Análise

Por que uma aliança entre Joaquim Barbosa e Marina Silva seria muito forte, mas pouco provável?

"Para o segundo turno, se essa chapa chegar, é a favorita contra qualquer outro nome", observa o cientista político Rafael Cortez, responsável pela elaboração do Mapa Político

SÃO PAULO – O bom desempenho eleitoral da ex-senadora Marina Silva (REDE) e do ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa (PSB) alimenta especulações sobre quais seriam os efeitos caso os possíveis candidatos unam forças em torno de uma chapa única. Embora não se trate de operação política simples, cientistas políticos chamam atenção para a competitividade que a dupla ganharia na disputa com o movimento.

Conforme mostrou pesquisa Datafolha divulgada em 15 de abril, Marina Silva e Joaquim Barbosa teriam, somados, algo entre 24% e 25% das intenções de voto nos cenários que desconsideram a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso há duas semanas após condenação em segunda instância pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O mesmo levantamento mostrou que Marina tem 19% das intenções de voto entre os eleitores com renda familiar mensal de até dois salários mínimos. Já Barbosa tem o apoio de 15% dos eleitores com renda familiar mensal entre cinco e dez salários mínimos e com renda superior a dez salários mínimos.

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De um lado, a dupla poderia cativar eleitores insatisfeitos com os nomes tradicionais, sobretudo o discurso de combate à corrupção, reforçado na figura do relator do “mensalão” no STF. Do outro, ambos têm em suas biografias e possíveis acenos à agenda social ativos importantes para conquistar parte do eleitorado que nas últimas eleições votou em candidaturas à esquerda. Com tantos órfãos de Lula, o potencial eleitoral destes candidatos poderia crescer ainda mais. Soma-se a isso o sentimento majoritário de insatisfação com o sistema político e o crescente desejo por renovação.

“Marina Silva e Joaquim Barbosa conversam com eleitores muito parecidos. Então, sem estrutura de campanha para dar suporte para que eles se destaquem, também há risco de um roubar voto do outro e limitar o potencial de crescimento”, observou o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, e analista responsável pela elaboração do Mapa Político, relatório de análise de risco político disponível na Loja de Relatórios InfoMoney. Clique aqui para conhecer o produto.

De acordo com levantamento divulgado pelo site Poder360 no último sábado (21), Marina e Barbosa somam 23% ou 24%, dependendo do cenário considerado. Com esta marca, eles estariam tecnicamente empatados com o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) na liderança da disputa. O parlamentar tem entre 20% e 22% das intenções de voto nos cenários avaliados pela pesquisa.

Como ambos estão bem posicionados nas pesquisas, não é simples que um decida abrir mão da própria candidatura. Da mesma forma, não é simples que o partido aceite tal decisão. Além disso, particularmente no caso do PSB, há resistências de governadores pelo partido a uma candidatura presidencial. Eles desejam maior liberdade para costurar alianças mais favoráveis em seus estados, o que seria dificultado se a sigla lançasse um nome próprio.

No caso de uma possível aliança com Marina Silva, há uma resistência adicional, em função da experiência de 2014, que tornaria bastante improvável que o PSB abrisse mão de lançar um nome para compor chapa com a ex-senadora — o que também amarraria alianças dos governadores que hoje impõem dificuldades a Joaquim Barbosa.

Ainda assim, em termos estratégicos e de viabilidade eleitoral, a improvável composição seria positiva para ambos. “Acredito que uma composição seria o ideal para ambos, em termos de se materializar e ir ao segundo turno. O problema é que coalizão com quem tem tamanho razoável é sempre muito difícil de fazer”, complementou o especialista. Para ele, é pouco provável que um cenário de disputa de segundo turno entre Marina e Barbosa se confirme nesta disputa.

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“Para o segundo turno, se essa chapa chegar, é a favorita contra qualquer outro nome. O problema é chegar lá. É [preciso] encontrar argumento político para dizer que eles têm muita chance juntos, mas um risco grande se separados, quando começar a campanha, com falta de dinheiro, falta de exposição”, projetou Cortez.

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