Análise

Saída de Novaes do BB e nova baixa no Ministério da Economia põem em risco as políticas de Guedes?

Cientista político Creomar de Souza e analista de setor financeiro Marcel Campos comentam impactos da dança das cadeiras na área econômica do governo

SÃO PAULO – Uma sequência de baixas relevantes na área econômica do governo federal gerou preocupação (ou ao menos chamou a atenção) de agentes do mercado, sobretudo pelo contexto desafiador em que se inserem.

Em apenas duas semanas, Mansueto Almeida deixou oficialmente a Secretaria do Tesouro Nacional; Rubem Novaes pediu demissão da presidência do Banco do Brasil; e Caio Megale comunicou que deixará o posto de diretor de programa do Ministério da Economia.

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Os dois últimos movimentos foram recebidos com maior surpresa até por quem acompanha de perto o noticiário na pasta. O ministro Paulo Guedes (Economia), porém, minimizou as notícias e negou a ocorrência de uma debandada.

“Não houve debandada. Na média, o nível da equipe está subindo”, disse em entrevista à CNN Brasil.

Mas, afinal, como a dança das cadeiras deve ser interpretada? Há riscos de alterações na política econômica em curso? O que esperar do futuro no Ministério da Economia e nos bancos públicos?

Para responder a essas e outras perguntas, o InfoMoney entrevistou, na noite desta segunda-feira (27), o cientista político Creomar de Souza, CEO e fundador da consultoria Dharma Political Risk and Strategy, e Marcel Campos, analista de setor financeiro da XP Investimentos.

Assista à íntegra pelo vídeo acima.

Leia um resumo dos principais pontos abordados:

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Debandada
Apesar do ambiente político desafiador, potencializado de forma expressiva pelos efeitos da pandemia do novo coronavírus, o cientista político Creomar de Souza acredita que as sucessivas baixas no Ministério da Economia em um intervalo curto podem representar mais uma coincidência do que mudanças significativas no perfil de atuação da pasta.

“O contexto que envolve as saídas do Ministério da Economia tem muito mais a ver com uma sincronia infeliz do que na verdade com algum tipo de processo que envolva uma eventual fritura do ministro Paulo Guedes”, avaliou.

“Uma questão fundamental, do ponto de vista político e da interpretação de estabilidade e capacidade de governança, é sempre a medição de como esses nomes saem do governo. Ele sai dizendo que é uma questão pessoa? Sai atirando contra o governo? E o que temos visto na área econômica, diferentemente de outras cadeiras, é que os nomes não saem atirando. Isso me passa a percepção, em termos de métrica, os arranjos estão sendo muito bem costurados no Ministério da Economia”, complementou.

Novas respostas
Na avaliação de Creomar de Souza, a Covid-19 exigiu do governo federal uma nova postura, tanto em termos de relacionamento com o Congresso Nacional, quanto nas decisões econômicas.

“Bolsonaro foi eleito para reinventar a roda da política brasileira, e de repente, no meio desse percurso, surge um tipo de inimigo que não é político e que faz com que ele tenha que reinventar um governo que foi eleito para reinventar a política”, observou.

“Isso obrigou o presidente a descer do palanque e dialogar com entes tradicionais da política brasileira, aos quais ele disse que não conversaria durante a campanha eleitoral. E isso tem jogado pressão sobre o Ministério da Economia”, continuou.

O governo Bolsonaro, diz o analista, experimenta um momento de transformação, em que novas agendas se sobrepõe a pautas que haviam sido colocadas como prioritárias durante o período de campanha eleitoral.

“Os sinais que a política e Brasília têm dado nesse sentido são que é preciso fazer concessões”, pontuou.

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“Política pública é cobrir alguém grande com cobertor pequeno”, disse.

“Parece que esse governo que assumiu o poder com uma ideia muito rígida de que não queria fazer concessões está sendo pressionado pela realidade a fazer concessões. Em termos de agenda econômica, parece que o governo vai gastar, colocar dinheiro na rua, na mão das pessoas. A questão fundamental é: qual é o limite disso e até que ponto esse tipo de ação vai ser interpretado pelo mercado como sendo uma ação que envolve o salvamento de pessoas ou mera irresponsabilidade?”, questionou.

Saída de Rubem Novaes do BB
Para Marcel Campos, a saída de Rubem Novaes da presidência do Banco do Brasil pegou todos de surpresa e que em um primeiro momento isso foi uma notícia negativa. “Sempre que a gente olha para Banco do Brasil pensa em risco político, isso é uma parte importante do investimento na ação e que quem investe precisa considerar”, afirma ele destacando que a forma e o momento da saída de Novaes não passam uma boa mensagem.

Sobre o movimento das ações, que subiram 2,83% na Bolsa nesta segunda, cotadas a R$ 34,91, o analista ressalta que apesar dos ganhos, foi um papel que avançou menos do que seus pares. Hoje o Itaú Unibanco subiu 5%, enquanto o Bradesco teve alta de 4,6%. Marcel ainda ressalta que o fato do banco informar a saída de Novaes ainda sem ter um nome para o interino e nem para seu sucessor também atrapalha por gerar dúvidas.

Por outro lado, Campos diz que o fato da notícia ter saído na sexta deu o fim de semana de tempo para que analistas e investidores tivessem mais informações, ainda que de bastidores, ajudou a aliviar. Vale lembrar que no domingo o próprio Novaes afirmou que já havia entregue seu pedido de demissão para Paulo Guedes em maio, o que trás uma sinalização positiva pelo fato de o governo já estar procurando um substituto há algum tempo.

Privatização
Sobre a questão da privatização do banco, Campos destacou que este é um assunto politicamente complexo e que a XP, ao fazer suas análises, não conta com essa possibilidade. E se para algumas pessoas o fato de ser um banco público pesa negativamente, o especialista ressalta a competitividade no ambiente digital e o controle de uma carteira defensiva como fatores atraentes na companhia.

“O Banco do Brasil, assim como os bancos privados, tem que melhorar em tecnologia para competir com os novos players, como o Nubank ou Banco Inter. E ele é bem defendido operacionalmente. Isso que faz a gente gostar do Banco do Brasil hoje, não é uma possível privatização ou capitalização”, afirma.

Apesar disso, Campos diz que seria interessante se o BB passasse por um movimento deste tipo. Isso porque a instituição, apesar de ser competitiva, tem dificuldade na hora de contratação, demissão e retenção de talentos, já existem processos mais burocráticos que uma empresa estatal precisa cumprir.

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Resultado do 2º trimestre
Com seu balanço planejado para ser divulgado no dia 6 de agosto, a expectativa do analista da XP é que o BB tenha um resultado melhor no segundo trimestre do que foi no primeiro.

Entre os motivos, ele explica que o banco estatal tem um contrato com a Justiça onde ele pega os depósitos judiciais e usa como captação para fazer empréstimos e esse processo ficou mais barato, o que deve melhorar as margens da empresa.

Além disso, ele cita as menores provisões que devem ser feitas no período. Vale ressaltar que junto com Itaú e Bradesco, o Banco do Brasil fez grandes provisões já no primeiro trimestre para se preparar para os impactos da pandemia do coronavírus.

Campos, porém, destaca que os reais impactos da inadimplência só devem ser sentidos pelos bancos no fim deste ano, já que houve programas de prorrogação de pagamentos de dívidas, então não é possível afirmar ainda se o tamanho das provisões feitas no início do ano foram suficientes.