Análise

Reforma da Previdência expõe choque inevitável entre Henrique Meirelles e Geraldo Alckmin

Cada vez mais, a ordem do dia dos deputados e pré-candidatos à sucessão de Michel Temer será a eleição de 2018

SÃO PAULO – Os caminhos do governador Geraldo Alckmin e do ministro da Fazenda Henrique Meirelles começam a se cruzar com a aproximação da disputa pela sucessão de Michel Temer na presidência da República. Na medida em que não há um nome claro e natural do governismo para a disputa e este espectro carrega potencial competitivo, a despeito da elevadíssima impopularidade do governo, cresce a disputa por espaços no xadrez eleitoral.

Em um pleito sem recursos empresariais para financiar campanhas, a máquina pública passa a ser diferencial importante, assim como o tempo de televisão e capilaridade a serem oferecidos pelo PMDB. É nesse contexto de muitos ônus e bônus a serem calibrados que se insere a possível rota de colisão entre dois dos nomes mais cotados como pré-candidatos um ano antes do pleito.

De um lado, Meirelles, como não poderia ser diferente em se tratando de peça central do atual governo, aposta no governismo e no vínculo com a agenda reformista (e uma recuperação econômica) para cacifar seu nome. O ministro é o potencial candidato que mais depende do desempenho da economia no ano que vem e em como ele será percebido pelo eleitorado em termos de emprego, renda e poder de consumo.

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Do outro, Alckmin aposta na distância. A vinculação ao nome de figura tão impopular como Michel Temer pode representar um custo insuperável à viabilidade da candidatura tucana. Por outro lado, o governador sabe que é preciso calibrar a distância mantida, uma vez que seu caminho natural será o espaço da centro-direita e um apoio peemedebista será de suma importância.

É nesse contexto, mais eleitoral do que de preocupação com a conjuntura econômica em si, que o debate sobre a reforma previdenciária precisa cada vez mais ser observado. Para Meirelles, a aprovação de algum pacote de mudanças nas regras das aposentadorias é essencial para o futuro de sua candidatura. O ministro sustenta que só decidirá se concorrerá ao Planalto em março do ano que vem. Posição estratégica, aguardando melhores frutos de uma recuperação da economia e um cenário de vácuo de representação do governismo. A economia é a única esperança de Meirelles para recuperar seu elevado nível de impopularidade, conforme mostram as pesquisas.

Para Alckmin, vários fatores trazem dores de cabeça. A primeira consiste nas profundas divisões internas no ninho tucano. Como futuro presidente da sigla, caberá ao governador trabalhar por uma difícil pacificação. A segunda aparece nas pesquisas eleitorais. A um ano das eleições, o tucano apresenta dificuldades em crescer nas sondagens e vê Lula e Jair Bolsonaro ampliando distância. E mais: ambas as candidaturas representam a oposição ao atual governo, o que mostra a dificuldade que será apresentar-se como nome governista. Alckmin tentará essa via? Até que ponto vale o apoio do PMDB? Em terceiro lugar aparece a própria reforma da Previdência. Impopular, a medida representa histórica bandeira dos tucanos, vinculada a economistas de relevância no partido. Ainda nesse sentido, o governo cobra do governador paulista apoio à medida. Por outro lado, Alckmin sabe que não será ele o maior beneficiário de sua eventual aprovação. Neste caso, qualquer decisão custará capital político. A pergunta que fica é: Alckmin tem capital político para gastar neste momento e não se complicar?

Meirelles já farejou o cenário que se desenha. Em entrevista publicada no jornal Folha de S. Paulo nesta segunda-feira, ele dá alguns passos a mais em direção à sua candidatura e lança obstáculos ao tucano, argumentando que o governo terá um candidato à presidência em 2018, mas ele não será Alckmin. “O PSDB está tendendo na direção de não apoiar o governo e isso terá consequências no processo eleitoral”, disse. “Porque uma coisa é o apoio a determinadas reformas, outra é o apoio à política econômica atual, com todas as suas medidas e consequências. Não há, pelo menos até o momento, um comprometimento do PSDB em defesa dessa série de políticas e do legado de crescimento com compromisso de continuidade”, complementou.

Antes de se encontrar com Temer, Alckmin proferiu as palavras que o peemedebista buscava: “presidente, conte conosco: a boa política é buscar o entendimento para o que é bom para o Brasil”. A questão que fica é: conseguirá o governador entregar todos o voto em bloco tucano pela reforma previdenciária e desfazer o a imagem de que o PSDB estaria jogando contra sua agenda histórica? Até que ponto interessa a Alckmin (e está a seu alcance) entregar apoio expressivo à reforma?

Muitos pontos em aberto atrapalham o avanço da PEC na Câmara antes do recesso legislativo. Cada vez mais, a ordem do dia dos deputados será a eleição de 2018.