Estratégia

Rejeição da população contra Dilma se transformou em indiferença a Temer, diz Rio Bravo

Em relatório de estratégia sobre o mês de agosto, gestora destaca que "o dia seguinte do impeachment chegou"

SÃO PAULO – A rejeição da Dilma migrou para a indiferença a Temer (o “regular”), até que algum fato novo permita um julgamento desse novo personagem que o país pouco conhece. Essa é a avaliação da gestora Rio Bravo, em carta de estratégias sobre agosto, mês em que ficou definido o afastamento definitivo da petista. 

Os gestores destacaram que manifestações contra o governo Temer ocorreram em vários estados, de forma repetida e com cenas de violência, durante quase todos os dias desde a votação do impeachment. “Porém, o público envolvido nesses protestos não impressiona tanto quanto a apatia da opinião pública diante do ‘impeachment’, revelando certa fadiga dos procedimentos e seus caminhos, e confirmada pelos ínfimos índices de aprovação no novo presidente”, destacam eles.

O governo de Temer começa desafiador, dizem os gestores: em tese, tudo pareceria começar a partir de uma mesa limpa, onde novas iniciativas e ideias poderão compor uma nova figura e dar ao novo governo uma identidade que não possui. De acordo com a gestora, um governo composto de políticos de carreira, com larga experiência parlamentar e peso regional não exala liderança e maiores expectativas de mudança.

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“Seu maior ativo, fora de qualquer dúvida, é o desejo de o país se ver livre de Dilma Rousseff, e secundariamente, e apenas para os círculos mais especializados, a presença de quadros técnicos de excelência nos postos chaves da economia”, afirma.

Contudo, esse é o melhor cenário, apontam os gestores, ressaltando que Temer não era um adversário de Dilma Rousseff, menos ainda o PMDB. “Parte da rejeição a Dilma contamina o novo governo, que se esforça para distanciar-se de personagens como Eduardo Cunha, enquanto de outros, como Renan Calheiros, não há como se afastar. O crédito de confiança desfrutado pela nova administração é pequeno, e pode se esgotar rapidamente na voragem das paixões e dos ressentimentos que estão em toda parte”.

Foi assim que começou o novo governo, na terça feira, dia 6 de setembro, véspera do feriado da Independência, quando o presidente Michel Temer retornou da China. Mas o processo de “impeachment” não terminou completamente na votação do dia 31 de agosto, diz a Rio Bravo, graças ao estratagema de ‘fatiar’ a votação final pela via de um ‘destaque’ para a pena da presidente afastada. 

A Rio Bravo ressalta que as manifestações das autoridades econômicas têm sido bem recebidas nos mercados, que reagiram muito bem ao processo. “Mas não deve haver dúvida que esse sentimento positivo é muito mais associado à cessação das políticas da Era Dilma do que ao entusiasmo com as novas ideias de Michel Temer e seus ministros. No papel, é um ministério muito melhor que o anterior, e os nomes da economia são imensamente mais qualificados que aqueles a quem sucederam”, afirma a gestora. Contudo, neste mês de setembro, ressalta a consultoria, o país quer ver planos mais concretos, mais ambiciosos e sobretudo um vislumbre de resultados. “Parece claro que a interinidade produziu certo desgaste, ainda que tenha oferecido o tempo necessário para o preparo de soluções para os problemas do país, e mesmo algumas iniciativas indicativas”.

A Rio Bravo ainda destaca que Temer enfrenta um quadro radicalmente diferente daquele diante de Itamar Franco, em diversos aspectos. “A relação entre Itamar e Collor era ruim, o que apenas favoreceu o vice, quando se inicia o processo de ‘impeachment’ num clima de verdadeira comoção e unanimidade nacional”. Segundo a gestora, o desconhecimento da índole do vice é uma das poucas semelhanças entre Temer e Itamar, “mas este, seguramente, tinha um crédito de confiança muito maior”.

A Rio Bravo ainda aponta que Itamar teve espaço para experimentar três ministros da Fazenda, mas Temer não terá tanto espaço. “O ‘dia seguinte’ ao ‘impeachment’ chegou, e fez-se claro o tamanho do desafio a ser enfrentado pelo novo presidente. A atmosfera política continua pesada, e a única saída para a nova administração será o sucesso na economia. Nesse terreno, espera-se que o atual governo possa exibir planos razoáveis e ambiciosos, e que o País possa rapidamente virar a página”, conclui a gestora.