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Professor da Unicamp lança aplicativo que identifica fraudes em urnas eletrônicas

Por meio de financiamento coletivo, Diego Aranha conseguiu a verba para lançar o "Você Fiscal"; iniciativa partiu após ele concluir por testes que as urnas eletrônicas não são seguras

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Agência Brasil

SÃO PAULO – O Brasil é um dos poucos países que utiliza exclusivamente a urna eletrônica para a realização e apuração de votos nas eleições. Comparado ao voto em papel, o método brasileiro realmente é mais seguro, mas será que ele realmente consegue evitar fraudes e manipulação de votos? Foi pensando nisso que o professor da Unicamp, Diego Aranha, teve a ideia de criar o aplicativo Você Fiscal.

Pelo programa, a população pode ajudar a realizar uma apuração independente dos votos, tentando assim tentar detectar algum tipo de fraude em relação a quantidade de votos em cada distrito. “Não podemos comprovar com certeza a fraude por esse aplicativo, mas caso ocorra algum desvio da urna entre o colégio eleitoral e o local de apuração ou mesmo uma mudança na quantidade de votos em determinada urna, será possível perceber”, afirmou Aranha em entrevista ao InfoMoney.

O professor iniciou uma campanha no Catarse – site de financiamento coletivo – para arrecadar o dinheiro necessário para produção do aplicativo. Ele pretendia arrecadar R$ 30 mil para que o projeto pudesse ser viabilizado e conseguiu tal quantia em apenas 6 dias – até o dia 6 de agosto foram arrecadados R$ 45.095. “A ideia original projetava o lançamento apenas para o sistema Android, mas com uma arrecadação maior é possível conseguir lançar o aplicativo para o IOS [sistema do iPhone] também”, explica Aranha.

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Para quem quiser apoiar a campanha, a “vaquinha virtual” segue até o dia 21 de agosto, girando em doações entre R$ 20 e R$ 5.000 – em troca os participantes podem ter seu nome no aplicativo, ganhar livros e camisetas, ou até uma palestra e um curso com o professor, tudo dependendo do valor aplicado. O lançamento do aplicativo está previsto para o período entre 15 e 20 de setembro.

“Até setembro faremos todos os testes, iniciaremos uma campanha de marketing para que quando o aplicativo estiver disponível o máximo de pessoas baixem”, completa.

Como funciona
Como explica a página do aplicativo no Catarse, a ideia central do aplicativo está no BU (Boletim de Urna). O BU é o “saldo” que toda urna imprime no final da votação, com os totais de votos para cada candidato naquela urna, sendo que é obrigatória a afixação deste relatório em local público assim que a votação terminar.

O funcionamento é simples: pelo aplicativo, o eleitor tira foto do Boletim de Urna após o encerramento da eleição e envia para o sistema. Com isso, os computadores do Você Fiscal calculam por amostragem um resultado independente e comparam com os números oficiais do TSE.

Depois da eleição, o TSE publica não apenas o resultado final, mas também a versão oficial dos Boletins de Urna de todas as seções eleitorais. Com isso, o Você Fiscal consegue comparar a foto que foi tirada com a versão oficial do BU e ver se elas batem. “Se a urna for extraviada, trocada ou adulterada depois do fim da votação, o sistema irá detectar”, diz Aranha.

Tendo um número suficiente de usuários (que depende da distância entre os candidatos no resultado oficial), o Você Fiscal consegue estimar um resultado independente e compará-lo ao oficial. Caso ocorra um bug ou fraude no software que roda nos computadores do TSE para somar o resultado final, o aplicativo irá detectar.

Objetivo maior
A ideia do aplicativo surgiu após testes realizados em 2012 com algumas urnas eletrônicas. A equipe de Aranha conseguiu com facilidade quebrar o sigilo dos votos registrados na máquina, mas sobre um ataque voltado para manipulação os testes acabaram sendo inconclusivos. “O TSE nos deu apenas 3 dias para realizarmos os testes, o que é muito pouco. Mesmo assim conseguimos provar que as urnas não são seguras”, disse o professor.

Segundo ele, o TSE afirmou que iria corrigir as falhas detectadas nos testes, mas não permitiu e nem realizou novos testes públicos sobre o equipamento. “O TSE sempre realiza testes em ano de eleição, mas em 2014, sem explicação, não teremos nenhum teste nas urnas que serão utilizadas”, explica.

Aranha termina dizendo que o aplicativo serve mais do que apenas para fiscalizar. “Será que se conseguirmos detectar alguma fraude ou algum erro na contagem, a população terá meios e poderes para conseguir instaurar uma investigação ou pedir uma análise dos dados?”, questiona o professor. “O aplicativo serve para fazer as pessoas pensarem, para que todos tenham ideias e busquem melhorar a fiscalização e evitar fraudes nas eleições. Precisamos lutar pelos nossos direitos”, conclui.