Imprensa internacional

Por que os estrangeiros deveriam olhar para a eleição no Brasil, segundo a Economist

Política externa não é um dos destaques da agenda dos candidatos - mas muita coisa pode mudar na relação com os vizinhos dependendo de quem for eleito

SÃO PAULO – Assim como a maioria das democracias, os brasileiros não dão tanta atenção para a política externa na escolha de seus líderes, aponta a The Economist. Contudo, para a publicação britânica, o pleito de 26 de outubro não é importante só para o Brasil, mas para os seus vizinhos.

Isso por que, aponta a revista, o Brasil vem aumentando a sua influência nas últimas duas décadas na América Latina, começando por Fernando Henrique Cardoso e seguindo com Luiz Inácio Lula da Silva. E a importância sobre o assunto aumenta agora, afirma a revista, já que há uma clara diferença entre Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, sobre o assunto, assim como na economia.

A The Economist ressalta que tanto FHC quanto Lula deram importância ao bloco comercial do Mercosul (formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), à América do Sul e aos laços com a África e Ásia. 

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Mas também existem diferenças: Lula colocou muito mais ênfase nos laços “sul-sul”e nos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) mais tarde. Na América Latina, destacou a “cooperação política”. As relações com os Estados Unidos eram cordiais, mas distantes, principalmente após Lula tentar intermediar um acordo com o Irã, acordo este que a Casa Branca se opôs. 

Já Dilma tem outro roteiro de Lula. Ela recebeu a Venezuela de Hugo Chávez no Mercosul, que agora, dizem os críticos, diz mais sobre a solidariedade entre os governos de esquerda do que sobre o comércio. Mas o fracasso dessa visão de integração sul-americana foi destacada pela formação da rival Aliança do Pacífico com Chile, Peru, Colômbia e México.

Além disso, Dilma sofreu um revés na sua relação com os Estados Unidos após revelações de Edward Snowden de que os EUA estariam monitorando a presidente e o seu telefone havia sido grampeado.

Geralmente, ela tem pouco interesse em política externa, afirma a revista e, para tentar reverter uma relação ruim em um possível segundo mandato, ela teria como objetivo reagendar uma visita a Washington, cancelada por causa do caso Snowden.

Já Aécio, segundo a revista, quer mudanças maiores e diminuir o isolamento do Brasil. Vale ressaltar que, na semana passada, a publicação destacou o seu apoio ao tucano.

De acordo com a The Economist, ele teria como objetivo não se focar tanto no Mercosul e acelerar as negociações para um acordo comercial com a União Europeia e com a Aliança do Pacífico. Para a revista, haverá uma tentativa de aproximação maior com os países desenvolvidos, mas sem se afastar da África ou da Ásia. Na América Latina, ressalta a revista, seria uma política que tirasse o viés ideológico ao invés de juntar-se a Argentina, Venezuela e Cuba.

“Brasil não vai (e não deve) ser um poodle dos Estados Unidos. Algumas das alterações de Aécio são nuances. Mas são grandes o suficiente para motivar em Caracas, Buenos Aires e Cidade do México alguns temores, assim como em Brasília, em uma disputa acirrada”, conclui a revista.