Pregões Incríveis: Plano Collor leva Ibovespa ao seu pior pregão na história

Confisco à poupança e outras aplicações enxuga liquidez e sessão seguinte ao anúncio registra menos de dez negócios

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SÃO PAULO – Desde 1968, quando o Ibovespa surgiu, a economia brasileira e a internacional passaram por diversas crises. Choque do petróleo nos anos 70, moratória sobre a dívida externa brasileira nos anos 80, crise asiática nos anos 90, estouro da bolha “ponto com” na virada do milênio e a derrocada da economia norte-americana em 2008 são alguns dos fatos mais marcantes da história econômica recente.

Mas nenhuma dessas crises teve um impacto tão forte em um espaço tão curto de tempo sobre o Ibovespa quanto o Plano Collor, em 1990. No pregão de 21 de março daquele ano, o benchmark da bolsa paulista recuou 22,2%, a maior queda diária de sua história.

Por isso, a série de reportagens da InfoMoney sobre os pregões mais incríveis do Ibovespa volta no tempo para contar como foram os dias seguintes ao anúncio do Plano Collor.

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Inflação ultrapassava os 2.700%
Antes disso, é preciso entender o conturbado momento econômico que o país atravessava. O grande vilão do momento era a inflação, que desde a metade dos anos 1980 marcava forte crescimento.

Para se ter uma ideia, apenas no acumulado de janeiro e fevereiro de 1990, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor), divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), registrava alta de 169,7% nos preços. Em doze meses, o indicador saltava para 2.751,3%.

Na tentativa de conter esse movimento, uma série de planos econômicos – como o Plano Cruzado, de 1986, que levou ao congelamento de preços – foram implantados, mas todos fracassaram. Foi assim que, com a promessa de um plano para debelar a inflação, que Fernando Collor de Mello assumiu o governo, em meio a um feriado bancário de três dias.

O Plano Collor: muito além da poupança
Na manhã de 16 de março, apenas um dia após José Sarney passar a faixa da presidência a Collor, um complexo plano econômico foi apresentado ao Congresso e, mais tarde, anunciado à população pela então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello.

Intitulado inicialmente de Plano Brasil Novo e conhecido na história como Plano Collor, o governo baixou uma série de mais de dez medidas provisórias que prometiam mudar o rumo da economia, a começar pela troca de moedas: a partir de então, o cruzado novo seria substituído pelo cruzeiro, sem cortes de zeros.

Contudo, o fato mais marcante para a memória da população foi o confisco à poupança: de todo o dinheiro depositado nela, apenas 50 mil cruzados novos poderiam ser convertidos em cruzeiros e resgatados, enquanto o restante ficaria bloqueado por 18 meses. Segundo a cotação do dólar comercial na segunda-feira seguinte ao anúncio do plano, os 50 mil cruzados novos equivaleriam cerca de US$ 1.176,30.

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O mesmo vale para o dinheiro em conta corrente, assim como para as aplicações no overnight – investimento que, mais tarde, seria proibido às pessoas físicas e às jurídicas não-financeiras pelo próprio Collor -, sendo que neste último o resgate estava limitado a 25 mil cruzados novos ou 20% do total aplicado.

“O propósito número um de meu governo não é conter a inflação, mas liquidá-la”, dizia Collor na cerimônia de posse. E essas medidas, que deveriam resultar em um ajuste fiscal de 10% do PIB (Produto Interno Bruto), já que o Governo estimava transformar o déficit público de 8% em um superávit de 2%, tinham como objetivo enxugar a liquidez existente no mercado.

Além disso, o plano continha outras partes importantes, como a criação de um programa nacional de privatizações para reduzir a dívida pública e aumentar a competitividade da indústria, o fim dos incentivos fiscais a diversos segmentos da economia, o fim das restrições às importações, a adoção de um câmbio flutuante e, por fim, a ampliação do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) a áreas que não eram taxadas, como os investimentos em ações, ouro e poupança.

Bolsa do Rio de Janeiro sem negociações
Assim, se a intenção era enxugar a liquidez existente, os dias seguintes mostrariam que as medidas realmente tiveram efeito, ao menos no curto prazo. Dessa forma, a incerteza sobre o futuro e a necessidade de resgatar dinheiro para cobrir o montante bloqueado pelo Governo levaram os pregões seguintes a uma série de fatos curiosos.

No pregão de segunda-feira, dia 19, a hoje extinta Bolsa de Valores do Rio de Janeiro não registrou nenhuma negociação. Do mesmo modo, a Bovespa só teria 9 negócios, sendo oito deles com as ações da Paranapanema, cujos papéis se desvalorizaram em 49,7%. Por sua vez, o Ibovespa teve uma queda de 12,1%.

Já na terça-feira, com um número de negócios um pouco mais elevado – foram 36 –, o Ibovespa marcou a sua maior queda diária até então, de 20,9%, superando os reflexos do crash da bolsa de Nova York em outubro de 1987, quando o mercado paulista teve um recuo de 16,1%.

A maior queda diária do Ibovespa
Mas foi o pregão seguinte, de quarta-feira, que entrou para a história como a maior desvalorização diária do índice: 22,2% de baixa, com 142 negócios e um volume financeiro ainda muito baixo, de Cr$ 1,76 milhão. Como base de comparação, o pregão anterior ao anúncio do Plano Collor marcou um volume financeiro de NCz$ 1,33 bilhão, com 4.795 negócios.

As ações de maior peso da carteira – Vale, Petrobras e Paranapanema -, representaram mais de 75% do volume no dia. Entre elas, a Petrobras viu seu valor de mercado despencar 33,3%, enquanto a Paranapanema observou uma queda de 12,5%. A Vale foi a menos prejudicada, com uma retração de 5,5%.

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Esses pregões foram apenas o início de uma tendência negativa que se iniciou desde o Plano Collor, em 16 de março, até meados de abril. Mesmo com o fracasso do plano em liquidar a inflação, o Ibovespa retomou a trajetória de alta e terminou o ano de 1990 com uma valorização acima de 308%. Apesar de à primeira vista parecer um valor muito elevado, vale lembrar que esse desempenho ficou muito abaixo da inflação oficial do período, medida pelo IPC, que foi de 1.764,8%.