Entrevista exclusiva

PT está decepcionado, mas não haverá rompimento com Dilma, diz Gleisi Hoffmann

Em entrevista ao InfoMoney, a ex-ministra da Casa Civil do primeiro governo Dilma fala sobre o atual momento das relações entre PT e governo e explica o que ocorreu naquela emblemática votação sobre a exploração do pré-sal

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SÃO PAULO – A aprovação no Senado do projeto que desobriga a Petrobras (PETR3; PETR4) a participar da exploração de todos os campos do pré-sal só foi possível por conta do atual momento de fragilidade política da estatal. A afirmação é da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), ministra da Casa Civil durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Em entrevista ao InfoMoney, a parlamentar mostrou preocupação com o avanço do projeto de autoria de José Serra (PSDB-SP) e manifestou contrariedade ao acordo costurado nos instantes finais entre oposição e governo durante sessão plenária ocorrida na quarta-feira passada.

“A explicação do ministro [Ricardo] Berzoini é que o projeto iria ser aprovado de qualquer sorte e que o governo agiu para reduzir danos. Respeito isso, mas avalio que não deveríamos ter cedido nesse caso. Acho que, se não tivesse vindo um acordo do governo da forma como veio, principalmente pelo [esforço do] senador [Romero] Jucá (PMDB-RR), teríamos ganhado a votação”, afirmou Gleisi em conversa por telefone. A senadora justifica que, na votação ocorrida no dia anterior, sobre a retirada da urgência do projeto, a derrota havia sido apertada, por 33 votos a 31, placar que poderia ser revertido na deliberação sobre o texto.

À versão que foi enviada à Câmara, o Planalto conseguiu que fosse incluído como forma de ‘reduzir danos’ do indigesto projeto um artigo prevendo o princípio de prioridade, que garante à Petrobras o direito de preferência nas licitações do pré-sal. Antes que qualquer leilão seja realizado, a estatal poderá decidir se aceita ou não explorar o campo oferecido. Em caso de recusa, a posição precisa ser avalizada pela presidente, que poderá alegar interesse nacional e colocar a companhia no comando das operações.

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O acordo de última hora não foi acatado pela bancada petista na casa, que votou em bloco pela reprovação do projeto. Recém-nomeado líder do governo no Senado, Humberto Costa (PT-PE) se disse frustrado com o resultado e teve de se abster, em vista à impossibilidade de manifestação contrária. Muitos atribuíram ao episódio a continuidade de uma piora das relações entre Dilma e o partido que a elegeu, que tomou corpo no começo da semana, com a prisão do marqueteiro João Santana. No final da semana, a ausência da presidente no aniversário do partido ampliou a percepção de que o clima pode estar pesado. A saída de José Eduardo Cardozo — pedida há tempos por alguns grupos internos da sigla, sendo o de Lula um dos mais citados, porém ofensiva negada pelo presidente Rui Falcão — e as manifestações do ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, contribuíram para uma trégua temporária, mas não indicam o fim do incômodo petista em pautas como a do pré-sal.

“Acho ruim o que aconteceu, no momento em que aconteceu. Acredito que só foi possível fazer isso porque a companhia está fragilizada — não financeiramente, mas politicamente. A dívida da Petrobras, o problema financeiro é administrável, não é algo insolúvel. Ela tem condições de gerar caixa, de ter recursos, resultados operacionais, ativos que podem ser mobilizados. A atenção foi muito grande para votar [o projeto] nesse momento em que talvez a reação da sociedade fosse menor, por conta da debilidade política da Petrobras em relação às operações que estão aí. Mas acho que foi um grande equívoco para o Brasil como estratégia de gestão de riquezas”, lamentou Gleisi.

Como consequência de uma possível sanção do projeto de autoria de Serra, a senadora teme a diluição da participação da Petrobras sobre as operações no pré-sal e uma consequente perda de importância no cenário petrolífero mundial. Ela critica a celeridade da discussão e o momento que o segmento atravessa, pouco propício para novas empreitadas por parte das grandes empresas estrangeiras. “Se agilizar [os leilões], vamos ter que depender de insumos e cadeia produtiva internacional. Isso vai interessar mais as grandes empresas. Foi muito ruim para a Petrobras o que aconteceu. A interesse de quem? Não é um dinheiro que entra rápido no país. O Brasil tem uma reserva de 14 anos e meio de petróleo, não precisa desse apavoramento. Corremos o risco da doença holandesa, fazendo tudo com pressa e não internalizando riqueza”, observou.

Ministra da Casa Civil entre 2011 e 2014, a petista enxerga papel decisivo do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), na aprovação do projeto na casa. O experiente parlamentar fez da pauta sua agenda pessoal e dialogou intensamente com colegas para que pudesse construir o apoio necessário ao êxito do texto. “O governo teve de mediar com sua base. Renan é um dos maiores apoiadores do governo aqui, que dá condições para a gente tocar os interesses do governo no Congresso. Com certeza esse peso e influência foram fundamentais para o acordo ter acontecido”, afirmou a senadora.

De um lado, faz-se um aceno para Renan, enquanto de outro gera-se insatisfação da bancada petista. No entanto, o movimento não indica um futuro rompimento da sigla com a presidente, avalia Gleisi. “Eu não diria que não existe tensão. Obviamente que essa situação da votação do pré-sal tensionou mais a relação, mas não é uma tensão de rompimento. É natural. Não é a primeira vez [que isso ocorre]. A bancada pode discordar do governo em alguns temas”, ponderou a ex-ministra. “Há, por parte do PT, uma decepção muito grande em relação a essa matéria, que sempre foi muito cara para o partido e fez parte das nossas intervenções programáticas e mesmo do posicionamento firme da presidenta. Mas não é algo que leve a um processo de rompimento. O governo da presidenta Dilma é um governo do PT também, é o nosso governo. E é um governo de coalizão, não é um governo só do PT. O PT também disputa suas posições no interior desse governo”, concluiu a senadora.

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