Entrevista

Por falta de opções, brasileiro sinaliza pequena trégua à classe política

Barômetro Político revela queda expressiva na desaprovação de muitos nomes do 'establishment' político, embora aprovação da maioria se mantenha baixa

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SÃO PAULO – Os brasileiros deram uma pequena trégua ao mundo político e reduziram o nível de desaprovação de alguns dos principais nomes do establishment neste início de ano eleitoral. Pode parecer um tanto inusitado em uma leitura preliminar, mas foi isso que mostrou a mais recente edição do Barômetro Político, estudo realizado mensalmente pela Ipsos Public Affairs, terceira maior empresa de pesquisas do mundo.

De acordo com o levantamento, diversos nomes de todos os gostos, à esquerda e à direita, viram seus índices de desaprovação caírem em janeiro. Para ficar em alguns exemplos, as avaliações negativas em relação ao presidente Michel Temer recuaram para o ainda elevado patamar de 92%, ante 97% registrados em dezembro. A margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais para cima ou para baixo.


Fonte: Barômetro Político – Ipsos (janeiro/2018)

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O mesmo movimento foi observado sobre a figura do ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), cuja desaprovação mergulhou 15 pontos percentuais, para 70%. Ainda assim, os dois continuam como as figuras com maior reprovação dentre as estudadas, sendo a última agora empatada com o senador José Serra (PSDB-SP), cujo índice também apresentou queda significativa — de 78% em dezembro para 70%.

“Normalmente, as pesquisas de janeiro apresentam humor um pouco menos prejudicado por conta das festas de fim de ano, o 13º salário etc. É um otimismo que dura pouco, mas é comum. Isso pode ter afetado um pouco o resultado da pesquisa”, observa o sociólogo Danilo Cersosimo, diretor da Ipsos.

Contudo, na avaliação do especialista a principal hipótese que pode explicar o comportamento ligeiramente mais “generoso” do eleitor em relação aos políticos é outra: “Houve uma espécie de resignação em relação aos nomes que estão aí. Nomes como o de João Doria e Luciano Huck não decolaram, então a sociedade olhou para as opções e deu uma trégua à classe política, até porque um deles vai ser presidente”. Corrobora com tal leitura o crescimento do grupo “não sabe/não conhece o suficiente para opinar” nas avaliações da maior parte dos nomes presentes no estudo. De qualquer forma, o especialista ressalta que é preciso acompanhar as próximas pesquisas para verificar se a tendência se mantém.

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Embora muito se discuta sobre o papel que a figura do “novo” vai exercer nas eleições presidenciais deste ano, Cersosimo mantém ceticismo quanto à disposição de os brasileiros por opções de maior risco. “É muito possível que, no fim das contas, o eleitor adote uma postura conservadora e opte por alguém conhecido, experiente. Não sei se vai querer arriscar”, avalia.

Neste contexto, é curioso o comportamento de Luciano Huck nos Barômetros Político. Em novembro, o levantamento da Ipsos mostrou um crescimento de 17 pontos percentuais na aprovação do apresentador de televisão, o que alavancou especulações em torno de uma possível candidatura presidencial, que acabou posteriormente desmentida pelo próprio Huck em artigo publicado na imprensa. Ainda assim, há quem mantenha apostas no ingresso do outsider na disputa.

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Em janeiro, o apresentador da Rede Globo viu sua avaliação positiva oscilar 1 ponto percentual para baixo, para 56%, e a negativa 2 pontos também para baixo, atingindo os 34%. Huck é o único nome avaliado pelos brasileiros na pesquisa que apresenta um índice de aprovação superior a 50%. Figuras como o ex-ministro Joaquim Barbosa e o juiz federal Sérgio Moro também apresentam boa performance, com as avaliações positivas superando as negativas, mas ainda empatadas pela margem de erro.


Fonte: Barômetro Político – Ipsos (janeiro/2018)

A julgar pelo Barômetro Político, os números de Huck poderiam indicar um candidato extremamente competitivo, que contaria com o apoio de amplas parcelas da população nas urnas. Mas hoje não é bem isso que ocorre. “Só vamos ter clareza sobre seu potencial a partir do momento em que ele se posicionar como candidato à presidência. A partir daí, ele vira vidraça, como aconteceu com [Jair] Bolsonaro. A imagem de Huck se confunde com a de apresentador carismático e demagogo. Essa aprovação hoje não se converte em voto”, explica Cersosimo. O Barômetro Político não é uma pesquisa eleitoral, mas apenas um estudo sobre aprovação e desaprovação de figuras públicas, muitas delas possíveis candidatas à presidência da República ou outros cargos eletivos.

A baixa conversão de aprovação à imagem em votos em eventual disputa eleitoral é constatada na última pesquisa feita pelo instituto Datafolha, divulgada na última quarta-feira (31). Nos dois cenários de primeiro turno que consideram as candidaturas de Lula e Huck, o apresentador de televisão conta com apenas 5% e 6% das intenções de voto. Em situação com o ex-presidente fora da disputa, Huck teria 8% dos votos, empatado com Geraldo Alckmin e tecnicamente com Ciro Gomes (10%), terceiro colocado nesse cenário. Trata-se de patamar significativamente abaixo do índice de aprovação verificado pelo Barômetro, mas elevado para um outsider que ainda não iniciou movimentos de campanha. “Ele é aprovado enquanto figura pública, mas ainda não é visto como candidato”, argumenta Cersosimo.

De um lado, há nomes como Huck, com bons índices de aprovação e baixa conversão em votos. De outro, há candidatos com elevada conversão, mas elevada desaprovação. Esse seria o caso de Jair Bolsonaro. Na avaliação do sociólogo, o deputado possivelmente atingiu seu teto nas últimas pesquisas, o que se confirma em uma observação sobre os cenários eleitorais em que a candidatura de Lula não é considerada. Apesar de manter a liderança na disputa, o ex-capitão do Exército enfrenta dificuldades para crescer e vê seu índice de rejeição em patamar elevado para um candidato de primeira viagem (29%, segundo o último Datafolha).


Fonte: Barômetro Político – Ipsos (janeiro/2018)

Dentre os presidenciáveis, um dos poucos que não apresentaram queda na desaprovação no recente Barômetro Político foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No levantamento feito entre os dias 2 e 11 de janeiro (portanto, antes do julgamento do TRF-4), o líder petista manteve os 54% de avaliação negativa observados no mês anterior, ao passo que sua avaliação positiva oscilou de 45% para 44%. Já a última pesquisa Datafolha mostrou que a confirmação da condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pela segunda instância não abalou as intenções de voto de Lula em um primeiro momento.


Fonte: Barômetro Político – Ipsos (janeiro/2018)

“O fato de ele manter os mesmos índices de voto mostra, além de sua força, a debilidade dos outros nomes. Os nomes com boa aprovação não necessariamente convertem isso em possibilidade de votar. Ou seja, eles não têm imagem de candidatos à presidência”, analisa Cersosimo.

Por outro lado, há quem alerte para a possibilidade de ainda levar mais tempo para Lula sofrer com os efeitos da nova condenação, que elevou o risco de sua candidatura não ser aceita pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), por um enquadramento na Lei da Ficha Limpa. Segundo o último Datafolha, 24% dos entrevistados não tomaram conhecimento do julgamento do ex-presidente, enquanto 9% têm conhecimento e se dizem mal informados e 42% têm conhecimento e afirmam estar mais ou menos informados. Apenas 24% dos eleitores responderam estar bem informados sobre o julgamento do caso do tríplex no Guarujá (SP).

Uma melhor leitura da reação dos brasileiros à condenação de Lula por unanimidade no tribunal gaúcho será possível em fevereiro, quando a Ipsos divulgará um novo Barômetro Político. A aposta de Cersosimo é que o impacto negativo será limitado. Por outro lado, na impossibilidade de o ex-presidente disputar as eleições, sua capacidade de transferência de votos dependerá da conjuntura. A previsível pontuação baixa de possíveis substitutos de Lula na corrida presidencial reforça a importância que o líder petista terá na consolidação de candidaturas alternativas.

“Dependendo da situação em que Lula estiver, não vejo capacidade de transferência de votos a Jaques Wagner, mas mais para outros candidatos. Uma coisa é Lula estar inelegível podendo fazer campanha. Neste caso, as chances de um sucessor aumentam. O cenário de Lula encarcerado, por outro lado, torna a situação mais difícil, porque o candidato será mais desconhecido e carregará consigo a rejeição forte ao PT”, projeta o sociólogo. Para ele, o fato de o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o ex-governador baiano Jaques Wagner — as duas alternativas ventiladas nos bastidores em caso de impedimento de Lula — não serem nomes nacionalmente conhecidos torna a situação mais difícil ao PT.

Como consequência, será mais difícil a consolidação de uma ampla aliança de esquerda em torno de uma única candidatura na ausência de Lula, o que torna a fragmentação de nomes um risco real a esse espectro ideológico. O que não é exclusividade da esquerda. O centro governista também enfrenta problemas enquanto nenhum nome da base consegue alçar voos mais confortáveis nas pesquisas de intenção de voto.

Neste caso, chama atenção a situação do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que é apontado por muitos como um dos principais nomes capazes de representar esse campo e compor com interesses difusos. Contudo, Cersosimo alerta para algumas fragilidades. A desaprovação do tucano no Barômetro Político oscila entre 65% e 75%, enquanto o Datafolha aponta para uma rejeição de 26%, atrás apenas de Michel Temer (60%), Fernando Collor (44%), Lula (40%) e Jair Bolsonaro (29%).

Para o sociólogo, uma reversão para o tucano seria difícil, mas não impossível. Para isso, Aclkmin dependerá de três variáveis relevantes: 1) quanto conseguitá comunicar sua experiência administrativa; 2) quanto conseguirá distanciar-se de menções a corrupção; 3) quanto o PSDB não vai se autofragmentar nesse processo eleitoral.


Fonte: Barômetro Político – Ipsos (janeiro/2018)

Os horizonte eleitoral ainda está marcado pelas incertezas. Com as crescentes dúvidas sobre a presença ou não do candidato que hoje lidera a disputa, o ex-presidente Lula, as especulações sobre qual será o desfecho da corrida mais aberta dos últimos tempos crescem. Mesmo assim, com a atual fotografia, Danilo Cersosimo, que atua há mais de 20 anos em pesquisa social e opinião pública, alerta para um crescente risco de crescimento de votos brancos e nulos, sobretudo na ausência do líder petista. “Vemos uma tendência de absenteísmo muito grande para essas eleições”, prevê o diretor da Ipsos. Como se sabe, este nunca é um bom sinal para as democracias.