bolsonaro é o Trump brasileiro, será derrotado nas urnas, diz analista político

Para Richard Back, se depender das estruturas partidárias, dos recursos disponíveis para cada campanha, da habilidade e disposição dos candidatos para a costura de acordos e da bênção do invisível establishment, atual fotografia pode não se repetir em outubro

SÃO PAULO – Em poucas eleições, o cenário para a disputa presidencial esteve tão nebuloso a menos de sete meses do primeiro turno. Embora os acontecimentos recentes no Judiciário apontem para a impossibilidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concorrer e as pesquisas de intenção de voto indiquem a liderança do deputado Jair Bolsonaro na ausência do petista, nada garante que a atual fotografia se repetirá em outubro. Se depender das estruturas partidárias, dos recursos disponíveis para cada campanha, da habilidade e disposição dos candidatos para a costura de acordos e da bênção do invisível establishment, tudo pode mudar.

Essa é a avaliação do analista político Richard Back, da XP Investimentos. Para ele, o peso de muitas variáveis envolvidas no processo acaba passando despercebido por quem se aventura a tentar fazer prognósticos, enquanto outras podem ser superestimadas, a despeito de sua evidente relevância. “Pesquisa agora fala muito, mas não diz o essencial, que é quem vai ganhar a eleição, senão já teríamos assumido que Lula seria presidente, mas não será e nem chegará à urna”, afirmou em entrevista ao InfoMoney.

Nos últimos meses, Back tem monitorado processos eleitorais em diversos países latino-americanos. Na sua avaliação, as forças políticas e econômicas tradicionais exercem papel relevante sobre os resultados obtidos na região, inclusive no caso brasileiro. “Aqui, isso talvez seja um pouco menos visível. Mas quando você vê Bolsonaro tentando achar um economista respeitado no mercado, quando você vê Lula questionando o temor do mercado com ele, isso tudo é aceno para o establishment e mostra como ele é necessário. É difícil se eleger por fora do establishment totalmente”, observou.

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O analista político palestrou em evento realizado, duas semanas atrás, pela recém-inaugurada filial da One Investimentos em Brasília, praça estratégica para o grupo XP. Sediado em Belo Horizonte, o escritório hoje conta com R$ 700 milhões sob a custódia de uma equipe formada por 20 assessores de investimentos e espera encerrar o ano gerenciando um montante de R$ 1,5 bilhão. O foco são clientes grandes, com tíquete médio na faixa de R$ 1 milhão. A nova operação se insere no objetivo da XP de ampliar penetração no Distrito Federal, tanto em termos de assessores, quanto na sua base ativa de clientes.

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Da esquerda para a direita: Igor Martins, Leandro Guerra, Richard Back, Rafael Mourão e Renato Preter

 

Confira os destaques da entrevista:

InfoMoney – No início do ano, o senhor nos disse que o presidente Michel Temer seria o “posto Ipiranga” da política. De lá para cá, muita coisa aconteceu: a reforma da Previdência foi abandonada, uma intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro deslocou a agenda do governo para a pauta da segurança pública, mas a popularidade do emedebista continua muito baixa. Na sua avaliação, Temer ainda deve buscar protagonismo com a apresentação de uma candidatura à reeleição ou os atuais movimentos são mais uma tentativa de manter relevância e evitar eventual “sarneyzação” ao final do mandato?

Richard Back – É um pouco de cada coisa. Temer está brigando para ter a posição de posto Ipiranga, ele está tentando manter sua posição de alguém do centro do tabuleiro. Para isso, teve que dar esse chute no cenário e colocar uma intervenção no Rio, porque senão o quadro ia ficar meio vazio, e em política não tem vácuo. O pouco de vácuo que o governo deixou pela perda de força natural que tem em um final de mandato e o não crescimento de [Geraldo] Alckmin como candidato, em termos de intenções de voto, coligações, abriram a possibilidade de Rodrigo [Maia] ser candidato ou pelo menos pensar na candidatura. Se Temer não se mexe e dá essa virada com a intervenção, que foi inteligente, ia ficar patinando para achar um lugar no cenário político.

O MDB é dono do latifúndio do tempo de TV, que é importante. Não necessariamente vai estar em uma aliança. Pode ser que Temer seja candidato, pode ser que Meirelles seja seu candidato, pode ser que tente achar um terceiro nome, mas é alguém que vai se manter no cenário. Eles vão tentar olhar para maio, junho ou, no máximo, julho, se eles se recuperam, se é viável ter algum candidato, para escolher a melhor opção. Temer tem o tempo a seu favor, por esperar mais que os outros. Ele não precisa tomar nenhuma decisão até 7 de abril (prazo de desincompatibilização).

IM – Pesquisa CNT/MDA mostrou que parcela expressiva da população apoia a intervenção federal. Ao mesmo tempo, a popularidade do governo praticamente não se mexeu. Quais são as expectativas para o desempenho dessa variável nos próximos meses?

RB – É difícil o governo de Temer chegar a um nível de avaliação razoável para ele ser candidato. A intervenção federal tem quase 70% de apoio da população, nessa CNT ele tem 4% de aprovação. É um teflon ao contrário, as coisas não colam nele. O argumento não é tão raso, é que ele acaba representando as acusações [de corrupção], e a imagem da mala de Rocha Loures é muito forte. Ele acaba representando muito do que as pessoas estão rejeitando, vira uma espécie de imã para esse monte de coisa. O governo teve que tocar uma pauta que era necessária, mas não popular. Para o bem e para o mal, fez isso bem, conseguiu tocar uma pauta econômica que o remédio era amargo mesmo. Não sei se Temer está frustrado, porque ele repetiu tantas vezes que sua prioridade não era popularidade.

IM – Ainda no plano da centro-direita, a candidatura de Alckmin andou tentando costurar acordos, esforçou-se mais nos bastidores, mas não cresceu nas pesquisas de intenção de voto e já sofreu uma pressão muito grande até sobre o pouco já construído. Como o senhor está vendo o cenário para o tucano e os planos alternativos neste espectro político?

RB – Pesquisa agora fala muito, mas não diz o essencial, que é quem vai ganhar a eleição, senão já teríamos assumido que Lula ia ser presidente, mas não será e nem chegará à urna. No caso de Alckmin, devemos nos perguntar: como ele vai conseguir voto se até agora não pediu? Estava na posição de governador, tentando pacificar aquela loucura que estava o PSDB, e, de certa maneira, conseguiu. Ninguém mais ouve falar em cabeça preta e cabeça branca. Ele tinha um trabalho político para fazer em casa, fez, e agora tem que fazer a coligação. Claro que, se ele fosse para 15% [nas pesquisas de intenção de voto], a vida dele ficava mais fácil, mas Alckmin não vai fazer campanha enquanto não sair do governo do estado, é algo de sua personalidade. Ele vai começar algum tipo de campanha no dia 8 de abril, e aí tem que esperar um mês para ver se tem algum tipo de reação, se a campanha colou.

Qual é a grande coisa para a coligação? Primeio que ajuda se ele subir, mas não atrapalha se ele não subir. Não necessariamente inviabiliza, porque é cedo fazer coligação agora. Isso vai ser montado lá para junho/julho. Em direito e política, se você tem tempo, usa. Então, Rodrigo vai usar o tempo que tem, o MDB vai usar o tempo que tem, os outros partidos vão usar o tempo que têm, para ver qual é o melhor cenário e fechar um acordo. Ninguém vai fazer agora, a não ser que ficasse muito óbvio que Alckmin seria o presidente, o que não vai acontecer também. Não tem ‘oba oba’, não tem ninguém brincando. Aqui, todo mundo é profissional e vai esperar. Então, dá tempo para Alckmin reagir. Se isso não acontecer, dá tempo de o cenário se redesenhar até o meio do ano.

IM – No PSDB, se Alckmin não vingar, tem alguma alternativa dentro do próprio partido? João Doria?

RB – Não. Só se Alckmin morrer.

IM – Neste momento, a probabilidade de o ex-presidente Lula ser preso é significativa. Qual seria seu papel nessas eleições caso não seja candidato e como eventual prisão interefere nesta dinâmica?

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RB – De um jeito ou de outro, ele vai participar da eleição. Lula é muito forte, não vai ser um nome que as pessoas vão esquecer em agosto ou setembro. A pesquisa Ibope que mostrou que o PT tem 19% reforça isso. Lula está batendo 37% no Datafolha, 35% e 33% nas outras. Se ele botar a mão em alguém e levá-lo pelo Brasil, esse cara vai ter pelo menos 15%. Em uma eleição de patamar baixo, é um bom ponto de partida para ir ao segundo turno.

Agora, Lula está virtualmente preso. Se o STF liberasse, ele estaria solto, mas não vai. Ele não vai sair da cadeia, vai continuar lá, e, depois, acho que o STF pode julgar algum habeas corpus, e dificilmente ele ficaria até o fim do ano na cadeia. Mas, preso ou não, ele é muito relevante. Se tem uma coisa que ele sabe fazer é criar um discurso para que a situação fique a seu favor. Pode perder um pouco de apoio? Pode. É normal que perca até. Mas não vai derreter. Não existe isso.

Além disso, o PT tem plano B, que é [Fernando] Haddad ou o [Jaques] Wagner. Nos últimos meses, o primeiro passou o segundo pelo óbvio.

IM – Não existe a possibilidade de o PT abrir mão de uma candidatura própria para apoiar um nome de outro partido? Sabemos que hoje isso é difícil, mas levando em consideração as atuais regras eleitorais, com recursos limitados para as campanhas dos partidos, não seria possível?

RB – Não faz muito sentido, é preciso avaliar pela força real das coisas. Se o PT não tiver candidato, vai ter que apoiar Ciro Gomes. Não há outro nome na centro-esquerda. Ciro é do Nordeste, atual cidadela do PT. O partido vai entregar a liderança da região para Ciro? É uma conta que não fecha.

Claro que para o PT faria sentido ter uma sociedade com o Ciro. Ser vice dele, mas com uma sociedade. Até porque Ciro seria o cabeça de chapa, mas o PT seria um sócio bem grande nessa história. Uma chapa Ciro-Haddad pode vir a acontecer, mas é uma negociação muito truncada, nem um pouco pacífica. Agora, tem gente pensando nisso. De qualquer forma, tanto quanto os outros partidos, o PT vai esperar para ver o que acontece.

IM – Nos cenários sem Lula, os pré-candidatos Bolsonaro e Marina Silva ocupam a dianteira nas pesquisas. Porém, ambos são de partidos com baixa estrutura. Qual é a sustentabilidade dessas candidaturas?

RB – Se fôssemos desprezar o componente partidário, você poderia desprezar, de saída, Alckmin, Ciro, muita gente. Então, se consideramos esses nomes, até mesmo o de Temer, naturalmente consideramos o impacto que a força partidária tem. Se serve para um, serve para os outros, serve para quem tem e para quem não tem. Quem não tem, caso de Bolsonaro, terá um tempo de TV muito pequeno e pouquíssimo recurso. Isso conta. Vai contar para derreter Bolsonaro? Pode até não derreter, mas põe um teto nele. O que precisa ser monitorado é se esse teto que a falta de estrutura vai colocar será suficiente para ele ir ao segundo turno ou não. Pode ser que não. Na rede social, vai ter concorrência, porque agora os candidatos podem pagar pela postagem. Na força bruta real, quem vai fazer campanha para ele no interior da Bahia? Alckmin vai ter gente lá, Lula e Ciro também. Essa turma [da militância pró-Bolsonaro] vai ficar todo dia para fazer campanha? Tem dinheiro para isso? Não tem estrutura.

Eu não subestimo campanha. Em 2014, ela quase mudou a realidade. No início da eleição, Dilma estava eleita, depois Marina ia ganhar, e, ao final, Aécio quase venceu. Em campanha, as coisas andam muito mais rápido. Para você assumir que Bolsonaro vai conseguir estourar, chegar a 55 milhões de votos e ser presidente, tem que considerar que ele não vai precisar de dinheiro e tempo de TV, que só a rede social vai sustentar e que ele também vai cometer pouquíssimos erros.

IM – Teria que ser uma onda muito forte…

RB – Não existe onda para esse tipo de coisa. Aqui não é a França. O eleitor está preocupado com o bolso, se vai ter emprego amanhã, se o filho vai conseguir pagar a faculdade. São outras preocupações. Talvez fosse mais razoável comparar o Brasil com os países mais próximos, mais parecidos. França e Estados Unidos não têm nada a ver. Tem gente que fala que ele é o Trump brasileiro. Pois é, Trump perdeu a eleição para Hillary. Como faz? Se Alckmin é a Hillary, vai ganhar dele. No voto absoluto, ganharia.

IM – O senhor acompanhou de perto importantes processos eleitorais em outros países latino-americanos. Como compararia o cenário brasileiro ao dos vizinhos?

RB – De forma geral, nosso processo é mais moderno e transparente, mas tão violento quanto qualquer outro. É violento como é a campanha no México e como tem sido na Colômbia. É uma campanha de paixão, mas uma campanha em que o establishment conta muito nos resultados. No México, [Andrés] Obrador tem modelado discurso porque pode ganhar agora, então tem que achar um discurso que não assuste tanto o establishment. Na Argentina, não dá nem para ignorar o poder que o establishment teve na vitória de [Mauricio] Macri; no Chile a mesma coisa: [Sebastián] Piñera é establishment, um bilionário no país. A força que o establishment tem colcoado na candidatura de [Iván] Duque na Colômbia também.

A força do establishment existe. Isso, na América Latina, tem um peso muito grande, tanto quanto tem no Brasil. Aqui, isso talvez seja um pouco menos visível. Mas quando você vê Bolsonaro tentando achar um economista respeitado no mercado, quando você vê Lula questionando o temor do mercado com ele, isso tudo é aceno para o establishment e mostra como ele é necessário. É difícil se eleger por fora do establishment totalmente.