Fábula econômica

Schwartsman e Belluzzo têm novo embate e deflagram ânimos acirrados entre escolas econômicas

Após fábula econômica escrita pelo ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman no dia 16 para a Folha, manifestos pró e contra o economista foram realizados - mostrando a intensidade do embate econômico no Brasil atualmente

SÃO PAULO – Em meio à crise econômica (que, se contar o biênio de 2015-2016, deve ser a segunda maior recessão da história) e os diferentes remédios para tentar sair dela, os debates entre economistas de diversas linhas de pensamentos voltaram a ficar bastante acirrados. 

As controvérsias foram várias. Simplificando o embate se, de um lado, alguns economistas afirmam que o ajuste fiscal feito em 2015 ajudou a deprimir a economia e dificultar ainda mais a trajetória de recuperação, afetando as contas públicas, enquanto outros economistas ressaltam que o ajuste fiscal mal começou e que o governo ainda não apertou os cintos e está muito longe do que se esperava.

E, para fechar o ano, uma controvérsia em especial vem ganhando destaque, com personagens que já se “alfinetaram” em outras oportunidades: os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo, professor de titular da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987), e Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central e ex-economista-chefe do Santander. 

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O imbróglio mais recente entre eles aconteceu por conta de um artigo feito por Schwartsman para o jornal Folha de S. Paulo, publicado no último dia 16 de dezembro, chamado “O Porco e o Cordeiro”, que faz uma espécie de fábula econômico com diálogo entre animais, fazendo referência a economistas. 

A fábula narra, em tom crítico, as diferentes visões sobre a economia, tendo como personagens centrais o “Cordeiro”, que tocava o Ministério da Fazenda e buscava metas mais realistas, o “Porco”, que criticou a “redução do PIB” através das políticas de ajuste realizadas (em uma crítica aos heterodoxos). Porém, o “Cordeiro” contesta, o que gera um embate sobre o real impacto do corte dos gastos sobre a economia sendo que, segundo o Cordeiro, o consumo do governo aumentou. 

Na fábula, Schwartsman faz referências a “Nova Matriz Econômica”, que teria vindo da cabeça de “porcos”. A discussão continua, até que o Cordeiro afirma que os Porcos sumiram do governo “quando ficou claro que o investimento seguia em queda e que a recessão viria para valer. Só ficou por aqui um jumentinho italiano, otimista ‘pra’ burro, que me passou as chaves da casa.” Ele ainda afirma que foi feito “tanto estrago que nem Dona Anta aguentou vocês e teve de chamar um Cordeiro para arrumar a bagunça.” 

Dias após a publicação do artigo, 162 economistas e outros profissionais fizeram um manifesto repudiando a linguagem cifrada e, para eles, desrespeitosa, com que Schwartsman trata as pessoas de quem discorda. “Nós, abaixo assinados, vimos a público protestar veementemente contra a vileza de Alexandre Schwartsman, que atinge de forma acintosa a professora Leda Paulani e o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, com quem o colunista mantém divergências públicas no campo das ideias, aludidos covarde e indiretamente como ‘Leitoa’ e ‘Porco'”, afirma a nota, referindo-se a dois profissionais que já tiveram rusgas anteriormente com o ex-diretor do BC.

“A falta de decência também se manifesta no chamar de ‘jumentinho italiano’ e de ‘Dona Anta’ duas autoridades legítimas de governo eleito e democrático”, continua a nota, em referência ao ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega (que nasceu na Itália), e à presidente Dilma Rousseff. 

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Mais discussões…
Após o manifesto do grupo de economistas e não-economistas, outros saíram em defesa de Schwartsman. Em seu blog, o economista especialista em finanças públicas Mansueto Almeida mostrou solidariedade a Schwartsman, destacando que, “muitos dos que assinam a Nota de Repúdio não são também muito educados no debate público e costumam usar adjetivos bastante fortes para descrever ideias com as quais não concordam, seja em artigos, seja nos posts nas redes sociais”. Ele cita uma entrevista de Belluzzo de abril de 2015, em que afirma que  muitas pessoas que saíam da USP eram “idiotas fundamentais”, como dizia Nelson Rodrigues, porque não aprendiam história e sociologia.  

O ideal é que no debate de ideias houvesse respeito de ambos os lados. Mas talvez uma parte dos economistas mais ortodoxos esteja cansado de ser chamado de idiota neoliberal, defensor de banqueiro, etc. por algumas pessoas que se auto denominam ‘intelectuais’ e que se acham de esquerda porque defendem aumento do gasto público. Seriam ‘idiotas fundamentais’ como fala o professor Belluzzo?”, questiona Mansueto. O professor licenciado da USP e atualmente no FMI Carlos Eduardo Gonçalves também saiu em defesa de Schwartsman e com críticas aos heterodoxos em seu blog no jornal O Estado de S. Paulo.

Belluzzo escreveu artigo no último domingo, divulgado pela Plataforma Política Social, com críticas também a Mansueto e a Carlos Eduardo Gonçalves em que afirma: “…Não sou valentão: apanhei e bati, mas jamais fugi do pau. Assim, os Mansuetos da vida, os Alexandres da morte podem preparar o lombo. Os Carlos Eduardo vou deixá-los entregues aos ressentimentos de suas nulidades. Seja como for, não vou desistir e muito menos apelar para grosserias e maledicências.” Ele ainda afirma que, no Brasil, as certezas da “teoria” econômica ultrapassaram o ridículo para alcançar o grotesco. 

Em texto de hoje, o próprio Mansueto rebate as afirmações de Belluzzo e afirma que o mais engraçado é que o economista escreve que não vai “apelar para grosserias e maledicências”, mas faz justamente isso, citando a fala sobre Carlos Eduardo. 

Com isso, vários economistas e não economistas resolveram encaminhar uma petição pública ao Jornal Folha de São Paulo se solidarizando com Schwartsman. “Não concordamos que Alexandre Schwartsman tenha passado dos limites, como dizem alguns, ao escrever um artigo em forma de fábula e queremos evitar que se crie um mal estar entre o economista e o Jornal Folha de São Paulo. Será que em uma democracia algumas pessoas têm o direito de achar que Alexandre Schwartsman não foi grosseiro como muitos afirmam? Será que eu e outros temos o direito de discordar  ‘preparando  ou não o lombo’ como sugere o professor Luiz Gonzaga Belluzzo?”, questiona Mansueto. A petição, chamada “Por uma Democracia sem Mordaça” pode ser assinada por aqui e mais de 800 pessoas já aderiram. 

Pelo jeito, em meio aos ânimos exaltados e as fortes divergências, pelo menos no campo econômico, 2015 está longe de acabar.