Operação Lava Jato

Quais são os efeitos do cerco da Lava Jato a Eduardo Cunha e ao PMDB?

Para o cientista político e professor Carlos Melo, o episódio tem potencial para provocar uma piora ainda maior do ponto de vista da opinião pública, mas os efeitos políticos ainda podem ser reduzidos

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SÃO PAULO – A nova fase da Operação Lava Jato levou a Polícia Federal às residências do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), dos ministros Celso Pansera (Ciência e Tecnologia) – reconhecido aliado do peemedebista – e Henrique Eduardo Alves (Turismo), além de uma série de outros políticos, entre os quais se destacam o líder do PP, deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), o senador e ex-ministro de Minas e Energia Edison Lobão (PMDB-MA) e o senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE). Novamente, as movimentações da Polícia Federal embaralham as cartas do jogo político e trazem mais incertezas aos agentes econômicos. Quais são os efeitos do episódio sobre o andamento do impeachment da presidente Dilma Rousseff? E o PMDB, que teve sete políticos envolvidos, como fica?

Dentre os 17 alvos da ação batizada de Catilinárias, é Eduardo Cunha quem atrai maior atenção. Conforme noticiou a imprensa, ao menos 12 policiais e três viaturas foram deslocados para a residência do deputado em Brasília. O cerco ocorre em um momento delicado para Cunha, que tenta evitar a admissibilidade de um processo de possível quebra de decoro no Conselho de Ética da Câmara. O parlamentar é acusado de mentir durante depoimento à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras, quando disse não manter contas na Suíça. Em julho, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, já havia apresentado denuncia contra ele frente ao Supremo Tribunal Federal, por suposto recebimento de propina e possíveis chantagens relacionadas com escândalos na Petrobras.

No Conselho de Ética, Cunha já conseguiu que seis sessões fossem adiadas e que o então relator, Fausto Pinato (PRB-SP), fosse afastado, com o argumento de que seu partido fez parte do mesmo bloco que o PMDB durante a primeira semana desta legislatura. O texto de Pinato acabou não sendo votado pelos membros do colegiado e, com o impasse, foi preciso um novo relator: Marcos Rogério (PDT-RO) assumiu o posto enquanto o PRB entrou com ação contra a decisão do vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA) – autor do novo recurso a favor de Cunha – no Supremo.

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A nova ofensiva que teve Cunha como um dos alvos ainda tem efeitos desconhecidos. Para o cientista político e professor do Insper Carlos Melo, a situação do presidente da Câmara fica ainda mais complicada do ponto de vista da opinião pública. No entanto, ele já mostrou não ter grandes problemas com relação a isso, bem como seus guardiões no Conselho de Ética. “Ele tem uma tropa de choque que não tem qualquer problema de reputação. Por isso, agir novamente no sentido de atrasar o processo não seria um problema”, disse. Na avaliação do especialista, o que sustenta o carioca hoje é o cargo que ocupa e sua tropa de choque. Os efeitos políticos da nova ação da PF, portanto, ainda seriam desconhecidos sobre o enfraquecimento de Cunha na casa.

De todo modo, os efeitos ainda mais nocivos à imagem já maculada do parlamentar frente aos cidadãos pressiona a oposição, à qual era atribuída alguma negociação com Cunha em prol do impeachment de Dilma. Conforme contou o jornalista Lauro Jardim, haveria uma articulação em curso entre a oposição e Eduardo Cunha, que consistiria na saída do peemedebista do comando da casa em troca de não ser cassado. Com isso, o processo do impeachment poderia ganhar maior viabilidade, na visão de grupos que defendem a saída da petista. Tais negociações, se de fato ocorreram, devem ficar em stand by.

Para Melo, ainda seria cedo para chegar a tal constatação com tão poucas certezas. De todo modo, ele acredita que o afastamento do peemedebista da presidência da Câmara traria menos confusão ao processo – o que pode ser positivo para a oposição. “A possível saída de Cunha diminui a confusão que gira em torno da questão do impeachment”, argumentou. Se o fator Cunha não for resolvido, o impeachment pode correr o risco de não avançar – o que não garante que ele avançará caso o presidente da casa caia.