Quais os motivos por trás da reação otimista do mercado às novas medidas do G-20?

De certa forma, a reunião não surpreende, mas é sim positiva; "reversão em hipótese alguma", um alerta a reações exacerbadas

SÃO PAULO – A impressão dos mercados sobre o encontro do G-20 está escancarada na disparada de bolsas e commodities. Os líderes também se referiram ao encontro como um marco, para Obama, “ponto de inflexão” para a recuperação da economia. Mas quais os reais motivos para tanto otimismo?

“Acho que o G-20 não teve efeitos por si, ele canalizou uma vontade dos mercados de se ajustar para cima, de resolver um pouco o excesso de pessimismo”, pontua Frederico Turolla, professor do Departamento de Economia da ESPM.

De fato, o momento da reunião representa viés. Os mercados tentam estender uma onda de otimismo que já rende recordes importantes para a renda variável, um rali positivo que perdura desde o início do mês passado. Na esteira deste período de euforia, a bolsa brasileira chegou no maior patamar dos últimos seis meses no fechamento da quinta-feira (2).

Surpreendente não, mas positiva

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A interpretação positiva vai ao encontro da série de novidades anunciadas. “As medidas não são surpreendentes, são positivas. A declaração dada no final da reunião mostra um grande grau de consenso entre países desenvolvidos e em desenvolvimento”, destaca Eduardo Matias, sócio da L.O. Baptista Advogados Associados e doutor em direito internacional.

“Acho que atenderam a todas as expectativas, menos as mais exageradas, e até superaram algumas, como em relação a valores”, lembra Matias. Na véspera já havia a informação sobre o US$ 1,1 trilhão destinado ao FMI (Fundo Monetário Internacional), o que desassocia um pouco a reação da bolsa a um caráter de surpresa.

O fato das medidas apontarem para diversos ângulos também ajuda. Por aqui, boa parte do salto do Ibovespa se deve à participação das commodities. Nesta frente, destaque para os US$ 250 bilhões destinados ao financiamento do comércio internacional, evento que atua sobre a esperança de recuperação da demanda pelas matérias-primas.

Reversão? “Em hipótese alguma”

Mas apesar de todo o otimismo demonstrado por mercados e líderes, restam algumas pendências. “As medidas criam um colchão útil para países emergentes. Mas isso não significa em hipótese alguma reversão da crise ou uma garantia de que não vão ocorrer algumas ondas de volatilidade daqui para frente. Eu particularmente esperaria ondas de volatilidade principalmente no segundo semestre deste ano”, comenta o professor da ESPM.

A opinião de Frederico Turolla vem pautada na ideia de que as medidas apenas suavizam, não resolvem completamente o problema. “Acho que a grande discussão de fundo é a solvência de países desenvolvidos”. As próprias medidas anunciadas, se analisadas mais a fundo, podem se tornar incompatíveis. Aportes e estímulos fiscais agressivos parecem complementares, mas “podem colocar em risco a solvência soberana de várias economias”.

FMI na liderança

Uma novidade interessante do encontro é que o FMI parece ter assumido de vez um papel central no controle da crise. A questão pedia por um órgão de abrangência global, afinal, uma crise global demanda comprometimento global.

“Existem duas conclusões nesta história toda. Primeiro, é que os países percebem que não tem como tratar problemas globais se não for por meio da cooperação internacional. Segundo, é que existe a necessidade do Estado voltar a assumir um papel mais de indutor de regulador que ele havia deixado de lado”, define Eduardo Matias.

Com a necessidade à frente, foi o nome que apareceu imediatamente. “O FMI ficou um período em descrédito pela prosperidade mundial; não emprestava mais dinheiro, com isso não tinha mais recursos e começou a ter problemas até para se manter como instituição. Agora, com essa necessidade de um órgão global, ele aparece com papel reforçado”, completa Matias.

Reações às vezes exacerbadas

Da importante reunião de Londres, o saldo é mais uma infinidade de medidas, uma reação muito boa do mercado e comentários que sugerem a posição brasileira fortalecida lá fora – para ambos especialistas, mais influência política que econômica.

A efetividade das medidas será testada com o tempo, que dirá se o otimismo desta quinta-feira foi de bom tamanho. Um bom teste é o Employment Report, que sai na próxima sessão.

“Acho que, daqui para frente, como tem acontecido nos últimos meses, cada indicador tem uma dinâmica própria e leva a reações muitas vezes exacerbadas do mercado. Tem acontecido com frequência”, finaliza Turolla.