Barômetro do Poder

Riscos de contestação eleitoral e violência durante a campanha são altos, dizem analistas

Levantamento feito com 13 analistas políticos mostra preocupação com possibilidade de resultado eleitoral não ser aceito por um dos candidatos à presidência

Por  Marcos Mortari -

A dois meses das eleições, analistas políticos manifestam preocupação com o risco de episódios de violência durante a campanha, em meio ao acirramento dos ânimos em torno da corrida presidencial, e com a possibilidade de contestação dos resultados das urnas em outubro.

É o que mostra a 38ª edição do Barômetro do Poder, iniciativa do InfoMoney que compila mensalmente as avaliações e expectativas de consultorias de análise de risco político e especialistas independentes sobre alguns dos assuntos em destaque na política nacional.

Segundo o levantamento, realizado em 28 e 29 de julho, 77% dos especialistas consultados avaliam risco alto de um dos candidatos à Presidência da República não aceitar o resultado das eleições de outubro deste ano.

Apenas 15% atribuem probabilidade baixa para o incidente. Os 8% restantes veem risco moderado.

Em uma escala de 1 (muito baixa) a 5 (muito alta), a probabilidade média atribuída pelos analistas ouvidos pelo levantamento para uma contestação ao resultado das urnas é de 3,92.

Esta edição do Barômetro do Poder ouviu 9 consultorias políticas – Control Risks; Empower Consultoria; Eurasia Group; Medley Global Advisors; Patri Políticas Públicas; Ponteio Política; Prospectiva Consultoria; Pulso Público; e XP Política – e 4 analistas independentes – Antonio Lavareda (Ipespe); Carlos Melo (Insper); João Villaverde (FGV-SP) e Thomas Traumann.

Conforme acordado previamente com os participantes, os resultados são divulgados apenas de forma agregada, sendo preservado o anonimato das respostas e dos comentários.

Clique aqui para ter acesso à íntegra do levantamento.

A preocupação com o risco do resultado do pleito não ser aceito por um dos candidatos voltou a ganhar força duas semanas atrás, após o presidente Jair Bolsonaro (PL) fazer uma apresentação a cerca de 70 embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, na qual criticou o sistema eleitoral brasileiro, lançou suspeição sobre as urnas eletrônicas, fez insinuações de fraude em disputas anteriores e acusou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de conspirarem pela vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida pelo Palácio do Planalto. Como em outras ocasiões, nenhuma prova foi apresentada.

Nenhuma instituição ou liderança política de peso endossou a posição do mandatário. Pelo contrário, o episódio gerou uma onda de reações na cúpula do Poder Judiciário, no Poder Legislativo, entre ex-presidentes, integrantes do Ministério Público, políticos e membros de diversas associações de servidores públicos. Houve desconforto até mesmo entre figuras do “centrão” que apoiam o presidente, mas não concordam com os ataques.

Mas Bolsonaro voltou a apostar no tensionamento com o Poder Judiciário poucos dias depois, quando, no lançamento de sua candidatura à reeleição, convocou seus apoiadores a irem às ruas “uma última vez” no 7 de Setembro (Dia da Independência do Brasil). No último fim de semana, ele anunciou um desfile militar na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro naquela data, sob alegação de comemoração do bicentenário da independência do país.

As investidas do presidente renderam reações da sociedade civil. Em apenas quatro dias, mais de 500 mil pessoas, entre empresários, banqueiros, intelectuais, artistas, juristas, ex-ministros e outras figuras, assinaram uma carta em defesa da democracia organizada por integrantes da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP).

Inspirada na “Carta aos Brasileiros”, de 1977, em repúdio à ditadura militar, a “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!” será lida no próximo 11 de agosto, na sede da instituição. O movimento foi visto como resposta da sociedade contra qualquer articulação política à margem da democracia.

Na esteira desta carta, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também articula seu próprio manifesto em defesa da democracia. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também aderiu ao movimento.

“Se considerar a possibilidade de quebra institucional, há baixa expectativa, porque o ‘centrão’ deve sair vitorioso nestas eleições, considerando que terá o orçamento das emendas de relator a seu favor. Mas a possibilidade de questionamento do resultado das urnas caso o presidente Jair Bolsonaro não seja reeleito é alta, tendo em vista que o presidente reiteradamente questiona a credibilidade do sistema eletrônico de votação”, afirmou um dos participantes do Barômetro.

“Essa eleição é um marco na história da Nova República. O Presidente, eleito como outsider, capitalizando a onda antissistema provocada pela Lava-Jato, agora compete como um candidato ‘normal’, por um grande partido de direita, com tempo de TV expressivo, além de gorda fatia do Fundo Eleitoral. Mas não pretende aceitar pacificamente uma derrota que já parece anunciada. E emite todos os sinais de que, confirmada essa hipótese, tentará tumultuar o país, e atrair as Forças Armadas, a pretexto de restauração da ordem pública, para participarem do seu autogolpe. Será um teste inédito de resiliência da nossa Democracia. Uma tentativa não disfarçada de revanche dos que perderam o poder em 1985”, disse outro analista.

A edição de julho do Barômetro do Poder também mostrou uma preocupação dos analistas políticos com o risco de episódios de violência política ao longo da campanha, tendo em vista o acirramento da corrida presidencial e o discurso de ódio sobretudo nas redes sociais.

Todos os participantes do levantamento atribuíram risco alto (46% dos entrevistados) ou muito alto (54% dos entrevistados) de isso acontecer. Considerando uma escala de 1 a 5, a probabilidade média atribuída ao incidente foi de 4,54.

Alguns deles, em seus comentários, lembraram do assassinato do guarda municipal Marcelo Aloizio de Arruda, tesoureiro do PT, durante sua festa de aniversário em Foz do Iguaçu (PR), pelo policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho, apoiador de Bolsonaro. O episódio ocorreu há três semanas e acendeu um sinal de alerta no meio político.

“Embora não acredite em golpe, a provável derrota de Jair Bolsonaro ensejara questionamentos por parte do candidato, e o país deve ter episódios de violência política, como observado em Foz do Iguaçu”, observou um dos analistas.

“Teremos a eleição mais violenta e tumultuada da história recente”, arrematou outro participante.

Clique aqui para ter acesso à íntegra do Barômetro do Poder.

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