Prisão de Strauss-Kahn pode trazer impactos à economia mundial, segundo analistas

Credibilidade do FMI, eleições na França e negociações envolvendo países endividados da Europa são alguns dos possíveis prejudicados

SÃO PAULO – No último sábado (14), Dominique Strauss-Kahn, 62 anos e diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), foi preso em Nova York acusado de abusar sexualmente uma camareira de 32 anos que trabalha no hotel em que ele estava hospedado em Nova York. Apesar do teor da notícia ser digno de publicações de revistas de fofoca ou tablóides sensacionalistas, ela pode vir a trazer consequências em diversas vertentes da economia global, acreditam os analistas.

Em artigo publicado nesta segunda-feira (16), o CEO (Chief Executive Officer) da Pimco, Mohamed El-Erian, disse que, mais do que a deterioração da própria imagem de Strauss-Kahn, a prisão do diretor do FMI pode colocar em xeque a credibilidade da instituição, o que pode dificultar as negociações de âmbito fiscal envolvendo alguns países da Europa. Ele lembra ainda dos possíveis efeitos na disputa presidencial na França, visto que Strauss-Kahn era tido como o principal adversário do atual presidente do país, Nicolas Sarkozy.

“Devemos esperar para fazer uma avaliação completa das investigações policiais em curso. (…) Tendo dito isso, alguns comentaristas já estão tomando o ponto de vista de que o FMI pode perder o seu diretor-gerente e que a França pode perder seu principal candidato para as eleições presidenciais dos próximos anos”, avalia o CEO da maior gestora de títulos públicos do mundo.

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Embora esses impactos mencionados encontram-se ainda no campo da especulação, alguns efeitos negativos já puderam ser sentidos no campo econômico europeu, avalia o economista da Gradual Investimentos, André Perfeito. “No domingo, estava agendada uma reunião com a premier alemã Angela Merkel para tratar da crise grega, que está chegando ao limite do suportável e que deve ter uma resolução em breve”, escreveu em relatório divulgado nesta segunda.

Impacto no FMI…
Sobre o FMI, El-Erain demonstra preocupação acerca do processo de sucessão da direção da instituição caso Strauss-Kahn perca o posto que atualmente lhe pertence – o CEO da Pimco faz questão de ressaltar que, com a queda do atual diretor, seria a 3ª vez consecutiva que o principal responsável pelo FMI deixaria o cargo de forma inesperada.

O processo de escolha do novo chefe do FMI, segundo El-Erain, pode vir de duas maneiras: a indicação de um novo diretor feita por uma pequena cúpula da instituição – esta a forma tradicionalmente adotada – ou a realização de uma eleição aberta e transparente em os 187 membros do Fundo.

Cada um desses casos possuem alguns prós e contras, conforme aponta o CEO da gestora. “O primeiro [método] permite que o Fundo aja rapidamente apontando um novo chefe, mas dessa forma ele usa um método que carece de transparência e credibilidade. O segundo [método] pode corrigir uma deficiência de longa data, mas retarda a nomeação de um substituto”, avalia.

…na França…
Já na França, as preocupações se voltam principalmente para a disputa presidencial do país, visto que Strauss-Kahn era tido como um dos principais adversários de Sarkozy para as eleições. Com o escândalo envolvendo seu nome, essa opção de voto acaba perdendo forças. “DSK [maneira como El-Erain se refere a Dominique Strauss Kahn em seu artigo] era muito aguardado para receber a nomeação do Partido Socialista e partir para a corrida presidencial”, afirma o CEO da gestora.

Com o enfraquecimento da principal frente oposicionista do país, aumenta a possibilidade de que a França passe uma eleição mais polarizada, avalia a Pimco.

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…e na UE
Por fim, El-Erain avalia os possíveis efeitos da saída de Strauss-Kahn no desenrolar das negociações envolvendo os países da União Europeia que enfrentam atualmente sérios problemas de endividamento. É o caso da Grécia, que mostra-se extremamente dependente de uma assistência oficial externa e que tem enfrentado divergências de outros países europeus para receber ajuda do Fundo e do bloco europeu.

“Uma possível saída de DSK do FMI pode tornar a instituição menos entusiasta em estreitar sua relação [com a Grécia], que já tem dado sinais de derrapagens, ineficiência e fadiga geral”, afirma. Dessa forma, El-Erain espera que a União Europeia e o Banco Central Europeu enfrentem extrema dificuldade em manter em curso a estratégia de ajuda aos países endividados do velho continente com a saída de Strauss-Kahn.

“Nesse processo, as incertezas do mercado aumentarão com a probabilidade de reestruturação das dívidas também aumentando nas outras duas economias perfiféricas da Europa que também precisam de largos aportes (Irlanda e Portugal)”, afirma El-Erain.

DSK segue preso, mas FMI o mantém no cargo
O noticiário envolvendo a prisão de Dominique Strauss-Kahn foi o foco nesta segunda-feira. O pedido de fiança feito por seus advogados foi negado nesta sessão e, desta forma, o diretor do FMI permanece preso em Nova York.

Ainda nesta sessão, o FMI realizou uma reunião extraordinária para discutir o caso envolvendo seu atual diretor. Após discutirem sobre o episódio, os membros da instituição optaram por manter Strauss-Kahn à frente da diretoria geral por ora, mas deixou claro que o caso seguirá sob observação. “O FMI e sua diretoria executiva continuarão a monitorar os desdobramentos”, afirma a instituição via comunicado.

Preso desde a tarde do último sábado, quando foi retirado por policiais do avião da Air France que iria de Nova York para Paris, o caso de Strauss-Kahn parece estar longe de sua resolução. Segundo documentos do Tribunal Criminal de Manhattan, o diretor do FMI é alvo de sete acusações e que, caso seja julgado como culpado em todas elas, implicam uma pena máxima de 74 anos e 3 meses de prisão.