Entrevista

Redes de apoio a Bolsonaro ainda estão muito caladas sobre Previdência, diz especialista

Para Manoel Fernandes, diretor da Bites, governo ainda não conseguiu fazer com que grupos que apoiaram Bolsonaro nas eleições entrem na guerra de narrativas pela reforma da Previdência

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SÃO PAULO – Considerada dos pilares da governabilidade do presidente Jair Bolsonaro (PSL), a opinião pública digital ainda não abraçou o debate previdenciário e, quanto trata do assunto, adota majoritariamente viés negativo para a reforma proposta. A leitura é de Manoel Fernandes, diretor da Bites, consultoria especializada no monitoramento de plataformas digitais.

A avaliação vai ao encontro de pedidos de lideranças políticas para que o presidente assuma o protagonismo da defesa da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) junto aos parlamentares e equilibre a guerra de narrativas na sociedade, hoje com grupos contrários levando vantagem. Para especialistas, o envolvimento direto de Bolsonaro nas negociações e no fornecimento de argumentos é fundamental para o êxito da medida.

“As redes que apoiaram o presidente ainda estão muito caladas, não estão na mesma tensão que estavam antes da eleição. Esse pessoal não está sendo ativado da mesma forma”, diz Fernandes, cujo  monitoramento indica um predomínio de manifestações negativas à proposta. Para ele, somente Bolsonaro tem condições de virar o jogo, mas até o momento nenhum movimento efetivo foi feito nessa direção.

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Segundo levantamento da Bites, o presidente fez 945 postagens em seus perfis entre 1º de janeiro e 25 de fevereiro, sendo apenas 16 sobre a reforma previdenciária. Desse total, somente 9 foram feitos após o anúncio da proposta oficial. Dentre as hashtags mais citadas, estão #ReajaOuSuaPrevidenciaAcaba e #BolsonaroMentiu. No Google, algumas das principais buscas indicam uma corrida por informações de usuários interessados em se aposentar o quanto antes.

“Não há um fluxo de informação do governo para atingir as pessoas da internet sobre a reforma. O que acho mais estranho é que um governo que foi eleito com essa característica de se apoiar muito no digital agora não faz isso de modo estruturado. O governo ainda está preso ao modelo antigo de fazer comunicação”, observa o especialista.

A eleição de Bolsonaro em outubro de 2018 contrariou a maior parte das projeções dos analistas políticos e pôs em xeque o peso das estruturas tradicionais sobre o processo eleitoral. Com apenas 9 segundos de tempo de televisão, pouca estrutura partidária e capilaridade nos municípios, o militar reformado se amparou nas plataformas digitais para superar seus adversários.

Com este pano de fundo, as redes sociais ganham dimensão ainda mais relevante sobre o processo político. A expectativa é que os novos meios tenham maior influência sobre os rumos da política nacional. Para analistas políticos, o desfecho da disputa pela presidência do Senado Federal, que culminou na vitória do novato Davi Alcolumbre (DEM-AP) sobre o experiente Renan Calheiros (MDB-AL), foi mais um indício de um fenômeno que pode se repetir em outros momentos importantes do parlamento.

No caso da reforma previdenciária, porém, os desafios para a mobilização se fazem maiores, tendo em vista a impopularidade da pauta. Segundo pesquisa CNT/MDA divulgada na última terça-feira (26), 43,4% dos brasileiros apoiam a reforma, enquanto 45,6% são contra. Como se não bastasse, a estratégia de articulação política até o momento adotada pelo governo, de relativização do chamado presidencialismo de coalizão, naturalmente coloca a gestão de Bolsonaro mais exposta às oscilações de humor da opinião pública.

“A única pessoa com credibilidade e capacidade de ativar essa rede [de apoio hoje em silêncio] é o próprio presidente. Ele tem que ser o cabo eleitoral da reforma da Previdência, mas pode estar avaliando o risco de se expor a um debate público dessa natureza e o risco de convocar e o quartel não se apresentar de modo desejado. Ele não está ativando [a opinião pública digital] como deveria”, avalia Fernandes.

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Para o especialista, apesar do quadro adverso, há disposição dos grupos em trabalhar na defesa da proposta. “Tem mais gente falando mal do que bem, porque quem gostaria de defender não tem argumentos porque o governo não os fornece. Nos grupos pró-Bolsonaro que continuamos monitorando, essa discussão ainda não entrou com força. São grupos mais alinhados com a pauta de costumes”.

Além do próprio esforço, considerado indispensável, Bolsonaro também pode contar com a ajuda de setores patronais que já organizam mobilização em defesa da PEC nas redes sociais. O ingresso deste grupo na guerra de narrativas dá munição ao governo.

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