Análise

Quais são os efeitos da deflagração do impeachment? Confira a opinião de 9 especialistas

Analistas políticos ainda veem cenário bastante nebuloso e improbabilidade de que Dilma venha a cair mesmo; enquanto isso, ajuste fiscal vai ser postergado

SÃO PAULO – Após meses de suspense, finalmente o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciou a deflagração do pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. O mercado reage positivamente com a notícia de que a presidente, que enfrenta uma forte crise política e também econômica, possa sair do poder, o que poderia dar lugar para alguém com mais liderança política para conduzir o cenário bastante desafiador (e que deve se tornar mais ainda daqui para frente). 

Mas qual é a avaliação de analistas políticos e economistas após Cunha decidir acatar o processo de impeachment contra Dilma? De maneira geral, o que se vê pela frente é um cenário nebuloso, mas que o presidente da Câmara acatar o pedido não significa que as chances de impedimento aumentaram. Aliás, para alguns, como a Eurasia por exemplo, até dão viés de baixa para o impeachment.

No campo econômico, esse pedido representa mais um golpe para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, já que, mais uma vez, o ajuste fiscal e as medidas para a economia vão ficar em segundo plano, já que os esforços do governo se concentrarão em debelar o avanço do processo. A palavra-chave voltou: volatilidade deve ser a palavra de ordem novamente nos mercados, conforme destaca o Credit Suisse. Confira abaixo as opiniões do mercado sobre a aceitação do pedido de impeachment:

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Eurasia
A consultoria de risco político Eurasia destaca que o processo dificilmente será bem-sucedido porque falta alinhamento entre os principais partidos do Congresso e, mesmo que o impeachment ganhe novos adeptos, a ala pró- impeachment está longe dos dois terços necessários para aprovar a moção no plenário. A Eurasia mantém 40% de probabilidade de que Dilma não termina mandato, mas podendo revisar para baixo as chances. 

Aliás, a Eurasia avalia que Dilma pode até ter se beneficiado dele ter acontecido agora. “Dilma pode se beneficiar indiretamente de enfrentar um processo de impeachment antes que o pior das investigações da Operação Lava Jato surja e antes do aprofundamento da recessão econômica”, afirmam os analistas políticos da consultoria.

Quem sai prejudicado nesse cenário de turbulência é o ajuste fiscal, que será colocado em espera. Com o imperativo de ter de lutar de sua sobrevivência política, o governo terá menos espaço para defender novas medidas para manter os gastos sob controle por enquanto, afirma a consultoria. Porém, dizem os analistas, felizmente para a administração, uma sessão conjunta do Congresso aprovou ontem a revisão da meta fiscal de 2015, antecipando uma paralisação do governo neste ano. 

MCM Consultores
Em entrevista ao InfoMoney, o analista político da MCM Consultores Ricardo Ribeiro destacou que o fato do presidente da Câmara conduzir o processo dificulta politicamente o impeachment. Cunha não deve sobreviver ao processo, devendo até sair antes da presidente.

O governo conseguiu, após a recente reforma ministerial, formar uma maioria que impede a oposição de reunir os votos necessários para brecar o impedimento, afirma a MCM. A situação pode se alterar até fevereiro ou março quando, provavelmente, se o processo não for interrompido antes, o impeachment chegará à etapa final na Câmara dos Deputados.

Porém, dois fatores podem alterar o quadro e aumentar as chances do impeachment: em primeiro lugar, a piora da recessão econômica, que pode aquecer a temperatura social do país e mobilizar a população em protestos de massa a favor do impeachment. Em segundo lugar é uma questão de ordem política. “O risco para o governo é a Lava Jato produzir evidências contra a presidente Dilma e, assim, ampliar o apoio da sociedade à cassação da presidente. Sem o apoio da sociedade, o impeachment não prospera”, afirma o analista. Ribeiro também reforça que esse pedido deve aumentar as mobilizações e os protestos de rua, tanto dos defensores do impeachment quanto os que estão contra ele. 

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Barclays
De acordo com o economista do Barclays, Bruno Rovai, a d
ecisão de abertura de processo de impeachment coloca a relação entre Executivo e Legislativo em posição bastante prejudicial. Para o Barclays, o evento vai trazer ainda mais volatilidade e incerteza, ao invés de aliviar as preocupações do mercado.

Além disso, a proximidade do recesso de final do ano, legitimidade do processo e possível recurso junto do STF são fatores que tornam difícil de prever se processo de impeachment será aprovado na Câmara dos Deputados. Assim, o efeito sobre perspectiva fiscal é provavelmente negativo, pois a agenda política deixará muito pouco espaço para a discussão e votação de medidas fiscais e de ajuste do orçamento no próximo ano.

Nomura
Para o analista da Nomura, João Pedro Ribeiro, uma das mais importantes consequências do início do processo de impeachment é provável falta de avanços nas medidas de ajuste fiscal. 

“O governo foi capaz de conquistar pequenas vitórias no Congresso, mas medidas futuras, porém, devem ser improváveis já que o ambiente político será consumido pelas conversas sobre impeachment”.

 “Isso traz potencial de servir de gatilho para downgrades adicionais do rating de crédito, uma vez que a preocupante questão fiscal ficará no banco de trás por um período indeterminado”, afirma, destacando: “ainda que situação seja claramente fluida, há, na nossa opinião, forte chance de presidente Dilma sobreviver ao processo de impeachment”.

Capital Economics
Para o economista-chefe da Capital Economics, Neil Shearing, quase todos os resultados concebíveis seriam melhores do que a “atual bagunça política em Brasília”. 

Para ele, a decisão de Cunha não foi nenhuma surpresa, há diferenças entre abrir um processo de impeachment e de fato remover a presidente e, para ele, a sensação é que Dilma reunirá votos suficientes para afastar ameaça. “Mesmo que Dilma seja afastada do cargo, não está claro que isso teria impacto necessariamente negativo no mercado”, afirmou.

Control Risks
Em entrevista para a Bloomberg, o diretor associado da consultoria de risco político Control Risks Thomaz Favaro afirmou que todos os indícios sugerem que a base do governo possui hoje o quórum necessário para barrar o impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, ainda que por uma margem bastante apertada. “N
o entanto, a coalizão governista está bastante fragilizada e os posicionamentos podem mudar até o dia da votação, que pode demorar meses”, afirmou. 

 “O fato do impeachment ter começado a partir de uma chantagem por parte de Eduardo Cunha favorece a posição do governo, mas a rápida deterioração econômica, o escândalo de corrupção na Petrobras e a fraca liderança exercida pela presidente Dilma Rousseff influenciam na direção contrária”, afirma. “O processo de impeachment adiciona mais incerteza aos cenários político e econômico, piorando ainda mais o ambiente de negócios no próximo ano”, destacou. 

IHS
Para o analista sênior da consultoria de risco IHS Carlos Caiedo, a piora da crise política no Brasil, deflagrada pelo processo de impeachment aceito pelo presidente da Câmara dos Deputados afetará a estratégia fiscal do governo.

Em entrevista à Bloomberg, ele afirma que as medidas de austeridade serão a primeira vítima da deterioração da crise política, já que a presidente Dilma Rousseff terá de priorizar sua sobrevivência política. “No entanto, os grupos no Congresso pressionando pelo impeachment de Dilma estão mais fracos agora do que em outubro, quando se aliaram a Eduardo Cunha para tirá-la do poder”, afirmou. 

Credit Suisse
O Credit Suisse ressalta que todo o processo será marcado por intensas disputas legais e constantes questionamentos sobre o procedimento a ser adotado para o processo. Este fluxo de eventos deve aprofundar a crise política, em um ambiente de extrema incerteza. E há duas consequências no curto prazo, segundo o Credit: o encurtamento da permanência de Cunha na presidência da Câmara e, possivelmente, seu mandato como deputado federal, além do processo de ajuste fiscal ser prejudicado. 

Pedro Costa Júnior
Tudo ainda é imprevisível. Para Pedro Costa Júnior, analista político e professor de Relações Internacionais e Economia das Faculdades de Campinas (FACAMP), Faculdades Integradas Rio Branco e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o cenário não é propício para apostas. O especialista, porém, desenha duas grandes forças que deverão pesar sobre a guerra política que se instalou em Brasília – termo, inclusive, presente nos discursos de governistas e opositores ontem.

De um lado, é preciso ter em mente as dificuldades de a oposição conseguir apoio de 2/3 na Câmara para afastá-la temporariamente Dilma, e no Senado para finalizar o processo. Do outro, a pressão popular deve crescer, assim como toda a repercussão midiática que o assunto terá ao longo dos próximos dias. Ele espera discurso forte e as maiores manifestações contra a presidente já feitas. Nas redes sociais, a o radicalismo se acentuará, com as ruas sendo tomadas.

Para que o processo seja minimamente compreendido neste momento de poucas certezas, Costa Júnior chama atenção para alguns personagens decisivos. Seriam eles: o ex-presidente Lula; o atual vice-presidente e presidente do PMDB, Michel Temer; e o presidente do Senado Federal e Congresso Nacional, Renan Calheiros (PMDB-AL). Quanto a Eduardo Cunha (PMDB-RJ), as expectativas são de abandono por governo e oposição, em um momento delicado de briga pelo mandato parlamentar.

Do lado de Lula e do PT, é preciso ver qual será a reação. “A base do governo está fragilizada e se sente traída. O PT hoje está perdido. Eles estão acuados Não dá para saber até que pondo o presidente Lula está lendo isso com discernimento”, disse. Na avaliação do professor, vai ser difícil obter êxito em eventual convocação de eleitores, militantes e movimentos sociais para as ruas. Ainda há quem acredite que o impeachment possa ser um bom negócio para o ex-presidente, na medida em que assume o comando da oposição até 2018, faz uso da conjuntura adversa e de um discurso que critica “golpismos” – sobretudo levando em consideração os questionamentos sobre a legitimidade de Cunha em conduzir o processo. De todo modo, ainda não há indícios claros que apontem para tal hipótese. Apoiar Dilma nesse momento ainda pode ser uma opção a se considerar no momento.

A figura mais ambígua no momento é Michel Temer, que opera nos bastidores para costurar acordos para o caso de ele assumir o poder. Ele não esteve presente durante o discurso de Dilma na noite de ontem, quando 11 ministros a acompanhavam e teria sido informado previamente pelo próprio Cunha sobre a deflagração do pedido assinado por Hélio Bicudo, Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior. Intimamente ligado à compreensão do comportamento do presidente peemedebista está a posição que Renan Calheiro deverá apresentar nesse processo. Antes lido como o fiel da balança do governo, o alagoano pode ser o fiador que Temer precisa.

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