De olho em 2018

“Qualquer calma no mercado brasileiro pode ser apenas temporária”, diz editorial do FT

Para o jornal britânico,  Brasil precisa de 'mãos políticas limpas', mas tranquilidade do mercado em meio à turbulência política pode ser um tanto otimista

SÃO PAULO – Em editorial, o jornal britânico Financial Times falou sobre a crise política nacional e afirmou que o Brasil precisa de “mãos políticas limpas” para avançar em reformas como a trabalhista e a da Previdência. 

De acordo com o FT, quando o Congresso votou pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016, os investidores acataram a tese de que as políticas populistas adotadas por ela haviam derrubado a economia e que a saída da presidente restauraria a confiança, reverteria a recessão que já durava dois anos e daria fim a uma longa baixa nos mercados. “Os acontecimentos subsequentes provaram que a tese procedia – até este mês, quando o substituto de Dilma, o presidente Michel Temer, se viu engolfado em um escândalo depois de ter gravada uma conversa na qual supostamente aprovava propinas para o ex-presidente da Câmara (atualmente preso) Eduardo Cunha”, ressalta a publicação.

Segundo o jornal britânico, “ninguém acreditava que Temer fosse santo”. “Antes mesmo de assumir, o presidente era visto como um operador de bastidores, maculado pela vasta investigação de corrupção da Lava Jato. No início de sua presidência, três ministros foram forçados a sair. Mesmo assim, mesmo que seu governo fosse não menos corrupto que o de Dilma, era mais competente e desfrutava de apoio no Congresso. A ortodoxia econômica começou a retornar”, aponta a publicação, destacando que reformas difíceis avançaram no Congresso, enquanto a inflação em queda permitiu queda de juros. Além disso, a despeito dos baixos índices de aprovação a presidente, a confiança dos empresários estava em alta.

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Porém, agora, a possibilidade real de que Temer também seja forçado a deixar o posto colocou a tese em dúvida após a eclosão da última crise política. “As provas contra ele não são conclusivas. Sua posição é melhor que a de Dilma um ano atrás. A elite política e econômica que sustentou a recuperação depende de suas reformas. Sua coalizão está se desfazendo mas ainda não entrou em colapso; um motivo é que não há substituto claro para Temer. Dilma pelo menos tinha um vice-presidente ávido por ocupar seu lugar”, aponta a publicação.

Porém, o presidente está perdendo apoio rapidamente – no Congresso, nas ruas e talvez no Judiciário, diz o jornal, com o “Temergate” travando as reformas. Neste cenário, o FT aponta que ele seguir na presidência pode se provar mais causa do que solução para a crise.

“Pode ser que até Temer encare a situação do mesmo jeito”, diz o FT, em meio a rumores de que ele estaria em busca de um perdão, como o que Richard Nixon negociou com Gerald Ford, antes de renunciar. Outra alternativa é a cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer pelo TSE. “Qualquer dos dois percursos envolveria a substituição de Temer por um presidente interino eleito pelo Congresso. O Brasil então cambalearia até as eleições presidenciais marcadas para 2018”, afirma a publicação.

Segundo o jornal, ter dois presidentes derrubados em dois anos seria notável. Porém, os mercados estão resilientes. “Depois de uma onda inicial de vendas, a calma retornou. Na segunda-feira passada, a estatal brasileira de energia Petrobras emitiu US$ 4 bilhões em títulos, com a mais baixa taxa média oferecida pela empresa em quatro anos. O mercado de ações se estabilizou, assim como a moeda. O cálculo dos investidores é que quem quer que substitua Temer ‘não terá escolha’ a não ser continuar com as reformas. Quanto mais cedo ele cair, melhor”, afirma a publicação.

Porém, ressalta, essa pode ser uma visão otimista. Sim, o Brasil não está diante de uma crise financeira iminente e o investimento estrangeiro continua elevado. ” Mesmo assim, a probabilidade de uma recessão de duplo mergulho cresceu. Politicamente, o futuro está em aberto. O expurgo de políticos corruptos, de todo o espectro ideológico, é necessário. E os escândalos abalaram a reputação de todos os políticos. A percepção popular é a de que há uma elite mais interessada em escapar da cadeia do que em governar. É uma estrada perigosa que pode abrir caminho a oportunistas e populistas em 2018. Qualquer calma no mercado pode ser apenas temporária”, conclui.