Rejeição de pacote anti-crise gera forte repercussão entre líderes políticos

Republicanos culpam democratas pelo resultado da votação; democratas culpam republicanos pela crise do subprime

SÃO PAULO – Foram dias de expectativa pela aprovação do pacote anti-crise e todos os sinais positivos dados semana passada caíram por terra nesta segunda-feira (29). O plano arquitetado por Ben Bernanke, presidente do Fed, e Henry Paulson, secretário do Tesouro, foi rejeitado pelo Congresso norte-americano nesta tarde.

Além de ter efeito direto nas bolsas do mundo todo, a rejeição – de 205 votos a favor e 228 contra – gerou reações entre muitos importantes líderes globais que, em sua maioria, como os investidores, viam no pacote uma possibilidade de amenização dos problemas gerados pela crise do subprime.

Bush e Paulson

Paulson disse estar desapontado com o resultado da votação na Câmara, mas afirmou que trabalhará com os congressistas para chegar a um plano mais abrangente para proteção do mercado financeiro.

PUBLICIDADE

“Precisamos trabalhar o mais rápido possível, precisamos que algo seja feito. Como já disse, acreditamos que nosso plano funciona”, afirmou.

Em pronunciamento oficial, o Tesouro norte-americano informou que consultará o presidente norte-americano, o presidente do Federal Reserve e os líderes do Congresso para definir os próximos passos. “Enquanto isso, continuamos prontos para trabalhar com outras agências reguladoras e usar todas as ferramentas a nosso dispor, como temos feito ao longo de vários meses, para proteger nossos mercados financeiros e nossa economia”, disse.

O presidente George W. Bush se uniu às declarações de Paulson, ressaltando que haviam enviado um grande plano para solucionar um problema grande. “Nossa estratégia é continuar a lidar com esta situação econômica e vamos trabalhar para desenvolver uma estratégia que nos permitirá continuar a seguir em frente”, afirmou.

McCain e Obama

As turbulências, contudo, não se retêm ao mercado e, nos Estados Unidos, se transformam em ferramenta de ataque, acirrando a disputa entre os dois candidatos à presidência, Barack Obama, democrata, e John McCain, republicano.

Obama se pronunciou primeiro, pouco depois da notícia da rejeição do pacote. Em seu discurso, culpou Bush pela crise e, em conseqüência, os republicanos. “Essa é a conseqüência de oito anos de irresponsabilidade. Está na hora de ter a supervisão de um adulto na Casa Branca. Por isso sou candidato”, disse.

McCain adotou uma postura mais amena, reforçando que não é momento encontrar culpados, mas de buscar uma solução para a crise. “É importante que todos resolvamos nossas diferenças em uma negociação, não é momento de colocar a culpa em ninguém, é hora de resolvermos o problema e colocar os interesses políticos de lado”, afirmou.

Doug Holtz-Eakin, assessor para assuntos econômicos do candidato republicano, entretanto, não poupou críticas ao adversário. “Esse projeto de lei não passou porque Barack Obama e os democratas colocaram a política à frente do país”, ressaltou.

Líderes brasileiros

Por aqui, Guido Mantega, ministro da Fazenda, pareceu ignorar a queda de mais de 9% na Bolsa e a disparada do dólar em 6% frente ao real ao declarar que a situação no País “é bastante normal”.

“A economia está funcionando normalmente. O mercado doméstico está bem. As empresas estão sólidas. Os bancos brasileiros estão sólidos. E o governo estará a postos para responder”, afirmou.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, ressaltou a importância dos EUA assumirem a responsabilidade da crise financeira diante do mundo e opinou dizendo que o pacote proposto pelo governo norte-americano foi rejeitado porque “tem gente tentando tirar proveito da situação”.

Na tentativa de tranqüilizar os investidores em relação à queda na Bolsa nesta sessão, o presidente justificou o desempenho ruim dizendo que “normalmente, num momento de nervosismo econômico, a bolsa do mundo inteiro cai”.